Empresário acusa funcionário da Petrobrás de mentir

Dono da agência de Marketing Muranno Brasil, que afirmou ter recebido de Youssef cerca de R$ 3,5 milhões por serviços prestados à petrolífera manda e-mail a funcionário da Petrobrás que alegou desconhecer o executivo

Fabio Fabrini e Andreza Matais, O Estado de S. Paulo

29 de outubro de 2014 | 21h00

Brasília - O empresário Ricardo Vilani, dono da agência de marketing Muranno Brasil, enviou nesta quarta-feira, 29, um e-mail ao funcionário da Petrobrás Sillas Oliva, no qual se diz "impressionado" e o acusa de mentir ao ter afirmado ao Estado que não o conhece nem à sua empresa. Na mensagem, Vilani avisa que tem guardados e-mails provando que Oliva o convidou para trabalhar para a companhia petrolífera sem licitação e contrato.

Em entrevista ao Estado, Vilani disse que o doleiro Alberto Youssef, personagem central do esquema de corrupção investigado na Operação Lava Jato, pagou cerca de R$ 3,5 milhões por serviços supostamente prestados pela empresa à Petrobrás. Segundo ele, a convite de Oliva, a Muranno fez eventos para divulgar o etanol brasileiro em etapas da Fórmula Indy, nos Estados Unidos. Ele afirma que o trabalho foi feito sem licitação e contrato.

A Muranno é citada nas investigações da Lava Jato como uma das empresas que receberam dinheiro desviado das obras da Refinaria Abreu e Lima (PE), por meio de empresas do doleiro, repassando propina a políticos e agentes públicos. Em depoimento à Polícia Federal, após firmar acordo de delação premiada, Youssef contou que integrantes da agência ameaçaram revelar o esquema de corrupção se a Petrobrás não pagasse dívida por supostos serviços prestados. Segundo a versão do doleiro, o ex-presidente Lula teria ficado sabendo do caso e mandado o então presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, "resolver essa merda". Lula não comenta as declarações. Gabrielli nega.

Procurado pelo Estado na segunda para comentar as declarações do empresário, Oliva - que é ex-gerente de Álcool e Oxigenados da Petrobrás e atualmente está lotado na  Gerência de Marketing e Comercialização da Diretoria de Gás e Energia - disse que não conhece a Muranno e Vilani, tampouco os chamou para trabalhar na estatal: "Desconheço".

No e-mail enviado a Oliva, às 7h22, Vilani protesta: "Estou impressionado com tua declaração ao jornal 'O Estado de SP', quando afirmou que desconhece a ação nos EUA com a Indy para atender tua gerência".

Na mensagem, o empresário avisa: "Ainda tenho alguns e-mails que trocamos, incluindo a agenda da prova de Indianápolis. Porque você mentiu? Já não basta o que estou passando, sendo taxado de partícipe de um esquema que eu nunca soube que existiu!"

Vilani nega ter feito ameaças à Petrobrás e que sua empresa tenha sido usada no esquema investigado. No e-mail, por fim, ele agradece ao funcionário da Petrobrás: "Obrigado pela tua mentira".

Conforme os investigadores da Lava Jato, os pagamentos do doleiro começaram a ser negociados na época da CPI da Petrobrás de 2009, que investigava irregularidades em contratos de comunicação. Vilani se reuniu com o então diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, que acionou Youssef para quitar a dívida.

O empresário diz ainda que procurou o ex-diretor após seu desligamento do cargo, ocorrido em 27 de abril de 2012, e ofereceu a ele comissão de "20% a 30%" para que ajudasse a receber o restante da dívida, de cerca de R$ 2 milhões. O encontro teria ocorrido na empresa Costa Global, de Paulo Roberto. "Mandei um e-mail, oferecendo um percentual disso, uma comissão para ele. Acho que seria justo. Talvez eu até tenha uns e-mails dele", afirmou, acrescentando, contudo, não ter recebido o valor.

A Polícia Federal identificou repasses à Muranno de ao menos R$ 2,3 milhões, feitos pela MO Consultoria, do doleiro, e a Sanko Sider, fornecedora da Petrobrás investigada. Outra empresa de Vilani, a Mistral Comunicação, recebeu mais R$ 2,1 milhões da MO, como mostram registros de extratos bancários obtidos pelo Estado. As transferências ocorreram entre novembro de 2010 e janeiro de 2011.

Conforme laudo do Ministério Público Federal, a Muranno transferiu R$ 3 milhões para as contas de Vilani e de duas agências de carros de luxo. 

O PPS pediu à CPMI da Petrobrás a convocação de Vilani, além da quebra dos sigilos dele, de suas empresas e de Gabrielli. "Ele (Gabrielli) precisa explicar se orquestrou mesmo o pagamento do 'cala boca'", justificou o líder do partido na Câmara, deputado Rubens Bueno (PR).

Procurados, a Petrobrás e Oliva não se pronunciaram.

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