Entidades criticam tratamento da polícia americana à jornalista brasileira

Correspondente do 'Estado' em Washington (EUA) foi algemada e detida na Universidade Yale enquanto tentava entrevistar Joaquim Barbosa, acusada de invasão de propriedade privada

O Estado de S. Paulo

27 de setembro de 2013 | 20h49

Entidades ligadas ao jornalismo criticaram a postura da polícia americana no episódio que envolveu a jornalista brasileira, Cláudia Trevisan, correspondente do Estado em Washington. Trevisan foi algemada e detida nesta quinta-feira, 26, na Universidade Yale, uma das mais respeitadas dos Estados Unidos, enquanto tentava localizar o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, que fazia uma conferência no local.

A jornalista foi algemada e mantida incomunicável por quase cinco horas, inicialmente dentro de um carro policial e depois em uma cela do distrito policial de New Haven, cidade onde fica a universidade. Sua liberação ocorreu apenas depois de sua autuação por "invasão de propriedade privada".

"Os abusos policiais contra a imprensa sempre constituem impedimentos para os jornalistas cumprirem com suas obrigações", disse o diretor-executivo da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa), Julio Muñoz. Segundo ele, no caso que ocorreu na Universidade Yale, a polícia atuou de forma "desproporcional" contra uma correspondente de um jornal estrangeiro. "Espera-se que o mesmo departamento policial ofereça um esclarecimento sobre esse fato. Se não o fizer, deve ser denunciada a medida exagerada (da polícia contra a repórter)."

O presidente da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), Marcelo Moreira, disse que a repórter estava apenas fazendo o seu trabalho e cumprindo a sua missão, que é a de informar. Segundo ele, não se justifica a jornalista ser algemada e levada para uma delegacia. "A atitude dos policiais merece ser apurada com rigor e levada a instâncias diplomáticas. Não é de se admitir este tipo de comportamento, seja em solo brasileiro ou americano. Parece claro atentado à liberdade de imprensa."

Para o professor de Jornalismo da Universidade do Texas - Austin e diretor do Centro Knight de Jornalismo para as Américas, Rosental Calmon Alves, a situação parece "um pesadelo". "Estou acostumado a ouvir esse tipo de episódio em países ditatoriais, que não conseguem conviver com a democracia e a liberdade de imprensa. É uma surpresa que tenha acontecido nos Estados Unidos, país que se orgulha da imprensa livre e da agressividade dela", disse.

Alves disse ter ficado ainda mais surpreso por esse episódio ter acontecido em uma universidade tradicional e ter envolvido a sua escola de Direito. "Se um escritor relatasse esses acontecimentos em um romance policial, iriam criticá-lo por exagerar na ficção", disse ele, lembrando que casos de abuso policial contra jornalistas são raros nos EUA.

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