Beto Barata|Estadão
Beto Barata|Estadão

Empresários admitem ter intermediado pagamentos da Andrade Gutierrez a ex-executivo da Eletronuclear

Carlos Gallo, da CG Consultoria, disse em depoimento ter recebido quase R$ 3 mi por meio de três contratos com a empreiteira; o valor, segundo ele, foi repassado a empresa de Othon Luiz Pinheiro da Silva; Josué Augusto Nobre, da JNobre Engenharia e Consultoria Ltda., disse saber que contrato era fictício

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2016 | 15h26

RIO - Os empresários Carlos Gallo, dono da CG Consultoria, e Josué Augusto Nobre, dono da JNobre Engenharia e Consultoria Ltda., admitiram nesta quarta-feira, 27, ter atuado como intermediários para que o ex-presidente da Eletronuclear Othon Luiz Pinheiro da Silva, investigado por um esquema de corrupção nas obras da usina de Angra 3, recebesse dinheiro da construtora Andrade Gutierrez quando já estava à frente da estatal. Nobre também disse saber que os contratos firmados com a empreiteira e com a Aratec, de Othon, eram fictícios.

Em audiência aberta na 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, Gallo admitiu que a CG recebeu quase R$ 3 milhões por meio de três contratos com a empreiteira, dinheiro que foi repassado à Aratec Engenharia, empresa de Othon. 

“O Dr. Othon, em 2008, me solicitou... ele disse que tinha feito um serviço para a Andrade Gutierrez na área de energia, anterior a ele como presidente da Eletronuclear. Como ele foi nomeado presidente, esse serviço não havia sido efetivamente cobrado, e ele, até para ajudar em negócios futuros (ele era obcecado por um projeto de turbinas), ele precisava receber da Andrade Gutierrez. Ele perguntou se eu poderia, através da minha empresa, receber esse dinheiro para ele”, contou Gallo.

O executivo disse ainda que aceitou o negócio em função da amizade com Othon, quem conhecia havia 10 anos, e da qualificação profissional do almirante. Afirmou ainda que não se sentiu enganado, mas tampouco teria admitido o negócio se soubesse que o dinheiro era fruto de propina.

“Ele alegou que, como era presidente da Eletronuclear, não queria fazer direto para a empresa que ele tinha com a filha (Ana Cristina Toniolo, também investigada na ação). Eu levantei esse problema (de ocultação de recursos), questionei. Mas ele disse ‘nunca envolveria minha filha se eu não estivesse bem seguro sobre esse serviço’”, acrescentou Gallo.

Havia ainda a expectativa de que a CG Consultoria atuasse em serviços de projeto e execução na concepção das turbinas idealizadas por Othon. Essa perspectiva também pesou para que o executivo aceitasse o negócio.

A CG Consultoria é uma das empresas acusadas de receber dinheiro de propina de empreiteiras que operavam na obra de Angra 3 por meio de contratos de fachada. Esses recursos teriam sido repassados posteriormente a Othon por meio de pagamentos à empresa Aratec Engenharia. As outras duas são a JNobre e a Deutschebras. Seus sócios também vão depor à Justiça nesta quarta.

A JNobre Engenharia, inclusiv, entrou no círculo por intermediação de Gallo. Foi ele quem apresentou Othon ao sócio da empresa, Josué Augusto Nobre, também réu no processo.

“Eu disse ‘Othon, eu gostaria de parar com esse tipo de coisa, isso está me atrapalhando’. Ele perguntou se conhecia alguém para fazer esse tipo de serviço. Falei com o Josué, expliquei, e disse que eu ficaria responsável pelo projeto das turbinas e que ele participaria junto”, afirmou Gallo.

Ao todo, a CG Consultoria recebeu R$ 2,93 milhões da Andrade Gutierrez, em valores brutos. De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), R$ 2,045 milhões foram repassados à Aratec. A diferença corresponde a impostos pagos e a despesas operacionais, alegou o executivo.

Os contratos com a Andrade Gutierrez foram firmados entre Gallo e Olavinho Mendes, funcionário da empreiteira. Em depoimento na última segunda-feira, 25, Mendes, que firmou acordo de delação premiada, afirmou que forjava objetos para que os contratos fictícios parecessem reais. “Ele me passou os termos do contrato e os elementos para eu discutir um estudo em cima daquilo. Olavinho passou o que precisava para caracterizar o contrato”, disse Gallo.

Na Aratec, o contato de Gallo era Ana Cristina Toniolo, filha de Othon e sócia na empresa do pai. Segundo o executivo, o objeto do contrato era decidido em comum acordo. “Eram serviços (para Aratec) que eu combinei com a Ana Cristina”, afirmou o executivo da CG.

A advogada Ana Beatriz Saguas, que defende Ana Cristina, afirmou que o depoimento confirma que a filha de Othon apenas secretariava o pai. “Ela não teve participação ativa, sequer imaginava”, disse.

JNobre. Em seu depoimento, Nobre, dono da JNobre Engenharia e Consultoria Ltda., disse que aceitou ser o intermediário do negócio entre Andrade Gutierrez e Aratec porque queria se aproximar da empreiteira e de Othon.

“Temos de um lado uma das maiores empresas do país. Do outro lado, Dr. Othon com um projeto muito interessante e que, no futuro, poderia trazer algum resultado positivo para mim. E ainda tem Carlos Gallo (sócio da CG Consultoria, que também atuou como intermediária entre a Andrade e Othon) dizendo que fazia esse trabalho há 3 anos. Ele me ofereceu ter um vínculo com a Andrade e com a Aratec”, afirmou Nobre.

A JNobre recebeu R$ 1,4 milhão da Andrade Gutierrez entre 2012 e 2013, segundo a denúncia do Ministério Público Federal (MPF). Cerca de R$ 800 mil foram repassados à Aratec. A diferença correspondia a impostos e despesas operacionais, descontados do valor principal. “Eu sabia que a empresa não prestaria nenhum serviço à Andrade Gutierrez, nem contrataria serviço da Aratec. Era só para fazer o dinheiro andar. Mas não sabia que era dinheiro sujo”, disse o executivo.

O dono da JNobre reforçou mais de uma vez que aceitou o trato porque desejava ter contatos com a Andrade Gutierrez e com Othon, quem considerava um profissional renomado em sua área. “Estava me abrindo um leque que talvez nunca na minha vida eu tivesse essa oportunidade”, disse. Ele encontrou o almirante apenas uma vez, quando foram apresentados brevemente, e nunca fechou negócios com a empreiteira, contou no depoimento.

Segundo Nobre, o último pagamento à Aratec ocorreu em março de 2014, no valor de R$ 35 mil. Antes disso, ele havia tido problemas de saúde e, mesmo recebendo da Andrade, não repassou dinheiro à empresa de Othon. “Em janeiro de 2014, Ana Cristina (Toniolo, filha de Othon e sócia do pai) me ligou, mas não posso asseverar que era uma cobrança.” Depois, o empresário faliu e ainda ficou devendo dinheiro à Aratec.

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