Empresário, diplomata, mecenas. E uma só vida

Moreira Salles foi protagonista de momentos cruciais da vida política brasileira

Laura Greenhalgh, de O Estado de S. Paulo,

28 de maio de 2012 | 10h52

De menino da roça a cidadão do mundo, a história do mineiro Walther Moreira Salles (1912-2001), cujo centenário de nascimento celebra-se na segunda-feira, 28, bem poderia render filme ou livro daqueles calcados em sagas pessoais. Mas a complexidade do personagem parece maior: a criança que sai aos cinco anos de idade, em lombo de burro, de Pouso Alegre para Poços de Caldas, cruza um século de profundas transformações.

Move-se num Brasil que se urbaniza, numa economia agrícola que se expande para o setor primário e de serviços, numa capital à beira-mar que envereda para o Planalto Central. Foi nessa paisagem mutante que Moreira Salles assumiu, ainda jovem, o controle de uma casa bancária. Depois uma união de bancos. E uma poderosa gama de negócios em setores como mineração, petroquímica, agroindústria.

Foi protagonista de momentos decisivos da vida política brasileira. Negociador da dívida externa, embaixador em Washington, ministro da Fazenda no gabinete parlamentarista de Tancredo, serviu a quatro presidentes: Getúlio, Juscelino, Jânio e Jango. No regime militar, quase foi cassado. Quando nada mais precisava provar e nada se lhe exigiria, criou um instituto cultural modelar, o IMS.

O Estado produziu um especial com relatos e histórias do banqueiro que virou mecenas, sem perder o DNA de servidor público. Leia:

Memórias de um negociador sob medida

ENTREVISTA - Pedro Moreira Salles, banqueiro

"Ele teria ficado bem surpreso". Assim, com poucas palavras, o presidente do Conselho de Administração do Itaú-Unibanco, Pedro Moreira Salles, define a reação que seu pai teria, se vivo fosse, diante da crise financeira que abalou renomadas instituições financeiras em 2008. A voracidade especulativa definitivamente não combinava com o vinco e o bom corte dos ternos de Walther Moreira Salles, o banqueiro que mais de uma vez largou o leme de suas empresas para acudir o País em duras negociações da dívida externa; ou para azeitar relações bilaterais como embaixador em Washington.

Para refletir sobre a presença paterna no cenário nacional e internacional, exatamente no centenário de nascimento de Walther Moreira Salles (que acontece amanhã, 28 de maio), Pedro concede esta rara entrevista. É também o momento em que, ao lado dos irmãos Fernando, Walter e João, anuncia o início do processo de análise e sistematização dos arquivos do embaixador, uma personalidade que marcou não só o mundo econômico, mas a vida política e cultural do País. A conversa parte do sudoeste de Minas. É inescapável.

Qual foi a influência sobre o seu pai do pai dele, João Moreira Salles, que cedo puxou o filho para os negócios?

Meu pai falava de meu avô, com quem não convivi, com enorme carinho. Era um homem do interior, de origem humilde, um comerciante. Há histórias folclóricas sobre João Moreira Salles, como a de que teria saído a pé de Cambuí para Pouso Alegre, onde meu pai viria nascer em 1912. A verdade é que a origem dos negócios foi uma casa de secos e molhados, depois um armazém em Poços de Caldas e lá o banco nasce como um escritório que negociava títulos dos cafeeiros locais. Quanto ao fato de meu pai ter começado a trabalhar cedo, creio que era o hábito da época. A família morava em cima da loja, então provavelmente ele voltava do colégio, passava por lá e via o pai atendendo os clientes. Isso fez com que desenvolvesse uma ideia que ficou para a vida toda, de que banco é serviço. Pessoas servindo pessoas. Depois levou a mesma ideia adiante, servindo o País.

 

Continuação: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,empresario-diplomata-mecenas-e-uma-so-vida,878972,0.htm

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.