ENTREVISTA-Venezuela no Mercosul depende de referendo,diz Sarney

Senador e influente personagem dogoverno Lula, o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) aterrissouem Nova York para tratar de literatura, mas usou sua autoridadepolítica para dar um recado ao líder venezuelano, Hugo Chávez:o ingresso da nação vizinha no Mercosul depende do resultado doreferendo de domingo. Na reforma constitucional, que vai à consulta popular emdois dias, Chávez deseja eliminar o limite para reeleição."O ingresso (da Venezuela ao Mercosul) vai depender doplebiscito, porque se o plebiscito aprovar essas cláusulasconstitucionais, abrirá uma discussão e dificilmente aVenezuela atingirá a cláusula democrática para entrar nobloco", afirmou Sarney em entrevista à Reuters nestasexta-feira. As últimas pesquisas têm apontado uma disputa muitaacirrada em torno do referendo, sem uma indicação clara do ladovencedor. Crítico de Chávez e auto-intitulado "defensor dademocracia", o senador brasileiro classifica o chavismo comouma espécie de "socialismo de fantasia". Preocupado, ele diztemer uma "corrida armamentista" na América Latina, tendo emvista os altos investimentos da Venezuela no setor. "No momento em que a Venezuela se torna uma grande potênciamilitar, obriga que os outros países (da região) venham parauma corrida armamentista.(...) Não se sabe o motivo pelo qual aVenezuela está comprando tantos armamentos", afirmou oparlamentar, ao participar de uma conferência sobre AméricaLatina em Nova York com políticos, empresários e escritores dosEstados Unidos e da América Latina. A entrada da Venezuela no Mercosul, tema que já serviu paramuito tiroteio diplomático entre autoridades dos dois países,depende da aprovação do termo de adesão pelo Congresso Nacionalbrasileiro. A oposição resiste ao protocolo, enquanto opresidente Luiz Inácio Lula da Silva apela à sua base de apoioque ratifique o acordo. Presidente na transição democrática em 1985, Sarneyalertou, porém, que não aceitará a interferência dos militaresno processo político na Venezuela. "Os militares não devem se meter nos problemas daqueleEstado." CPMF Sobre os impasses internos, o peemedebista disse acreditarna aprovação da prorrogação da CPMF até o final deste ano, masressaltou que o Palácio do Planalto precisa fazer concessões demérito e aperfeiçoar as proposta para manter a cobrança. "Nós vamos chegar a um acordo", previu. Maior partido da coalizão, o PMDB é crucial para isso. Masa legenda protagoniza uma disputa de bastidor pela presidênciado Senado, na expectativa de renúncia do presidente licenciado,Renan Calheiros (PMDB-AL), do cargo, o que ajuda a embolar asnegociações em torno da votação da CPMF. "A sucessão depende da vacância do cargo (presidência).Posso garantir que há um senador que não está interessado emdisputar a vaga: eu", afirmou. O HOMEM DO CHAPÉU-COCO Sarney passeou tranquilo pelas ruas frias de Nova Yorkdesde que chegou em Manhattan. Hospedou-se no Waldorf Astoria,como tradicionalmente fazem celebridades de Hollywood epresidentes do mundo inteiro. Trajando um longo sobretudo e luvas de couro para abater abaixa temperatura (média de 5 graus Celsius), o ex-presidentebrasileiro desfilou solene pela cidade debaixo de um negrochapéu-coco, traje habitual do ex-líder britânico WinstonChurchill, a quem Sarney homenageou noite passada, em jantarcom personalidades da literatura internacional, durantelançamento de seu livro "Saraminda", recentemente traduzidopara o inglês. "Todas as manhãs, a arrumadeira do hotel olha pra mim ediz: 'wonderfull hat!' (que chapéu maravilhoso)", revelou,orgulhoso, o ex-chefe de Estado.

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