ENTREVISTA-Pará quer fundo internacional para conservar floresta

A preservação da floresta amazônicatem alto custo e exige um fundo de financiamento com aparticipação de grupos nacionais e internacionais. A criaçãodeste fundo é o principal desafio da governadora do Pará, AnaJúlia Carepa (PT). "O que se tem de entender é que a Amazônia não é umsantuário e nem será. Ali tem gente, seres humanos quesobrevivem da floresta", disse a governadora à Reuters nestasegunda-feira. Ana Júlia, em viagem de trabalho a São Paulo, prevê anecessidade de recursos da ordem de 500 milhões de dólares (850milhões de reais) por ano. A governadora exemplifica adificuldade no combate ao desmatamento com o número dehelicópteros do Estado destinados ao policiamento: apenas um,que se juntará a outro que virá por doação. Os recursos do fundo internacional seriam empregados emdiversas ações como investimento na logística e nainfra-estrutura do combate ao desmatamento, na garantia doreflorestamento e no impedimento da extinção de espéciesameaçadas. Outra parte do dinheiro seria aplicada na gestão social,redirecionando os moradores que vivem de atividades correlatasao desmatamento, como a produção ilegal do carvão. Dados do Pará indicam que cerca de 1 milhão de pessoasdependem, direta ou indiretamente, da atividade ilegal deextração da madeira e o Estado tem um total de 7,2 milhões dehabitantes. "Não é possível que quem já destruiu sua floresta aplaudaplatonicamente o combate ao desmatamento, mas não se sintaresponsável pela manutenção da floresta", afirmou agovernadora. No Brasil, parte dos recursos poderia vir do Fundo deDesenvolvimento da Amazônia (FDA) que dispõe de 1 bilhão dereais para projetos de desenvolvimento que poderiam serredirecionados. "Há quatro décadas que se financia o desmatamento comrecursos públicos da Amazônia", diz Ana Júlia, em uma críticaaos governos anteriores, principalmente do Estado que teve trêsgestões seguidas do PSDB. IMPOSTO AGRÍCOLA Outra proposta de Ana Júlia é a criação, no projeto dereforma tributária que tramita no Congresso, de um imposto debaixa alíquota com incidência nos produtos agrícolas e mineraisvoltados à exportação. Atualmente, produtos voltados à venda noexterior são isentos de ICMS, como prevê a Lei Kandir. Agovernadora se propõe a convocar outros governadores da regiãopara batalhar pela taxa. Quanto aos recursos do exterior, seriam bem-vindos os daAlemanha e do Reino Unido, neste caso o organizado pelopríncipe Charles para o meio ambiente. Um dos Estados campeões no desmatamento, o Pará eliminou591 quilômetros quadrados de floresta amazônica entre agosto edezembro do ano passado, de acordo com levantamento doInstituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Perde apenaspara o Mato Grosso, com 1.786 km2. No total, foram desmatados 3.235 quilômetros quadrados nosúltimos seis meses do ano passado nos oito Estados da regiãoamazônica, volume que levantou um dos maiores alertas naquestão do meio ambiente no país e levou os governos federal eestaduais a implantarem uma operação de caça aos madeireirosilegais. A alta dos preços das commodities tem sido apontada como umdos principais motivos para o corte ilegal da madeira, em umaampliação da fronteira agrícola. O Pará tem o quarto maiorrebanho do Brasil. O município de Tailândia (a 235 km de Belém) foi o foco daação conjunta da Polícia Federal, das polícias civil e militarparaense e do Ibama em fevereiro. O Estado apreendeu etransportou para a região metropolitana de Belém 23 mil metroscúbicos de madeira que serão leiloados. Os leilões ainda nãotêm data marcada porque dependem da solução dos processosmovidos pelos madeireiros, que recorreram da apreensão.

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