ENTREVISTA-Brasil quer diálogo com Coreia do Norte--embaixador

A rivalidade do Brasil com a Coreia do Norte na estreia da seleção na Copa do Mundo ficou restrita ao campo de futebol. O governo brasileiro quer trazer de volta ao diálogo um dos países mais isolados do mundo, assim como tentou fazer com o Irã ao intermediar um acordo nuclear.

BRUNO MARFINATI, REUTERS

21 de junho de 2010 | 18h06

O Brasil abriu no ano passado sua primeira representação diplomática no país comunista, que está sob embargo e sanção por parte da comunidade internacional por seus programas nuclear e de mísseis. A missão é chefiada pelo embaixador Arnaldo Carrilho e composta por outros cinco funcionários.

"O objetivo central do Brasil é a abertura de diálogo em todos os sentidos, inclusive no que se refira à questão nuclear e ao estágio permanente de guerra do Exército Popular. Ainda há muito e muito mais por fazer. O (objetivo) do Brasil não é pequeno", disse o embaixador à Reuters desde sua residência em Pyongyang.

O comércio entre Brasil e Coreia do Norte em 2009 somou 215 milhões de dólares, segundo o governo brasileiro. Carrilho disse que acordos de negócios e de cooperação estão em andamento, inclusive reuniões já programadas com representantes do Grupo JBS, Brasil Foods e da Embrapa no segundo semestre.

"Como se vê, mantemos relações normais com a Coreia do Norte e assim tem de sê-lo, se se desejam alcançar objetivos mútuos", afirmou.

O Brasil vem buscando cada vez mais um papel de destaque internacional e, com isso, tenta fortalecer sua campanha para conquistar um assento definitivo no Conselho de Segurança, hoje formado por cinco membros permanentes e 10 temporários, incluindo nesse último grupo o Brasil.

"Um papel de mediador do Brasil na questão coreana ... implica a abertura de espaços para tal, o que ainda não ocorreu. Mas tenho esperanças", afirmou o embaixador.

Nesse contexto o jogo da Copa surgiu como uma oportunidade. Para Carrilho, esporte e cultura podem ter um papel-chave para que se crie ao longo do estreitamento das relações bilaterais um espaço para abordar assuntos mais delicados, como as questões nucleares, o comércio e os direitos humanos.

"O Brasil tem seus modos e caminhos, outros países têm os seus", explicou.

No mês passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva intermediou pessoalmente, em conjunto com a Turquia, um acordo de troca de combustível nuclear com o Irã para evitar uma nova rodada de sanções contra o país persa, acusado de querer produzir armas nucleares, o que Teerã nega.

Semanas depois, o Conselho de Segurança da ONU aprovou as sanções contra o Irã, o que teve um efeito contrário aos esforços de diálogo do governo brasileiro.

ALARME DE GUERRA

Com a Coreia do Norte, o diálogo está suspenso desde o ano passado, e a tensão na região aumentou depois dos testes de mísseis, em 2006 e 2009, e de uma investigação internacional que deu indícios de que um torpedo da Coreia do Norte foi o responsável pelo naufrágio de um navio da Marinha sul-coreana em março deste ano, matando 46 marinheiros a bordo.

A disputa foi parar na Organização das Nações Unidas (ONU). Seul pediu aos 15 membros do Conselho de Segurança que agissem para evitar uma "provocação maior", enquanto o embaixador norte-coreano na entidade alertou para uma eventual resposta militar.

Com 48 anos de diplomacia e 71 de idade, Carrilho já representou o Brasil em 14 países e participou de missões não menos conflituosas, como na Cisjordânia, Argélia, Líbano, China, Arábia Saudita e a antiga Alemanha Oriental.

Para ele, se o Conselho de Segurança aceitar a tese sul-coreana de que o Norte afundou sua embarcação, o ímpeto do "alarme de guerra" em que se encontra a Península da Coreia aumentará.

Isso porque os dois países permanecem tecnicamente em guerra desde 1953, quando uma trégua informal pôs fim à Guerra da Coreia, que tirou a vida de quase três milhões de pessoas.

"Não se comprovou ainda se a corveta Cheonan foi partida e afundada por torpedo, muito menos lançado por submarino do Norte. Há suspeitas generalizadas que não", disse o embaixador.

Uma nova condenação da ONU, seja retórica, militar ou econômica, atingiria ainda mais os 23 milhões de habitantes do empobrecido país, que também já não conta com a ajuda financeira outrora vinda do vizinho do Sul.

No ano passado, o Produto Interno Bruto do governo comunista atingiu 40 bilhões de dólares, enquanto a Coreia do Sul registrou 1,33 trilhão de dólares, segundo uma publicação da Central de Inteligência dos Estados Unidos.

COREIA ISOLADA

O isolamento econômico é tão severo, que até mesmo os recursos do Itamaraty chegam à embaixada em Pyongyang por intermédio de Pequim. O Brasil prepara a doação de 100 mil toneladas de alimentos e já tem reservados 200 mil dólares para levar soja, arroz, açúcar e leite em pó à Coreia do Norte, afirmou o embaixador.

A Pyongyang se chega por trem, a partir de Pequim e Tantongue, ou por avião, desde a capital chinesa e Cheniangue, ou Vladivostok, no extremo oriente da Rússia. Mas o turismo é praticamente inexistente, e as dificuldades são grandes devido à austeridade do atual regime que governa o país.

A Internet é discada e a comunicação é feita por meio de antenas parabólicas. Carrilho contou que a escassez de produtos por conta das sanções força as 25 embaixadas instaladas na capital a recorrer à China para comprar alimentos quando não os encontram em lojas de importados no país.

"Mais sanções aplicadas à Coreia do Norte, como as sanções em geral, não resolvem problemas sociais nem tensões entre países. Ou se reveem as metodologias punitivas ou as atuais não adiantarão para nada, salvo prejudicar os povos atingidos", disse Carrilho, primeiro a representar o Brasil em Pyongyang, depois de Brasília reconhecer o país em 2001.

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