Empresas evitam se expor, alegam partidos

Dirigentes deixam de lado o princípio da transparência e ressaltam que lei não proíbe ocultação de financiadores

Clarissa Oliveira, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

Apesar da polêmica em torno do fato de partidos políticos atuarem como intermediadores de doações de campanha, as legendas não disfarçam. Admitem abertamente a prática e argumentam que a lei lhes permite adotar esse modelo de contribuição. Mais do que isso, alguns dirigentes dizem atuar em benefício dos doadores, para evitar que fiquem expostos diante da ação da imprensa. Outros alegam que é melhor ter apenas o nome das siglas nas prestações de contas do que destinar ao caixa 2 boa parte dos recursos que financiam candidaturas."Muitos dos nossos doadores têm medo de se expor. É uma precaução contra o uso político muitas vezes irresponsável que eventualmente se faz dessas doações. O fato é que setores da mídia e até do Judiciário não aceitam as regras do jogo eleitoral", diz o presidente municipal do PT, José Américo Dias, que ajudou a coordenar a campanha da ex-ministra Marta Suplicy na última eleição. Destacando que o mecanismo é legal, o presidente nacional da sigla, deputado Ricardo Berzoini (SP), diz que a legenda não tem motivos para recusar a doação se a pessoa ou empresa interessada em contribuir quiser fazê-lo por meio do partido. "Alguns empresários temem que uma doação seja entendida como contrapartida", afirma.O secretário-geral do DEM, Saulo Queiroz, nega que o quadro atual represente um retrocesso em termos de transparência das prestações de contas. "O que é pouco transparente é o que se fazia antes, em que quem doava preferia fazê-lo pelo caixa 2, por não querer seu nome atrelado à campanha, por inúmeros motivos", afirmou Queiroz, citando como exemplo o fato de um doador se dispor a repassar recursos para um determinado candidato, mas preferir que os adversários não tomem conhecimento. Coordenador da campanha do ex-governador Geraldo Alckmin na capital paulista, o deputado Edson Aparecido (SP) admite que a prática interfere na transparência do processo eleitoral. "O drama é, claramente, que essas pessoas que contribuem só o fazem sob a condição de que seja feito via diretório. Como está dentro da lei, o partido não recusa."O presidente nacional do PMDB, deputado Michel Temer, diz que cabe à Justiça Eleitoral e autoridades competentes fiscalizar, para garantir que as doações de campanha sejam feitas de forma regular. "Nessas doações, a lei é rigorosamente cumprida", afirmou. Ele reconheceu, entretanto, que seria positivo o estabelecimento de critérios para assegurar que as doações via partido respeitem todos as regras e limites estabelecidos na legislação eleitoral.Na mesma linha, o presidente do comitê financeiro da campanha do PP em São Paulo, Jordi Shiota, destaca que "o procedimento é legal". "Até abril, como determina a lei, o PP entregará à Justiça Eleitoral sua prestação de contas."A discussão ajuda a reacender entre os partidos o debate sobre o financiamento público de campanha. "As pessoas se queixam das doações privadas nas campanhas, mas não mexem uma palha para mobilizar a sociedade pelo financiamento público", cobrou Américo Dias. Para Aparecido, o debate da reforma política no Congresso deveria abranger as regras de prestação de contas e o financiamento.

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