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Encalacrada

Política e economia vão mal e exigem solavancos que Temer não pode dar

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2016 | 05h00

O presidente Michel Temer tem conseguido aprovar medidas importantes no Congresso e já ensaia o envio da reforma da Previdência, mas a crise política castiga os ânimos, enquanto a alta expectativa de recuperação da economia não está se confirmando. Quanto mais alto o voo (ou a expectativa), maior o tombo (ou a frustração). E uma frustração nessa área sensível é o pior dos mundos para Temer, que já farejou o perigo e tenta acionar quadros tucanos para equilibrar-se na “pinguela” a que se refere Fernando Henrique Cardoso.

Armínio Fraga na Fazenda, Pedro Parente no Planejamento e Antônio Imbassahy na Secretaria de Governo seriam um sonho, mas isso é inviável neste momento. Armínio não quer, Parente é decisivo na Petrobrás (uma das poucas áreas a dar boas notícias a Temer e à opinião pública) e consta que o PSDB acaba de rejeitar a coordenação política, fosse Imbassahy ou não.

Mas o principal motivo para não mexer na equipe agora é que qualquer solavanco geraria ainda mais incertezas e afugentaria ainda mais os investimentos. Mesmo com a ressalva de que não se esperava uma resistência tão forte da crise política, que impacta a economia, o “time de ouro” vai se revelando de ouro de 14 quilates, mas não dá para mudar os anéis sem ameaçar os dedos. Os riscos seriam consideráveis.

Por ora, a ideia é consultar cada vez mais Armínio e Parente, entre outros economistas que entendam a conjuntura e projetem ideias para além da visão financista de Henrique Meirelles. Mas a questão é o tempo. “Pinguelas” exigem reflexos e decisões rápidas. E, se a economia patinou em 2016, precisa entrar em 2017 com um mínimo de otimismo. Além dos agentes econômicos, que produzem crescimento e emprego, e dos analistas, que comandam “ratings” e humores dos capitais, quem exige respostas é a população, que sofre diretamente o efeito de tudo isso.

A pasmaceira na economia alia-se ao desgaste do Congresso, que o regime presidencialista empurra porta adentro do Planalto. A semana passada começou com o trauma da Chapecoense e terminou com o presidente do Senado virando réu no Supremo e os deputados e senadores pintados para uma guerra que não têm como vencer: as delações da Odebrecht, maior financiadora de campanhas políticas por décadas. Se a Lava Jato já encharca o Congresso, imaginem os vazamentos.

Ao “fazer picadinho” do bom trabalho da Comissão Especial das dez medidas anticorrupção, como acusou o relator Ônix Lorenzoni (DEM), o plenário da Câmara confirmou o quanto os deputados estão apavorados. E, ao tentar assar com urgência o “picadinho”, a cúpula do Senado mostrou que não está nem um pouco mais tranquila. Diz tudo a reunião de líderes, até mesmo petistas e tucanos, com o já quase réu Renan Calheiros para tentar aprovar rapidinho o Frankenstein da Câmara, que, a pretexto de combater a corrupção, tenta combater os que combatem a corrupção.

O Senado jamais deveria endossar açodadamente um pacote votado pelos deputados na calada de uma noite marcada pela comoção da tragédia do Chapecoense. O correto seria incluir na pauta da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e empurrar para 2017, para não trazer o profundo desgaste da Câmara para dentro do Senado e não empurrar para o presidente da República a encalacrada de sancionar ou vetar algo tão impopular.

O ambiente parece todo deteriorado e os tucanos estão longe de escapar disso, mas o PSDB nunca teve alternativa senão apoiar Temer e a “ponte para o futuro”, como definiram os peemedebistas, ou a “pinguela”, como resigna-se FHC agora. “Quem pariu Matheus que o embale.” Jogar Matheus para o alto seria apostar no salve-se quem puder. A população mais vulnerável nunca pode.

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