DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Empresário que vendeu Covaxin ao governo rejeita seguranças oferecidos pela CPI

Na carta aos senadores, Maximiano nega qualquer tipo de irregularidade na negociação de compra da vacina indiana e classifica as denúncias como parte de uma guerra política e diz não ter nada a falar contra o Planalto

Lauriberto Pompeu, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2021 | 10h59

BRASÍLIA  -  Responsável por vender a vacina indiana Covaxin para o governo federal, o empresário Francisco Emerson Maximiano, sócio-administrador da Precisa Medicamentos, encaminhou à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid uma carta em que rejeita seguranças oferecidos pelo colegiado. A CPI apura suspeitas de corrupção envolvendo o processo de contratação. Na carta, ele também diz não ter nada a falar contra o governo.

"O investigado Francisco Maximiano não se sente e jamais se sentiu ameaçado", disse em documento enviado à CPI e assinado por ele e por seus advogados, Ticiano Figueiredo e Pedro Ivo Velloso.

Na carta aos senadores, Maximiano nega qualquer tipo de irregularidade na negociação de compra da vacina indiana e classifica as denúncias como parte de uma guerra política: "Quem precisa de proteção é essa população que se vê em meio a uma briga política".

O dono da Precisa está convocado para depor na comissão, mas afirmou que não tem a intenção de trazer fatos que prejudiquem o governo de Jair Bolsonaro. "É inequívoco que o investigado Francisco Maximiano não tem qualquer fato a depor perante essa CPI contra o atual governo", consta no documento enviado aos senadores do colegiado.

O relator da comissão, senador Renan Calheiros (MDB-AL), criticou a atitude de Maximiano e declarou que a CPI faz um levantamento de quem ele é e de casos passados em que ele foi alvo de apuração de irregularidades. "Ele mandou uma carta dizendo que não precisava (de seguranças). A garantia de vida é para não prevaricar. Esse cara com esses segredos todos, lidando com milicianos..."

Como o Estadão revelou na terça-feira, 22, o governo comprou a Covaxin por um preço 1.000% maior do que, seis meses antes, era estimado pela própria fabricante. Telegrama sigiloso da embaixada brasileira em Nova Délhi, de agosto do ano passado, ao qual a reportagem teve acesso, informava que o imunizante produzido pela Bharat Biotech tinha o preço avaliado em 100 rúpias (US$ 1,34 a dose). Em fevereiro deste ano, o Ministério da Saúde pagou US$ 15 por unidade (R$ 80,70, na cotação da época) - a mais cara das seis vacinas compradas até agora.  

Ao contrário dos demais imunizantes, negociados diretamente com seus fabricantes (no País ou no exterior), a compra da Covaxin pelo Brasil foi intermediada pela Precisa Medicamentos. A empresa virou alvo da CPI da Covid, que na semana passada autorizou a quebra dos sigilos telefônico, telemático, fiscal e bancário de um de seus sócios, Maximiano. O depoimento do empresário na comissão estava marcado para esta semana, mas ele alegou estar em quarentena após voltar da Índia e não compareceu.

Além da Precisa, Maximiano também é presidente da Global Saúde, empresa que já foi alvo de ação por irregularidades em contrato com o Ministério da Saúde. A denúncia foi apresentada pelo Ministério Público Federal do Distrito Federal à época em que Ricardo Barros (Progressistas-PR), hoje líder do governo Bolsonaro, era ministro. Na ocasião, a pasta pagou R$ 20 milhões para comprar remédios de alto custo a pacientes com doenças raras, mas os produtos nunca foram entregues.  

Procurado pelo Estadão, Ricardo Barros disse desconhecer os motivos que levaram o governo Bolsonaro a negociar com Maximiano.

 

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