Entre paulistanos das classes A e B, um forte desejo de mudança

Alguns já se decidiram por Aécio Neves ou Eduardo Campos, mas muitos ainda estão em dúvida ou pretendem anular o voto

Lourival Sant'Anna, O Estado de S. Paulo

07 Junho 2014 | 16h00

São Paulo - Na cidade de São Paulo, a pesquisa do Ibope detectou, nas classes A/B (renda familiar acima de R$ 3.630) com ensino superior, um forte desejo de mudança sem Dilma Rousseff. Os eleitores ouvidos pelo Estado citaram principalmente a corrupção, os impostos altos e a má qualidade dos serviços públicos. Embora em geral não utilizem o Sistema Único de Saúde (SUS) e não tenham estudado em escolas públicas, eles se preocupam com sua precariedade, assim como a da segurança e a do transporte público. Alguns já decidiram por Aécio Neves ou Eduardo Campos, mas muitos ainda estão em dúvida - ou simplesmente pretendem anular o voto.

O Jardim Paulista e outros bairros das regiões sul, oeste e central de São Paulo são tradicionais redutos tucanos. Mas nem todos os eleitores hoje descontentes com o governo votaram sempre no PSDB. Fernando Mota, de 50 anos, formado em Direito e dono de um antiquário no Jardim Paulista, é filho de comunista e votou em Lula. “Depois, percebi que ele pegou o governo funcionando, tudo o que o antecessor tinha feito, e entregou tudo parado.”

Mesmo com a decepção com Lula, votou em Dilma: “Achei que ela era o novo, que não ia precisar dele. Aí percebi que não: tinha entrado numa fria. De novo não tinha nada”. Mota diz que se arrependeu “amargamente”. “Foi uma das piores bobagens que já fiz na minha vida, por causa principalmente da bandalheira que o PT instituiu no governo, usar a máquina do governo para se perpetuar no poder, que é uma coisa vergonhosa, acintosa. A maneira como eles enfrentam a Justiça, como se estivessem acima de tudo e de todos. Do jeito que está tá tudo parado, trancado.”

Neste ano, ele pretende votar em Aécio. “Vou votar para ver se consigo tirar a Dilma, o PT, afastar essa gente de lá de cima, que veio com fome atrasada no dinheiro do País e que fizeram o que fizeram, acabaram com o orgulho nacional, que é a Petrobrás, realmente uma coisa impressionante. Se Aécio é meu candidato ideal? Não. Não tem nada nem ninguém para nos guiar no momento.”

A restauradora Maria Teresa Vidigal, de 54 anos, formada em Artes Plásticas, visitava o antiquário. “Não dá mais para aguentar a situação do jeito que está”, protesta. “As escolas com ensinamentos totalmente errados. Os professores só querem ensinar coisas erradas para as crianças, que saem despreparadas das escolas. Até geografia hoje em dia é social, não existem mais rios, vales e montanhas. Fora mensalão, Petrobrás, etc.” Maria Teresa, que diz que os problemas no governo não afetaram seu trabalho, sempre votou contra o PT, “em qualquer um que podia não ser o ideal, mas para ver se não ficava o PT no governo”. Ela não acredita em nenhum partido. “Não voto nulo porque acho que é dar voto para o inimigo. Voto no menos mau”, diz a restauradora, que ainda não tem candidato neste ano. “Estou vendo se ainda aparece mais alguma coisa, mas não vai aparecer. Ainda tenho que analisar bem o que vou fazer.”

Abandono. A publicitária Patrícia Pimenta, de 60 anos votou em branco nas últimas eleições e, nos anos 1990, em Fernando Henrique Cardoso, “com o maior amor da vida e votaria nele de novo de olhos fechados”. Hoje quer “mudança radical”, porque acha que o País está “abandonado”. Mas ainda não se identifica com ninguém. “Qualquer pessoa, menos a Dilma, que é um pau-mandado, o cachorrinho de estimação do Lula”, define a publicitária. “Ele fala e ela faz. Uma coitada, que também está perdida. Morro de pena desse país maravilhoso, grande, que está na mão de uma corja de vagabundos, ladrões”, continua ela. “Estamos vivendo no meio de uma quadrilha cujo grande mentor é Luiz Inácio Lula da Silva.”

“Estou bem insatisfeito com o governo atual e acho que o monopólio de um partido só no poder por muito tempo não quer dizer democracia”, diz Alex Paulucio, de 23 anos, que trabalha com marketing no setor de moda. Sentado em um fim de tarde de quarta-feira na calçada de um café na Oscar Freire, elegante rua de compras, ele conta que votou antes no PSDB e no PMDB. Agora vai votar em Eduardo Campos. “Na verdade, estou meio sem opção e me sentindo numa sinuca de bico. Os três candidatos não me interessam muito, mas, entre os três, acho que Eduardo Campos é o mais interessante.” Ele acrescenta que “saúde e educação precisam ser priorizadas” e “está havendo muito descaso com o transporte público”.

A economista Bruna De Leo, de 31 anos, trabalha na tesouraria de um banco na Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, um corredor de edifícios modernos de escritórios. “Sempre fui peessedebista”, conta a economista, que trabalha com dólares. “A primeira vez que votei no PT foi por mudança, em 2002, quando Lula foi eleito pela primeira vez, e me decepcionei grandemente. Achei que fosse fazer as coisas pelas quais ele lutou tanto e falou tanto em campanha.”

“Não que no PSDB não tenha roubalheira. Acho que tem sujeira pra caramba”, pondera Bruna. “Mas é uma falta de vergonha na cara o que estão fazendo com este país. Então, meu voto não será nem do PSDB nem do PT.” Ela diz que o governo “alardeia aos quatro cantos que está tudo muito bem, mas não é verdade”. “As escolas não receberam uniforme ainda”, observou Bruna, no fim de abril. “E nos hospitais tem gente morrendo a todo minuto, enquanto eles vão no Sírio-Libanês.”

“Embora eu não frequente hospital público e não venha de escola pública, acho que o povo merece um pouco mais de dignidade, embora o povo que vota no PT não pense assim”, sorri Bruna. “Por enquanto, ninguém representa o que quero. Acho que vou anular meu voto. Ninguém é digno, por enquanto, dele.”

Seu colega Mauriene Carvalho, de 29 anos, disse que está “pensando seriamente” se vai votar. “Quero mudança, a princípio sem a Dilma. Na verdade, não enxergo ainda nenhum candidato que represente alguma mudança”, afirmou Carvalho, que votou no PT nas duas últimas eleições. “Estou bastante descrente com a política como um todo. A questão não é nem a Dilma, mas o próprio formato da política. O que me brocha politicamente é não ter havido uma reforma política ainda.”

Partilha. Formado em Administração e Comércio Exterior, Edcarlos Figueiredo, de 31 anos, tem preocupações de ordem, digamos, federativa. “Os governos anteriores ajudaram bastante os Estados mais pobres, do Norte e do Nordeste”, analisa Figueiredo, que faz especialização em Gestão de Tecnologia da Informação, área em que trabalha. “Mas em São Paulo e no Rio de Janeiro, os Estados mais ricos, não fizeram tanta melhoria assim. Eu entendo que a gestão deles, para esses Estados, não foi muito favorável.” Ele continua: “Então prefiro votar pela mudança, uma vez que nós somos daqui. Não desmerecendo o que fizeram, mas a mudança tem que ser focada nos Estados que geram maior riqueza para o Brasil.” Figueiredo votou no PSDB nas últimas eleições, mas ainda não se definiu neste ano: “Quero mudança, mas ao mesmo tempo não tenho nenhum candidato hoje que me dê argumentos suficientes para que eu possa votar nele”.

“Nunca acreditei no PT”, diz Mônica Soares, de 35 anos, que trabalha no setor de recursos humanos de uma empresa. Em eleições anteriores, ela também votou no PSDB, mas igualmente não tem candidato por enquanto. “Alguém que fizesse acontecer de fato a mudança que todo mundo espera, investir realmente no nosso país”, descreve, citando a saúde e a educação públicas.

Preparo. Além desses dois setores, Renata Lettiere, de 36 anos, que trabalha em uma empresa de call center, deseja melhoria também na segurança - uma área considerada de competência estadual, mas também muito citada por entrevistados em todos os lugares e de todos os perfis. “Já não votei na eleição anterior no que está hoje. Acho que não estão preparados para governar”, avalia Renata, formada em Administração de Empresas. “Acho que a classe média hoje é a que mais sofre. Paga muitos impostos e não tem o retorno em serviços”, diz Renata, que votou em José Serra na última eleição e ainda não tem candidato neste ano.

Vendedor de softwares de uma multinacional, Julio Figueiredo, de 47 anos, é um clássico eleitor tucano de São Paulo. “Sempre apostei não em PT. Vou continuar com minha crença”, afirma ele. “Sou Fernando Henrique, Mario Covas, venho dessa leva. Acho que é uma posição mais centrada, mais coerência. Negócio de aventurismo... Ainda não tenho candidato, mas imagino quem seja”, diz Figueiredo, que guarda certa semelhança física com Aécio Neves.

“Saúde e educação seriam o básico”, enumera o vendedor, para quem o que incomodou mais nos últimos anos foram os casos de corrupção. “A gente que paga uma taxa tão alta de impostos, quando pega o fim do mês e vê tudo o que vai para o governo e vê o uso que eles fazem desse dinheiro, é muito triste. É isso o que mais me preocupa: o descaso com o dinheiro público.” É a síntese do sentimento desse grupo de eleitores. 

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