Empresário é elo entre Fiesp e empreiteira

Fernando de Arruda Botelho foi flagrado em conversas sobre remessas de dinheiro para políticos em 2008

David Friedlander, O Estadao de S.Paulo

27 de março de 2009 | 00h00

A Operação Castelo de Areia aponta para o envolvimento pessoal do empresário Fernando de Arruda Botelho, um dos sócios do grupo Camargo Corrêa, no suposto esquema de distribuição de dinheiro para partidos políticos apontado pela Polícia Federal. Vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Botelho foi grampeado pela PF discutindo uma aparente confusão com recursos que a empreiteira teria mandado para Brasília. Nesse diálogo aparece o nome de Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp): "Eu falei com o Paulo Skaf agora e ele falou que não foi feito ainda", afirmou Botelho.Do outro lado da linha estava Pietro Bianchi, diretor da Camargo Corrêa preso na quarta pela Polícia Federal. Botelho queria saber dele o que havia acontecido com o dinheiro enviado pela empreiteira para Brasília, já que Skaf indagara sobre o destino da verba. "Foi passado lá pro pessoal de Brasília... contactaram o menino da Fiesp e eles dividiram", disse Pietro a Botelho. "Mandaram uma parte pro PSDB, outra pro PS ". A PF não sabe o que PS significa.De acordo com pessoas próximas à empresa e à Fiesp, Botelho estaria levantando dinheiro na construtora para distribuir entre políticos e partidos escolhidos por Skaf. Além de contribuir com políticos da confiança da Fiesp, Skaf mantém o projeto de construir uma carreira política própria já nas próximas eleições.Isso explicaria a ausência de menções ao PT nas conversas entre os executivos da empreiteira. Os relatórios da PF citam PPS, PSB, PDT, DEM, PP, PMDB e PSDB, embora a Camargo Corrêa seja grande doadora eleitoral também para o PT. Nos grampos da PF, no entanto, as discussões giravam em torno de recursos que a empresa entregaria a políticos indicados por Skaf - e não escolhidos por ela própria. No início da conversa com Pietro Bianchi, Botelho pergunta: "Que aconteceu com o negócio lá da Fiesp?"Foi assim que entendeu o juiz Fausto De Sanctis, da 6ª. Vara Criminal Federal, que autorizou a Operação Castelo de Areia: "Os diálogos monitorados revelam tratativas e possíveis entregas de numerários supostamente a políticos e a partidos políticos oriundos, em tese, da empresa Camargo Corrêa, com a suposta intermediação da Fiesp, direta ou indiretamente", escreveu o juiz.O criminalista José Roberto Batochio, advogado de Skaf, reagiu às suspeitas sobre o presidente da Fiesp. "São doações realizadas por empresas filiadas à Fiesp e que contribuem para campanhas de políticos afinados com o ideário da cadeia produtiva. Assim como existe a bancada da saúde, por exemplo, há a bancada da cadeia produtiva. Ninguém pode impedir que as empresas contribuam dentro dos limites legais."Formalmente, Fernando Botelho está afastado das funções executivas da Camargo Corrêa há cerca de cinco anos. Ele é casado com uma das três herdeiras de Sebastião Camargo, fundador do grupo.Apaixonado por aviões, Botelho transformou sua fazenda de São Carlos (SP) em palco de uma feira para amantes da aviação, com exibições acrobáticas e exposição de modelos. Anos atrás, ele construiu uma réplica do Demoiselle, aeroplano criado por Santos Dumont, que fez seu primeiro voo em 1907, em Paris. Procurado, Botelho não se manifestou. TRECHOSEm sua decisão, o juiz federal Fausto Martin De Sanctis aponta interceptações específicas em que o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, é citado. Os interlocutores Pietro Bianchi, diretor da Camargo Corrêa, e Fernando Botelho discutiram no dia 15 de setembro "o que aconteceu com o negócio da Fiesp" e falaram, também, sobre entrega de valores.Fernando - Que é que aconteceu com o negócio lá da Fiesp? Pietro - Nada, por quê? Foi dado o dinheiro... alô... Fernando - Foi dado o dinheiro? Pietro - Foi... foi passado lá pro pessoal de Brasília...contactaram com o menino lá da Fiesp... e eles dividiram lá... mandaram uma parte pro PSDB, outra parte pro PS... tem uma distribuição que eles fizeram lá em Brasília. Fernando - Foi coisa nossa, ou foi lá em Brasília? Pietro - Foi em Brasília que fizeram a divisão lá, junto com aquele... o rapaz que está coordenando, né? Fernando - Não... ele falou que nós fizemos isso... (...) Fernando - Eu falei com o Paulo... eu falei com o Paulo Skaf agora e ele falou que não foi feito ainda... Pietro - Ué... como não foi feito ainda? Eu vou te pôr a par... eu vou ligar pra lá... eu te dou uma informação... Fernando - Eu quero uma informação correta tua, Pietro. Pietro - Claro, em que telefone você tá, Fernando? Fernando - (inaudível)... Pessoal nosso que mexer nisso, né...

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