Energia é religada em parte da Universidade Federal do Rio

O fornecimento de energia elétrica foi restabelecido no prédio da reitoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) às 14h40 de hoje, duas horas depois de o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, afirmar que qualquer retomada de negociação com a concessionária Light só ocorreria com o compromisso da empresa de religar a luz até o fim do dia. Até o fim da tarde, permaneciam sem fornecimento de energia o campus da praia Vermelha e dois institutos médicos. Paulo Renato atribuiu o corte a um problema de gestão do ex-reitor José Henrique Vilhena, que deixou o cargo há um mês e havia sido indicado pelo ministro em 1998. O atual reitor, Carlos Lessa, foi eximido de culpa pela dívida com a Light, que ultrapassa R$ 6 milhões, segundo a empresa, por falta de pagamento."Estupidamente mercantil"Ele solicitou à Secretaria da Segurança Pública o apoio da PM para impedir a entrada de técnicos da Light e acusou a empresa de ?arbitrária, truculenta, desrespeitosa, violenta e estupidamente mercantil?. Para o ministro, o problema da questão da luz na UFRJ foi um problema de gestão, não é responsabilidade de Lessa, porque ele assumiu há um mês. O pagamento está atrasado desde o começo do ano. "Nós já tínhamos feito uma renegociação com a Light no ano passado e honramos, mas infelizmente a universidade deixou de pagar a luz este ano?, disse o ministro.Ele afirmou que foi surpreendido pelo corte na segunda-feira. ?Me surpreendeu porque tivemos uma reunião na sexta-feira com a Light e representantes da universidade, em Brasília. Estávamos tratando do assunto e havia proposta feita pelo ministério, que deveria ser analisada pela Light, mas antes que houvesse a volta dessa negociação veio o corte de luz.? Paulo Renato determinou que houvesse uma nova negociação ?dentro do compromisso da empresa de restabelecer a luz ainda hoje?. Ele afirmou que a verba extra de R$ 10 milhões prevista para reparações urgentes na UFRJ não será usada para quitar a dívida com a Light.SurpresaO reitor acusou a empresa de interromper ?unilateralmente? a negociação com a universidade e o ministério. ?Foi uma surpresa. Quero acusar a Light de comportamento desrespeitoso, violento, politicamente incorreto e estupidamente mercantil, porque ela colocou seu nome como o de uma empresa que comete arbitrariedades?, disse Lessa, que tinha colado no peito um adesivo com a frase ?Nós somos a luz?.Segundo o reitor, a Light cortou a luz do prédio da reitoria na ?calada da noite?. ?Eles cortaram os fios e puseram alta tensão. Eu ordenei o religamento, mas os meus técnicos disseram que havia risco de eletrocução.? Lessa pediu dois carros de polícia para colocar nas entradas do campus. ?A Ilha do Fundão é território federal, sagrado. Não pode ter intromissão de nenhuma organização armada sem que haja autorização, e a Light vai com seus seguranças. A universidade é a casa da liberdade, e não se entra com nenhuma truculência.? Na Sorbonne nãoA Light alega que não havia acordo formal com a UFRJ nem intenção de pagamento, por isso fez o corte. ?É um espetáculo de absoluta truculência. Me pergunto se eles fazem isso com a Sorbonne na França, não fazem. Agora, a Light, que é uma subsidiária dos franceses, faz isso no Brasil com a maior universidade pública federal do País", criticou o reitor. "Em 1998, ela aceitou parcelar a dívida por quatro anos. A Light sabe que governo federal paga suas contas. O que ela fez comigo, inaugurando uma administração em que a universidade está procurando resgatar sua dignidade, é uma indignidade. Mas professores, funcionários e alunos decidiram continuar suas atividades mesmo sem luz.?O reitor disse que vai levantar a situação de um terreno de 9 mil metros quadrados que a Light usa no Fundão ?sem pagar aluguel?. ?Vou declarar a Light será persona non grata na universidade e procurar o embaixador da França, porque o que ela está fazendo é uma barbárie. Só negocio com o presidente da Light se houver o pedido de desculpas pelos problemas que causou. Se a Light quiser me processar, que entre na Justiça. Se eu for para a cadeia, irei por uma bela causa: a defesa do estado nacional brasileiro contra a arbitrariedade das concessionárias publicas.? O Procuradoria da República no Estado abriu procedimento administrativo, que precede a instauração de inquérito, para investigar o corte de energia na UFRJ. Se a energia não for restabelecida em até quatro dias, ele deverá adotar medidas judiciais contra a Light. Segundo a Procuradoria, a Light não pode cortar a energia de serviços essenciais como saúde e educação.24 horasA Agência Nacional de Energia Elétrica deu prazo de 24 horas para a Light explicar a decisão e convocou a direção da empresa para uma reunião em Brasília.Segundo o ministro, a Procuradoria da UFRJ deve analisar uma punição à concessionária pelo fato de ter prejudicado, com o corte, o atendimento nos institutos médicos da instituição. ?Não vamos deixar a universidade sem luz. Infelizmente, acho que foi um problema de gestão, porque nenhuma outra universidade está passando por esse problema. Acho que o Vilhena deve ter pago outras contas, que houve uma inversão de prioridades?, disse o ministro.O ex-reitor não foi localizado nesta terça-feira pela reportagem. Ele foi nomeado em 1998 por Paulo Renato, que não acatou a indicação do colegiado da UFRJ, que referendara o nome do economista Aloísio Teixeira para a reitoria. A escolha de Vilhena, o menos votado na lista tríplice, provocou uma crise na universidade, que teve a reitoria ocupada por estudantes e funcionários durante 75 dias após sua posse.

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