WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Empresário da Delta diz ter acertado propina para Cabral por reforma do Maracanã

Ex-governador teria cobrado 5% da construtora; Cabral não é réu no processo em que Cavendish disse isso, mas foi citado

Mariana Sallowicz, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2017 | 19h56

RIO - O empresário Fernando Cavendish, da empreiteira Delta Construções, afirmou em depoimento à Justiça que o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) cobrou propina de 5% para que a construtora participasse do consórcio que faria a reforma do estádio do Maracanã. Segundo ele, o acerto era feito em parcelas mensais com dinheiro em espécie. Cavendish negou que o peemedebista tivesse pedido o dinheiro para campanha eleitoral. 

"2011 não era ano de campanha (…) Com certeza não (fui informado sobre o uso do recurso para campanha)”, disse ao juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio. O ex-governador tem sustentado em seus depoimentos ao magistrado que os recursos que recebia eram caixa dois de campanha eleitoral, negando a cobrança de propina. Cabral não é réu nesse processo, mas foi citado pelo empresário. Procurada, a defesa do ex-governador disse que só irá se manifestar após tomar conhecimento do depoimento completo.

O acusado disse ainda que os recursos em espécie para o pagamento da propina do Maracanã foram gerados pelo empresário Adir Assad, também réu no processo. Cavendish afirmou que Assad entregava esses recursos para o caixa dois da Delta. Além do pagamento de propina, o dinheiro também era usado para pagamento de fornecedores em espécie e conseguir melhores condições com eles. 

  

Cavendish e Adir Assad estão entre os alvos da Operação Saqueador, deflagrada em junho do ano passado para apurar as suspeitas de lavagem de R$ 370 milhões em obras tocadas pela construtora.  Segundo as investigações, Cachoeira, Assad e Marcelo Abbud eram os responsáveis por criar as empresas fantasmas que lavavam os recursos públicos, por meio de contratos fictícios, que eram sacados em espécie, para o pagamento de propina a agentes públicos, de forma a impedir o rastreamento das verbas. “Assad emitiu notas, a gente pagava as notas e ele as emitia. Eram notas por serviços não feitos”, disse. 

Reunião. Cavendish afirmou que à época do acerto da entrada no consórcio tinha “grande proximidade” com Cabral. "Fui conversar com ele sobre a possibilidade da minha empresa participar do consórcio que estava sendo conduzido pelo Odebrecht. Ele entendeu meu pedido”, disse. Segundo o empresário, o ex-governador citou então que tinha um acerto de pagamento de propina de 5% com a Odebrecht e que para entrar no consórcio teria que fazer o mesmo. "Me falou que tinha que pagar também os 5% de propina. Eu admito que isso aconteceu”, afirmou. 

O empresário afirmou que orientou então a funcionária Claudia Maria Salgado, também ré no processo, a fazer o pagamento em dinheiro por meio de Carlos Miranda, apontado como operador do esquema de Cabral. Sobre outros “mimos” feitos a Cabral, em referência ao anel de cerca de R$ 800 mil dado a mulher do ex-governador, Adriana Ancelmo, não quis responder. 

Claudia, que também prestou depoimento hoje, confirmou que entregava os pagamentos a Miranda, mas negou que soubesse que se tratava de pagamento de propina. “Eu não questionava para o que era (...) Não tinha poder de decisão, fazia o que me mandavam”, disse a Bretas. Ela contou ter recebido uma planilha com o valor que tinha que ser acertado mensalmente.

“Os valores eram definidos pelo Fernando (Cavendish) e o Carlos Miranda vinha me procurar para receber”. A ex-funcionária da empresa assumiu que sabia do uso de caixa dois pela construtora, mas afirmou que acreditava ser para pagamento de menos impostos e de fornecedores que não tinham nota.

Cavendish foi questionado por Bretas se teria interesse em compensar os cofres públicos pelo que fez. Ele respondeu que reconhece os erros que cometeu e disse que fará tudo que está ao seu alcance para "minimizar isso da forma que for correta".

"Quero manifestar profundo arrependimento pelos erros que cometi (...) Desde 2012 venho sofrendo, perdi tudo que construi. Mas tenho consciência que isso aconteceu pelos meus erros", disse. O empresário afirmou ainda que vê o futuro com outra atitude e que agora sabe dividir bem o certo e o errado. "Quero colaborar com a Justiça e ter oportunidade de reconstruir a minha carreira profissional, quero fazer parte de um novo momento desse País".

Além de Cavendish e Assad, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou em junho do ano passado Carlinhos Cachoeira, Cláudio Abreu e Marcelo Abbud por associação criminosa, em um esquema de corrupção, desvio e lavagem de dinheiro, no qual a empreiteira Delta repassou valores a 18 empresas de fachada pertencentes aos operadores, totalizando os mais de R$ 370 milhões desviados.

Segundo as investigações, Cachoeira, Assad e Marcelo Abbud eram os responsáveis por criar as empresas fantasmas que lavavam os recursos públicos, por meio de contratos fictícios, que eram sacados em espécie, para o pagamento de propina a agentes públicos, de forma a impedir o rastreamento das verbas. 

 

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