Evaristo Sá/ AFP
Evaristo Sá/ AFP

Entre brigas e expectativa de reforma ministerial, Bolsonaro pede ‘pacto de silêncio’

Presidente pode abrir mais espaço para o Centrão em seu governo a partir do próximo ano

Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2020 | 18h27

BRASÍLIA – Em meio a rumores de que prepara uma minirreforma ministerial para abrir espaço ao Centrão no início do próximo ano, o presidente Jair Bolsonaro almoçou nesta terça-feira, 27, em uma churrascaria, acompanhado de quatro ministros e outros integrantes do governo. Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Luiz Eduardo Ramos, titular da Secretaria de Governo, que protagonizaram um atrito público na semana passada, não compareceram.

Pela manhã, os dois ministros e todo o primeiro escalão participaram da reunião do Conselho de Governo, no Palácio da Alvorada. Apenas o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, esteve ausente por estar infectado com o coronavírus. O Estadão apurou que Bolsonaro cobrou um “pacto de silêncio” e pediu novamente aos auxiliares que evitassem expor divergências internas.

Além de Salles e Ramos, os ministros da Economia, Paulo Guedes, e do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, também são desafetos e já discutiram publicamente.

Após a reunião ministerial, Bolsonaro foi convidado a ir à churrascaria pelo ministro da Controladoria-Geral da Presidência (CGU), Wagner Rosário, que frequenta o local há cerca de 20 anos. Também acompanharam os ministros Jorge Oliveira (Secretaria Geral da Presidência), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Fábio Faria (Comunicações).

De acordo com a gerência da churrascaria, cada um dos presentes pagou a conta individualmente. Eram cerca de 30 pessoas. O rodízio custa R$ 79,90, fora bebidas.

Bolsonaro deixou o restaurante às 13h15 sem falar com a imprensa. Já o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, ao ser questionado se pode ser alvo da reforma e ganhar uma embaixada, reagiu: “Isso é história”. Em seguida, quando perguntado sobre mudanças no governo, não respondeu.

A previsão de que haverá uma reforma ministerial nos próximos meses circula no Palácio do Planalto, mas Bolsonaro não comenta oficialmente o assunto. Integrantes do governo dizem que Salles, criticado pela política ambiental, tem chance de ser deslocado para o Ministério do Turismo, no lugar de Marcelo Álvaro Antônio. Ramos, por sua vez, pode ganhar um “cargo de prestígio”, mas o posto ainda não estaria definido.

Salles se referiu a general Ramos como ‘Maria Fofoca’

A briga entre os dois ministros se tornou pública na quinta-feira, 22, após o chefe do Meio Ambiente se referir ao general como “Maria Fofoca” no Twitter, ao comentar uma nota do jornal O Globo, afirmando que Salles estava “esticando a corda” com militares do governo. A reação de Salles ocorreu após ele considerar que Ramos agiu para tirar verbas do Meio Ambiente.

Bolsonaro determinou o fim das brigas e evitou demonstrar preferência por um ou outro, em uma tentativa de afastar mais uma crise. Salles acabou pedindo “desculpas pelo excesso”, em mensagem publicada no domingo, 25, enquanto Ramos disse que “uma boa conversa apazigua as diferenças”. 

A trégua, anunciada publicamente, foi uma solução para a blindagem de ambos no governo. Nos bastidores, no entanto, interlocutores dos dois ministros admitem que uma “guerra fria” continua.

Nesta segunda-feira, 26, Ramos jantou com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e com os ministros do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques – o desembargador só tomará posse no próximo dia 5. O ministro Ricardo Salles, segundo o blog da jornalista Andreia Sadi, foi alvo de críticas.

Desafetos entre si, Ramos e Salles têm em comum o fato de acumularem desgaste no Executivo. Na tentativa de demonstrar força, o ministro do Meio Ambiente exibe o apoio dos filhos do presidente, da ala ideológica e de parlamentares bolsonaristas. Apontado como o homem que ajudou a abrir as portas do governo para o Centrão, Ramos, por sua vez, busca o apoio de líderes no Congresso.

Maia tomou partido na briga, segundo interlocutores do governo, a pedido de Ramos. “O ministro Ricardo Salles, não satisfeito em destruir o meio ambiente do Brasil, agora resolveu destruir o próprio governo”, escreveu o presidente da Câmara, em mensagem postada no Twitter, último dia 24.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), também saiu em defesa de Ramos. “Não é saudável que um ministro ofenda publicamente outro ministro. Isto só apequena o governo e faz mal ao Brasil”, afirmou ele. 

Na mesma linha, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressistas-PR), escreveu que articulador político do Planalto é “entrosado com líderes do governo e dos partidos” e “está assegurando a governabilidade”. 

O presidente do Progressistas, senador Ciro Nogueira (PP-AL), também elogiou Ramos. “Sua atuação tem sido fundamental para a construção e estabilidade de uma base sólida no Congresso Nacional”, destacou.

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