Entre a realpolitik e a paixão dos que vestem a camisa

Conciliar a frieza da realpolitik ao calor do militante que veste a camisa é praticamente uma definição do modo de ser do PT e de seus partidários na última década. E isso se traduz na forma como a legenda e seus simpatizantes se comportaram nesse 5.º Congresso Nacional da sigla.

Iuri Pitta, O Estado de S. Paulo

16 Dezembro 2013 | 14h50

A racionalidade de um partido que está prestes a completar 12 anos no poder, diante da perspectiva de lá permanecer por outros quatro, inevitavelmente se choca com a emoção de quem viu alguns de seus líderes históricos serem presos por ordem do Supremo Tribunal Federal, Corte que os condenou no processo do mensalão. O simbolismo de ex-dirigentes como o ex-ministro José Dirceu e o ex-deputado José Genoino irem para o cárcere no feriado da Proclamação da República fez fervilhar mais o sangue dos que veem no julgamento um complô contra o PT e seu governo.

Não se poderia esperar outro comportamento da presidente Dilma Rousseff e da cúpula do PT que tentar manter distância de qualquer desagravo de quem está preso por cometer malfeitos, segundo decidiram a maioria dos ministros do Supremo, ou de pedidos de anulação do julgamento. Da mesma forma, era inevitável que os militantes fizessem manifestações contra o Supremo e a mídia, em defesa daqueles que ainda são vistos como ídolos. Seria o mesmo que esperar que um cartola do futebol tivesse controle total sobre seus torcedores.

O militante petista tem um quê de torcedor, se comparado com os de qualquer outro partido. Nenhuma legenda tem a mesma organicidade, a mesma massa que veste a camisa e defende sua bandeira com essa mescla de razão e emoção. E isso tem prós e contras. Foi essa organicidade, associada à estratégia da cúpula petista de compor uma chapa entre o ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva e o empresário José Alencar, que levou o PT ao Planalto na eleição de 2002. E agora essa combinação, novamente sob efeitos do maior escândalo que atingiu o partido, precisa mais uma vez estar combinada e afinada para confirmar nas urnas o favoritismo de Dilma Rousseff apontado pelas pesquisas de intenção de votos.

Essa mesma dicotomia entre a razão do partido no poder e a emoção da militância ideológica também tem feito surgir com mais intensidade, no campo petista, debates sobre até que ponto se deve ser leal e obediente ao governo. Não foram poucos os simpatizantes do PT que recentemente criticaram medidas da atual administração, como o leilão do pré-sal, e foram atacados pelos próprios correligionários. Em nome do governo Dilma Rousseff, toda crítica ou posição divergente é vista como dar munição ao inimigo. Voltando à analogia do futebol, a cúpula do PT sabe que o importante é ganhar o campeonato, mas parte de sua torcida ainda tem saudade dos tempos em que se entrava em campo com o coração na chuteira, sem compromisso com o placar do jogo.

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