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Enredo surrealista

Golden shower e guerra entre olavistas e militares animam o Carnaval de Bolsonaro

Vera Magalhães, O Estado de S. Paulo

10 de março de 2019 | 05h00

Eu tinha reunido temas e entabulado conversas com fontes para duas colunas “frias” no período do Carnaval, já que, normalmente, o noticiário político dá aquela acalmada nesta época. Mas nada mais será como antes no reino de Bolsonaro, deveríamos ter aprendido desde 2018.

Começou com o “Golden Shower Gate”, como bem batizou Mariliz Pereira Jorge, mas a curta semana de confusões autoimpostas, algo que já se tornou uma marca de gestão, termina com uma inusitada guerra entre discípulos do polemista Olavo de Carvalho e a ala militar do governo.

Há tempos o guru do bolsonarismo vem voltando seus rifles lá da Virgínia para a cabeça do vice-presidente, Hamilton Mourão. Mourão tem demonstrado savoir faire ao dedicar a Olavo as respostas debochadas que suas imposturas merecem – e que o deixam ainda mais enfurecido. 

Mas a coisa ganhou outra proporção na sexta-feira, quando discípulos do curso de correspondência virtual do ex-astrólogo começaram a ser deslocados de cargos estratégicos para outros decorativos no Ministério da Educação.

Olavo, claro, estrilou. Exortou os “olavetes” – maneira pela qual, sem modéstia nem respeito, chama os próprios alunos – a deixarem todos os cargos (algumas dezenas, diz ele!) no governo Bolsonaro e se recolherem à sua rotina de estudos (que inclui, certamente, mais algumas rodadas de boletos do tal COF).

E fez mais: atribuiu, numa série de posts, a perseguição a seus aprendizes de filósofos a uma joint venture entre os militares e o empresário Stavros Xanthopoylos, que tem em comum com seu detrator o fato de militar no ramo da educação à distância – e de ter feito a cabeça dos Bolsonaro ao longo dos últimos anos.

Xanthopoylos foi cotado para assumir o Ministério da Educação nas bolsas de apostas logo após a vitória do capitão, mas foi preterido por Ricardo Vélez Rodrigues, amigo, admirador e protegido de Olavo – que rapidamente aceitou a “paternidade” pela nomeação, para demonstrar sua influência sobre o novo regime.

Essa mixórdia que opõe bastiões importantes da ascensão de Bolsonaro – militares, olavistas e os empresários entusiasmados com a possibilidade de derrotar o PT– é um fio desencapado que deveria preocupar os estrategistas mais próximos ao presidente, se esses não fossem, na sua maioria, militantes de redes sociais.

Em pouco mais de dois meses, já começaram a ruir algumas vigas mestras da narrativa de sucesso de Bolsonaro: 1) Os “postos Ipiranga” que dão alguma credibilidade ao governo, Sérgio Moro e Paulo Guedes, foram algumas vezes desautorizados; 2) A “nova política” de combate à corrupção e rigor com o dinheiro público sucumbiu ao laranjal de Fabrício Queiroz e das candidaturas femininas do PSL, e 3) a festejada comunicação direta com o povo resultou na fritura em dendê de um ministro e sua demissão, e, depois, despejou golden shower sobre a família brasileira. 

Tudo isso causa fissuras cada vez mais aparentes no monólito de apoio de Bolsonaro à direita. O arranca-rabo público do até então guru com os militares, estes sim um dos pilares mais sólidos e orgânicos que o presidente ouve e respeita, tem o poder de agravá-las e de levar a rupturas em áreas sensíveis da administração, como o já citado Ministério da Educação e o Itamaraty, ambos comandados por “olavetes” e focos de irritação dos pragmáticos militares.

Por fim, é importante lembrar que todos esses episódios do Carnaval para lá de animado do reino Bolsonaro não foram provocados pela esquerda, que só consegue ofertar o espetáculo ridículo da tal presidência paralela do ex-Nilo do lixão, Zé de Abreu. É tudo obra e graça do próprio presidente e de seu núcleo mais próximo. Joãosinho Trinta não seria capaz de conceber enredo tão rocambolesco.

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