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Empresários usam ‘motociata’ para coletar dados de apoiadores e criar rede de contatos

Apoiadores de Bolsonaro que acessavam site preenchiam cadastro prévio; organizadores querem usar informações para viabilizar novos atos

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2021 | 15h47

BRASÍLIA – A ‘motociata’ do presidente Jair Bolsonaro em São Paulo, no sábado passado, 12, serviu para que empresários por trás da manifestação construíssem um imenso banco de dados com informações pessoais de milhares de pessoas. Elas foram levadas a preencher um cadastro prévio sob o pretexto de que os registros eram necessários para promover a segurança do chefe do Poder Executivo. Com os dados, o grupo, que diz ter coletado registros de 500 mil pessoas, pretende construir uma rede digital bolsonarista e viabilizar novos atos em favor do presidente.

Para venderem como obrigatório o cadastramento dos interessados no evento, os empresários diziam que se tratava de orientação do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência. Agora, esses empresários, com pretensões políticas e comerciais, detêm uma ampla rede de contato com eleitores e consumidores.

O empresário bolsonarista Jackson Vilar da Silva, 41, deu a cara à organização, na condição de presidente da recém-criada Embaixada do Comércio de São Paulo. Pastor e dono de uma loja de móveis na Zona Sul de São Paulo, ele concorreu para deputado federal em 2018, pelo Pros.

Defensor incondicional de Bolsonaro, ele já usou suas redes para comparar o presidente a Jesus Cristo e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Barrabás, personagem bíblico apontado como criminoso. Na capital paulista, Vilar tem apelado por visibilidade ao promover manifestações contra medidas restritivas de circulação pelo governo de São Paulo. Em uma delas, fez ameaças públicas ao governador João Doria (PSDB) e passou a ser alvo de investigação policial.

Contudo, o site que recolheu os dados pessoais foi registrado por um amigo dele, um advogado que contribuiu para a criação da entidade e não se expôs como organizador do evento denominado “Acelera para Cristo”. Roberto Jorge Alexandre, 42, é filiado ao Podemos (ex-PTN), partido pelo qual disputou a eleição em 2010. Tem empresa que atua com defesas administrativas e recursos de multas de trânsito.

Eles exigiram nome completo, CPF, número de celular, data de nascimento, e-mail, nome da mãe, modelo da moto e placa. O empresário nega interesse em fazer uso comercial dos dados que colheu. “Não posso nem fazer isso. E aquelas pessoas não são do ramo que eu atuo. Só atuo com ônibus, transporte rodoviário e de cargas”, disse.

Apesar de negar uso comercial das informações, ele confirmou que os dados deverão ser reutilizados no futuro. “Interessa para a Embaixada do Comércio se comunicar com pessoas, mandar e-mails para próximos eventos. Mas não era essa a intenção. É porque o GSI pede mesmo o cadastro de pessoas”, disse.

Segundo Alexandre, o banco de dados está guardado em uma nuvem. No sábado, o site sofreu um ataque hacker de sobrecarga, que prejudicou o acesso por cerca de três horas, mas nenhum dado teria sido roubado. Em mãos erradas, as informações são suficientes para aplicação de golpes e ofertas ilegais de produtos e serviços.

A organização de apoiadores via rede social está na essência da ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência da República e na de seus aliados em cargos eletivos. Avesso à imprensa e ao contraditório, ele governa pelas redes sociais e conta com narrativas que circulam em grupos de aplicativos como WhatsApp e Telegram. Seus apoiadores estão por trás de contas inautênticas, notícias falsas e ataques contra adversários.

Na área em que busca controlar a narrativa, o bolsonarismo vem enfrentando reveses, com queda de engajamento. Em ação para conter contas falsas e robôs, o Twitter excluiu, na segunda-feira, 14, milhares de usuários, o que impactou o número de seguidores de aliados do presidente. O monitoramento da consultoria AP Exata mostra que as menções negativas a Bolsonaro superam os 60%.

Roberto Alexandre diz, ainda, que o pedido de cadastro foi feito após uma reunião com representantes do GSI, em São Paulo, que tratou da segurança do presidente. Ao menos 1,8 mil nomes teriam sido entregues ao governo para que fossem selecionadas as pessoas que integrariam o pelotão de Bolsonaro no passeio de moto.

Por nota, o GSI informou que “não se manifesta sobre protocolos de segurança e outras ações” referentes a eventos com a presença do presidente, do vice e dos familiares deles.

Uma praça de pedágio da Rodovia dos Bandeirantes registrou 6,6 mil motos no evento. Já a Polícia Militar informou que 12 mil motociclistas participaram do ato. O meio milhão de dados coletados, de acordo com organizadores, seria explicado pelo viés da campanha que fizeram. Nas redes, prometeram o sorteio de uma moto aos inscritos. No entanto, o site que recebeu os cadastros apresenta apenas uma finalidade, a de ampliar a segurança do evento. “Necessário fazer o cadastro no site para a própria segurança do presidente. Não paga nada”, dizia a mensagem. A página não traz nenhum aviso sobre uso futuro.

Lei Geral de Proteção de Dados 

A utilização para outro fim, como querem os empresários, pode configurar infração à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O advogado Francisco Gomes Jr, especialista em direito digital, pontua que a lei exige que a finalidade da coleta do dado seja seguida à risca. Portanto, não é possível que o objetivo seja alterado.

Como a ideia apresentada era garantir a segurança do presidente, ele afirma que o banco de dados deveria ser destruído após o evento. “É uma colheita ilegal, se a pessoa não sabe a finalidade. Se colheu cadastro para ‘x’ e está fazendo para sorteio ou envio de correspondência, também não está de acordo com a LGPD. Se a finalidade que está escrita é a questão da segurança, só poderia ser utilizada para isso”, disse.

Procurado por mensagem e telefonemas, Jackson Vilar não respondeu aos contatos da reportagem.

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