Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Entenda trechos de 'live' feita por Bolsonaro sobre vinculação ao caso Marielle

Em 20 minutos de vídeo, presidente citou investigações contra filhos, criticou imprensa e falou sobre facada

João Ker, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2019 | 16h57

Era madrugada em Riad, na Arábia Saudita, quando o presidente Jair Bolsonaro fez uma transmissão ao vivo em sua página do Facebook para rebater uma reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, que envolve seu nome ao assassinato de Marielle Franco. Segundo a reportagem, um porteiro do condomínio Vivendas da Barra relatou à polícia que um suspeito de matar a vereadora esteve no local e pediu para ir á casa 58, onde vive o presidente. Em depoimento, o funcionário disse que ouviu a voz do "seu Jair" atender à chamada, mas o suspeito foi a outro imóvel, onde morava Ronnie Lessa, outro suspeito do crime.

Ao longo de pouco mais de 20 minutos de transmissão ao vivo, Bolsonaro atacou a imprensa, declarou-se perseguido e “cansado dessa canalhice”, disparando acusações contra o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), e o Grupo Globo. acusações contra o governador do RioWilson Witzel, e o Grupo Globo.

No decorrer do vídeo, o presidente cita a eleição de políticos de esquerda na América Latina, os processos contra a mãe e a avó da primeira-dama Michelle Bolsonaro, as investigações contra seus filhos, Flávio e Carlos Bolsonaro, e a facada que levou em Juiz de Fora (MG), no ano passado.

Veja abaixo o contexto de algumas citações feitas por Bolsonaro no decorrer do vídeo:

“Quem vazou esse processo para a Globo foi o seu governador Witzel”

O primeiro ponto levantado por Bolsonaro durante o vídeo é a hipótese de que o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), foi o responsável por entregar o processo do caso Marielle, que segue sob segredo de Justiça, à Rede Globo. Segundo Bolsonaro, Witzel o informou sobre o inquérito dia 9. Em nota, o ex-juiz federal negou as acusações e afirmou que jamais houve interferência no caso. "Não transitamos no terreno da ilegalidade”, disse.

​“O senhor só se elegeu governador porque ficou o tempo todo colado com o FLávio Bolsonaro, meu filho. A primeira coisa que fez agora foi se tornar inimigo, porque quer ser presidente em 2022"

O presidente também acusou o governador do Rio de ter sido eleito “porque ficou colado no Flávio Bolsonaro”, e agora se tornou inimigo da família porque quer ser presidente. Witzel tem afirmado publicamente, em inúmeras ocasiões, que tem o desejo de “suceder a Bolsonaro” na Presidência em 2022. Na campanha eleitoral de 2018, o então candidato usou a imagem do “filho 01” de Bolsonaro, mais notavelmente no segundo turno, quando a disputa com Eduardo Paes (DEM) se acirrou.

“Nós estamos vendo problemas na América do Sul, no Chile...”

No vídeo, Bolsonaro também dá a entender que estaria sendo perseguido pela imprensa para que ele deixe a Presidência. Ele cita como exemplo o que tem acontecido em outros países da América Latina. No Chile, primeiro de sua lista, a sociedade civil tem se organizado em uma onda de protestos desde o início do mês, após o anúncio de aumento na tarifa do metrô.

Por lá, pelo menos um milhão de pessoas foram às ruas no último dia 25, enquanto o apoio oficial ao presidente Sebastián Piñera chegou ao seu nível mais baixo, em 14%. As passeatas pedem melhorias em áreas como aposentadoria, educação pública e a redução das desigualdades no Chile. Durante os protestos, 20 pessoas morreram, milhares ficaram feridas e mais de 3 mil foram detidas.

“...eleição na Argentina”

No último domingo, 27, o candidato da esquerda argentina, Alberto Fernández, foi eleito presidente, em chapa que trouxe Cristina Kirchner como vice. Bolsonaro, que já se mostrava preocupado com a volta de Kirchner ao poder, declarou que o povo argentino “escolheu mal” e lamentou a eleição de Fernández. Este, por sua vez, aproveitou o discurso de vitória para declarar solidariedade ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde abril de 2018, e gritar “Lula Livre”.

“... já temos na Venezuela, há muito tempo”.

A Venezuela é comandada pelo chavismo desde 1999, um regime de base socialista iniciado pelo ex-presidente Hugo Chávez e mantido desde 2012 pelo governo de Nicolás Maduro. Nas palavras de Bolsonaro, o país vizinho viveria uma “ditadura”.

Para entender melhor a onda anti-neoliberal que vem tomando a América Latina, leia a análise aqui.

 

​​“A ‘questão’ do Flávio”

Confessando que “nem queria tocar nesse assunto”, Bolsonaro se refere à investigação que o Ministério Público Estadual tem feito sobre o envolvimento de Flávio Bolsonaro com o suposto esquema de rachadinhas em seu gabinete como deputado estadual e a ligação com Fabrício Queiroz, ex-assessor do “filho 01” que fez movimentação bancária atípica no valor de R$ 1,2 milhão, como revelou o Estado.

"Tem que se defender, porque o filho do presidente vai levar porrada o tempo todo. Não queria nem tocar nesse assunto”

Como o presidente afirma no vídeo, Flávio recorreu à Justiça três vezes para tentar bloquear as investigações sobre o caso, alegando que houve quebra irregular do sigilo de seus dados. No momento, a investigação está suspensa a pedido do ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal.

“Estão investigando outro filho meu”

Em setembro, o Ministério Público do Rio de Janeiro começou a investigar o vereador Carlos Bolsonaro (PSC) por supostamente ter empregado funcionários fantasmas e praticado esquema de “rachadinha” em seu gabinete na Câmara Municipal. As investigações correm sob sigilo em duas esferas: a criminal, nas mãos do procurador-geral de Justiça, Eduardo Gussem, com auxílio do Gaocrim; e a cível, que apura eventual prática de improbidade administrativa.

“O processo de Marielle tá bichado. Talvez devesse se federalizar”

As investigações sobre o caso da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL), executada em 14 de março de 2018, seguem há mais de um ano sem descobrir quem, de fato, ordenou o crime contra sua vida. Apesar de já terem identificado o ex-policial militar Ronnie Lessa como autor dos disparos que tiraram sua vida e do motorista Anderson Gomes, nenhuma pessoa chegou a ser formalmente acusada como mandante do assassinato.

"Quem mandou matar Jair Bolsonaro?”

O presidente refere-se à facada que levou durante sua campanha eleitoral, em 6 de setembro de 2018, enquanto participava de um ato público em Juiz de Fora (MG). Adélio Bispo foi condenado pelo crime, mas Bolsonaro decidiu não recorrer da decisão que o considerou inimputável e, consequentemente, não passível de punição criminal. De acordo com ele, houve um mandante por trás da tentativa de assassinato. “Se ele fosse maluco teria machucado mais gente”, alega no vídeo.

“Esculacharam a avó da minha esposa”

Maria Aparecida Firmo Ferreira, avó da primeira-dama Michelle Bolsonaro, foi flagrada em 1997, com posse de 169 pacotes de merla, um subproduto da cocaína, e condenada a três anos em regime fechado por tráfico. Em abril, o Estado mostrou que Maria mora em uma das maiores favelas do País, com esgoto a céu aberto e sem saneamento básico.

O caso tem sido relembrado ao longo do último ano na imprensa, assim como a ficha policial de Maria das Graças Firmo Ferreira, mãe de Michelle. Em 1998, ela foi condenada por falsidade ideológica. De acordo com declaração do presidente à época, a sogra teria apenas desejado “ficar uns 10 anos mais jovem”.

“É laranjal, laranjal, laranjal o tempo todo. O que eu tenho a ver com laranjal?”

Desde fevereiro, o PSL, partido do Presidente, tem sido investigado pelo suposto financiamento de candidaturas laranjas nas eleições de 2018. O primeiro nome afastado por envolvimento no esquema foi o de Gustavo Bebianno, então ministro da Secretaria-Geral da Presidência.

Quem também já foi citado nas investigações é o atual ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio. No início de outubro, ele foi oficialmente acusado pelo Ministério Público de Minas Gerais de ter articulado esquema de candidaturas femininas de “fachada”, para acessar recursos do fundo eleitoral de 2018. Entenda a cronologia do caso aqui.

“Tentaram incriminar o Hélio Negão”

Em setembro, a Polícia Federal começou a investigar o deputado federal Hélio Negão (PSL-RJ) de crime previdenciário. A possibilidade de inclusão indevida do nome em um inquérito foi o que motivou o ministro da Justiça, Sérgio Moro, a pedir uma apuração sobre o caso para determinar se o nome seria do deputado ou de um homônimo.

“Não tenho como interferir em lugar nenhum”

No vídeo, Bolsonaro criticou a morosidade da Polícia Federal em descobrir o suposto mandante por trás da sua facada, e alegou que “não tem como interferir” no caso. Desde agosto, entretanto, o presidente tem protagonizado uma queda de braço com Sérgio Moro quanto ao nome que chefiará a PF carioca, que também é a responsável pelas investigações contra seu filho Flávio Bolsonaro.

“Caso Santiago”

Em 2014, o cinegrafista Santiago Andrade foi morto após ter sido atingido na cabeça por um rojão, enquanto cobria manifestações civis próximas à Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Inicialmente condenados por homicídio doloso triplamente qualificado, os dois suspeitos dos crimes foram posteriormente acusados de homicídio culposo, sem intenção de matar.

“Se o processo não estiver limpo e legal, não tem renovação da concessão”

No Brasil, emissoras de TV são concessões públicas, que precisam ser renovadas de tempos em tempos. A concessão da TV Globo vence em 2023 e, segundo lei aprovada pelo então presidente Michel Temer, o presidente pode decidir sobre o assunto até um ano antes de ela vencer. Cabe ao presidente renová-la ou negá-la. O ato da Presidência precisa ser votado pelo Congresso, que pode tomar uma decisão diferente com votação de 2/5 da Câmara e do Senado. 

 

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