Engenheiro contradiz depoimento de Jader

O engenheiro agrônomo Raimundo Hugo de Oliveira Picanço afirmou nesta quarta-feira à Polícia Federal que a decisão de encaminhar o processo de desapropriação da Fazenda Paraíso para Brasília, em 1988, foi do então ministro da Reforma Agrária e atual presidente do Senado, Jader Barbalho (PMDB-PA).Responsável pela inspeção da área, Oliveira confirmou que a propriedade, pertencente ao empresário Vicente de Paula Pedrosa da Silva, estava irregular.Vicente de Paula é acusado de ter sido intermediário do senador na venda dos Títulos da Dívida Agrária (TDAs) da fazenda para o ex-banqueiro Serafim Rodrigues Morais e sua mulher, Vera Arantes Dantas.O depoimento desta quinta-feira contradiz o que o parlamentar explicou na terça-feira, quando foi interrogado pelo delegado da PF Luiz Fernando Ayres Machado.Jader afirmou que não interferia nas decisões tomadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) quando se tratava de desapropriações, já que o procedimento chegava totalmente formatado das superintendências regionais.Segundo Oliveira, porém, houve uma determinação do senador ao ex-superintendente-adjunto da autarquia no Pará, Henrique Santiago: "O argumento usado pelo ministro era para que resolvesse todos os problemas da região de Paragominas."Nesta quarta-feira, após o depoimento de Jader, o delegado da PF afirmou que seria necessário pedir a quebra de sigilo fiscal e bancário do senador para esclarecer alguns pontos da transação com TDAs.O procedimento, no entanto, depende não só da Justiça, mas da Procuraria-Geral da República, do Supremo Tribunal Federal e do Senado. Oliveira relatou à PF que tentou argumentar com Santiago que, para dar prosseguimento à desapropriação da fazenda, ainda faltavam: pesquisa da cadeia dominial da área, vistorias rural e topográfica, consulta sobre os títulos originais e levantamento cadastral - quesitos exigidos pela instrução normativa 37/85 do Incra.Mesmo assim, o superintendente-adjunto determinou que o processo fosse levado de Paragominas para Belém, onde pessoas de Brasília o esperavam.Ao chegar a Belém, segundo o relato, Oliveira foi recebido no gabinete do ex-superintendente do Incra e apresentado a outras três pessoas, entre elas Vicente de Paula. As outras duas - não se lembrou dos nomes - se identificaram como assessores de Jader e de Maria Eugênia Rios, então secretária do ministro.O engenheiro agrônomo - que na época respondia pelo escritório do Incra em Paragominas - informou que havia uma interação pessoal entre Santiago, Jader e o pai do então ministro, Laércio Barbalho.Em seu depoimento, o presidente do Senado havia garantido, nesta terça-feira, que sua relação com Santiago era meramente formal.Oliveira contou que o ex-superintendente do Incra, que morreu em acidente de carro em 1989, era também dono da empresa Free Lancer, que negociava TDAs.A confirmação foi obtida pouco depois pelo delegado da PF que o interrogou. O delegado recebeu um dossiê com os registros do empreendimento. Além disso, Santiago, conforme investigação da polícia, teria acesso aos cadastros de desapropriações, o que facilitava as negociações.Até agora, o depoimento de Oliveira está sendo considerado o mais importante, pois contradiz outras afirmações do senador.Um dos pontos principais relaciona-se à Fazenda Banack, propriedade que Jader teve antes da desapropriação da Paraíso.O presidente do Senado disse que não sabia se a área estava próxima da Paraíso, mas Oliveira assegura que a Banack realmente ficava na mesma região. Ele chegou a fazer um desenho para a PF, indicando onde estava a área pertencente a Jader.Oliveira revelou também que a Paraíso não tinha 58 mil hectares, como diz Vicente de Paula, mas 3 mil hectares. A confirmação, segundo ele, foi feita pela agrônoma Norma Iracema Santana - que também será interrogada pela PF -, que detectou que a propriedade estava sobreposta a quatro fazendas.A afirmação do engenheiro agrônomo foi confirmada pelo topógrafo Luiz Fernando da Silva Munhóz, também ouvido nesta quarta-feira pela PF.Segundo ele, a vistoria da área foi feita por avião, com custo pago por Vicente de Paula. Munhóz assegurou que o empresário estava sempre no Incra junto com o ex-secretário de Jader Hamilton Guedes, que também estaria envolvido em irregularidades no Banco do Estado do Pará (Banpará).O depoimento do engenheiro agrônomo foi assistido pelo corregedor do Senado, Romeu Tuma (PFL-SP), que vai acrescentá-lo ao relatório que está elaborando sobre a venda dos TDAs da Paraíso. "Havia muita consistência no que o agrônomo disse", observou.

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