Entrada de Serra na disputa impede renovação política, diz sociólogo

Para o professor Carlos Melo, escolha do tucano revela aposta do PSDB na mesmice

Gustavo Uribe, da Agência Estado

29 de fevereiro de 2012 | 17h08

O Brasil necessita renovar os seus quadros políticos e um dos caminhos para se chegar nessa realidade são as eleições municipais, que funcionam como uma porta de entrada para os novos nomes. Com base nesta premissa, era de se esperar que a eleição para a maior prefeitura do País, a de São Paulo, tivesse foco no novo, como chegou a ser anunciado. Neste sentido, a escolha do nome do ex-governador tucano José Serra, que a despeito de ser uma liderança já consolidada, representa um retrocesso, uma aposta na mesmice porque não é um projeto novo, uma novidade. Além disso, a escolha mostra a enorme incapacidade do PSDB em se renovar. A avaliação foi feita pelo cientista político e professor de sociologia e política do Insper Carlos Melo.

 

Melo destaca que há 16 anos, o PSDB paulista disputa as eleições para os executivos municipal e estadual com apenas dois nomes: Serra e o atual governador Geraldo Alckmin. "Em 1996, o candidato do PSDB à Prefeitura foi José Serra, em 2000 foi Geraldo Alckmin, em 2004 foi Serra novamente, ano em que foi eleito prefeito, em 2008 foi o Alckmin e, agora, em 2012, será Serra de novo", argumenta o sociólogo, questionando: "Será que os tucanos não têm outros quadros? Será que virou um feudo de apenas dois nomes que se revezam nas eleições?"

 

No seu entender, São Paulo e o próprio PSDB mereciam novos nomes, com novas perspectivas. Ele lembra que uma das críticas contundentes dos tucanos ao seu maior adversário, o Partido dos Trabalhadores, é com relação ao chamado 'patriarcalismo' de Lula na legenda. "O PSDB faz uma crítica, com propriedade, ao certo patriarcalismo do Lula no PT. E o que dizer dos dois patriarcas tucanos (Serra e Alckmin) que se revezam no poder em São Paulo? Em vez da consolidação de um patriarca, como é o caso do PT, o PSDB tem dois que se revezam."

 

Em contrapartida, Melo destaca que a opção do PT pelo nome do ex-ministro da Educação Fernando Haddad foi uma aposta acertada. E lembra que desde 2000 o PT vinha jogando suas fichas na senadora Marta Suplicy, que é também uma liderança consolidada, mas enfrenta um processo de desgaste junto ao eleitorado da cidade. Ele cita também o PMDB, que traz o deputado federal Gabriel Chalita como pré-candidato, um outro nome novo nesse tipo de embate. "Era de se esperar que o PSDB também fosse nessa linha, trazendo um nome novo para a disputa, como por exemplo o do secretário do Meio Ambiente, Bruno Covas", reitera Melo.

 

Além da crítica com relação à falta de renovação na chapa tucana, o cientista político também adverte sobre a falta de discussão sobre os reais problemas da cidade de São Paulo, nesta fase de pré-campanha na Capital. "A última coisa que está se discutindo é a funcionalidade de São Paulo, que enfrenta graves problemas, já que não conseguem nem mesmo organizar uma apuração de carnaval. Não é legítimo usar a cidade de São Paulo, simplesmente como um instrumento, enquanto uso da máquina e recursos da cidade, para se discutir 2014 porque um grupo quer tirar o outro do poder. É preciso tratar o cidadão e a cidade com mais respeito".

 

Estratégia. O presidente estadual do PSDB de São Paulo, Pedro Tobias, rebate a tese de Carlos Melo e diz que a escolha do nome de José Serra foi "uma saída estratégica adotada pelo PSDB". "É interessante que o PSDB tenha nomes novos, sim, mas eles devem encontrar o seu espaço no partido, ninguém dá espaço na política." Para Tobias, "o espaço na política não é dado, ele é conquistado e os dois (Serra e Alckmin) conquistaram espaço no partido e eles sempre pareceram os nomes mais viáveis para vencer as eleições no Estado".

 

Pedro Tobias diz ainda que é a primeira vez que o PSDB realiza o processo de prévias para a escolha do candidato do partido. E que o ex-governador José Serra, que já foi prefeito de São Paulo, pediu para entrar na eleição interna e vai concorrer com outros dois pré-candidatos. "O PSDB tem falhas e problemas, mas essa prévia foi uma vitória para a militância do partido", admite o líder tucano.

 

Também na mesma linha de defesa, o senador Aloysio Nunes Ferreira diz: "Nós temos a vantagem de ter nas eleições deste ano um candidato do mais alto valor, como político e administrador, que é o José Serra. A candidatura de José Serra é positiva, mas é claro que ainda há uma disputa no processo das prévias e os pré-candidatos do PSDB não são, a rigor, nomes novos". E avalia que "tanto ter uma renovação como ter quadros competitivos são fatores importantes, depende de cada circunstância".

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