Entrevista de Lula abriu corrida presidencial, dizem aliados

Presidente disse ao Estado neste domingo 'que nem com o povo pedindo, ele será candidato em 2010'

Ana Paula Scinocca, Leonardo Goy e Expedito Filho, do Estadão

26 de agosto de 2007 | 22h05

Ao descartar a hipótese de disputar um terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu, com antecedência de três anos, a corrida presidencial dentro dos partidos da base do governo. Entre os políticos das legendas que integram a chamada coalização, a previsão é que o número de candidatos chapa branca, que disputarão as próximas eleições com as  bênçãos de Lula, será um dos maiores da história.   Veja também: "Não me verão dar palpites sobre o futuro governo"  "No mensalão, quem errou pagará pelo erro"   56 meses de poder   Rumos do futebol preocupam  Na preliminar, exercício e elogios para a acupuntura  "Quem se acha insubstituível vira um ditadorzinho"   Em entrevista exclusiva ao Estado, publicada no domingo, o presidente disse que nem com o povo pedindo ele será candidato em 2010. Acrescentou que vai trabalhar para que haja um único candidato na base aliada.   Para o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), a entrevista foi esclarecedora. Na sua avaliação, diante da indefinição e desorganização da oposição, o "queremismo" em torno da figura de Lula poderia se transformar em tentação da base governista para uma terceira candidatura do presidente. Segundo o deputado, foi esse vazio que gerou a dúvida sobre uma nova candidatura de Lula.    "O presidente revelou ao jornal, o que já tem dito na intimidade: nem me peçam. Uma coisa é ouvir dele na intimidade e outra é ouvir publicamente através da entrevista", disse Miro.   "Devemos buscar candidatura única, mas reconheço que não será fácil. A dificuldade, porém, não deve fazer com que desistamos de tentar, de sentar e conversar", avaliou o presidente do PMDB, o deputado Michel Temer (SP), líder do principal partido da coalização. "A candidatura única seria muito útil para os costumes políticos", acrescentou ele, que defendeu um número reduzido de candidatos ao Palácio do Planalto.     O deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP) avalia que a idéia de os partidos da base do governo terem uma candidatura única na disputa pela Presidência em 2010 "é o caminho mais sensato a seguir". Segundo ele, a costura dessa aliança em 2010 precisa começar já nas eleições municipais do ano que vem. Mas reconheceu que não será "um processo fácil." Explicou: " Até porque, na eleição do ano que vem, haverádisputas regionais difíceis de serem vencidas."     Cardozo afirmou que o PT precisará ter a "grandiosidade" de abrir mão de lançar candidato próprio em 2010, caso outro partido da base aliada apresente um nome "que corresponda às expectativas e que tenha mais chances de vitória".   O PMDB de Temer reagiu eufórico à entrevista exclusiva de Lula ao Estado. É que o partido acredita que será o principal beneficiado da tese da candidatura única. "O presidente Lula tem nos ouvido com freqüência, portanto, não nos surpreendeu. Ele tem nos tratado como os integrantes da coalizão esperavam", elogiou o presidente peemedebista.   Na última quarta-feira, a pedido de Lula, Temer reuniu em sua casa os presidentes e líderes do partido de sustentação ao governo. Ali, entre taças de vinho, acertaram que já nas eleições municipais de 2008, as legendas aliadas farão um esforço para evitar disputas paroquiais .   "Opresidente Lula tem nos incentivado a sentar e conversar sobre a disputa do ano que vem. Isso é muito positivo", afirmou o próprio Temer.   Há um esforço também para se construir uma chapa para a presidência em 2010 que venha atender a necessidade de unificação da base governista. A idéia é ter uma chapa com nomes do PT e do PMDB, não necessariamente nessa ordem. O que queremos evitar, disse Temer, independente que o candidato seja deste ou daquele partido, é uma pulverização das forças que apóiam o presidente Lula.   Integrante do PT de Lula, o senador Delcídio Amaral (PT-MS), também elogiou a proposta do presidente de entendimento acerca de uma candidatura única em 2010. Mas reconheceu, como um bom petista, que a missão é espinhosa: "Não é uma tarefa das mais fáceis."  Para o senador, a questão chave para a formação dessa chapa única será definir de qual partido será o candidato.   Prevendo as costumeiras brigas petistas, anotou: "Eu entendo que o PT pretende lançar alguém. Mas acho que precisa ser feito um esforço para ajustar a aliança, mantê-la coesa. Se não for feito um trabalho nesse sentido, alguns partidos podem se desgarrar", ponderou.   O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deputado Armando Monteiro Neto (PTB-PE), avalia que, apesar de possível, não será fácil para a base aliada do governo formar uma candidatura única em 2010. "Não é fácil, mas acho que é possível. Isso dependerá principalmente do desprendimento do próprio PT", disse o deputado.   Monteiro Neto disse que não é fácil imaginar que o PT abra mão de uma candidatura própria, "até pelo peso que tem o partido". E prosseguiu: "Mas, ao mesmo tempo, sabemos que o PT não tem hoje um quadro que se coloque como um candidato natural à presidência."   O presidente da CNI disse ainda que viu com naturalidade a declaração do presidente Lula de que não disputará a eleição presidencial em 2010. "Sempre confiei que o presidente Lula respeitaria as regras, como ele Sempre declarou", disse.   Oposição   Na outra ponta, a oposição reagiu dividida. No PSDB, o senador Sérgio Guerra (CE), provável futuro presidente do partido, comemorou a decisão de Lula de sair de cena em 2010. "Nunca tive outra expectativa em relação ao presidente Lula. Nunca cogitei de ele tinha vocação para ditador. Quem teve a vida política dele não poderia ter outra atitude", elogiou Guerra.   O senador tucano acha, no entanto, que o mesmo elogio não pode ser dispensado ao PT, principalmente nos momentos em que o poder está sendo disputado. "A crítica que faço é sobre a conduta do PT nas campanhas e a conduta do governo na cooptação de apoio parlamentar e político", observou.    Líder dos Democratas no Senado, José Agripino Maia (RN) afirmou que a entrevista de Lula revela "a cara" do presidente. " A entrevista é a cara do Lula. Ele tergiversou em quase todos os temas. A única fala peremptória foi quando afirma que não será candidato em 2010, nem que o povo queira", anotou. Para ele, a promessa do presidente tem de ser cobrada nas próximas eleições.    O líder dos Democratas acredita que pode ser uma estratégia de autopreservação. Ao anunciar sua retirada da corrida ao Planalto, Lula estaria longe do fogo cruzado até a eleição. "O problema é que o que Lula fala não se escreve", advertiu Agripino.

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