Juan Guerra/Divulgação
Juan Guerra/Divulgação

Empresariado brasileiro minimiza danos de cancelamento de visita aos EUA

Grupo está em Washington discutindo novos negócios; especialistas apontam, no entanto, possíveis prejuízos para empresas americanas

Denise Chrispim Marin, Ricardo Chapola e Cláudia Trevisan, O Estado de S. Paulo

17 de setembro de 2013 | 22h37

Enquanto Palácio do Planalto e Casa Branca anunciavam o cancelamento da visita de Estado da presidente Dilma Rousseff a Washington, uma delegação com mais de 20 empresários peregrinava pelos centros de decisão econômica do governo de Barack Obama.

Representantes do Conselho Empresarial Brasil-EUA foram recebidos nos departamentos de Estado, Comércio e Tesouro e na Representação de Comércio. Segundo o chefe da delegação brasileira, o ex-embaixador do Brasil em Washington Rubens Barbosa, houve manifestações de decepção de ambos os lados com o cancelamento da primeira visita de Estado de um presidente brasileiro em 25 anos, mas a motivação empresarial não foi interrompida. "A visita não estava em discussão havia dois meses, desde as primeiras denúncias sobre a espionagem americana no Brasil. Mesmo antes disso, não estava em discussão nenhum acordo bilateral relevante, com exceção do Global Entry", afirmou.

O acesso do Brasil ao programa americano Global Entry estava em discussão e seria um dos únicos anúncios previstos na visita da presidente Dilma aos EUA. Previa o acesso facilitado em território americano de visitantes frequentes, como empresários, que evitariam as filas do controle de imigração.

No Brasil, o chefe executivo da Câmara Americana de Comércio (Amcham), Gabriel Rico, também avalia que o "embaraço diplomático" não vai afetar as relações comerciais. "Respeitamos muito a decisão da presidente neste momento, por razões diplomáticas. Temos a esperança de que essa viagem aconteça a médio prazo", afirmou Rico, para quem o governo americano é sensível aos motivos pelos quais Dilma não vai a Washington. "As relações econômicas e comerciais vão seguir no ritmo que vinham seguindo", disse o executivo.

No que se refere a negócios que envolvem diretamente o governo, o pessimismo é maior. "Antes do adiamento, havia a expectativa de que a visita pavimentasse o caminho para o fortalecimento da relação bilateral. Agora, a expectativa é de que ela não deteriore ainda mais", afirmou João Augusto de Castro Neves, analista de América Latina do Eurasia Group.

Na opinião de Carl Meacham, diretor do Programa para Américas do Center for Strategic and International Studies, a decisão representa "enorme retrocesso" no processo de construção de confiança mútua.

O cancelamento da viagem de Dilma também afeta a imagem internacional dos EUA, dizem analistas. "A grande questão é: o que está acontecendo com a influência americana no mundo?", ponderou Meacham.

Tanto Castro Neves quanto Meacham acreditam que empresas americanas que atuam em setores estratégicos enfrentarão dificuldades em seus negócios com o governo. A vítima mais evidente é a Boeing e sua intenção de vender 36 jatos para a Força Aérea Brasileira, em um contrato de US$ 4 bilhões. A companhia esperava que houvesse avanço nas negociações ou até o anúncio da compra na visita oficial de Dilma.

Companhias de setores de segurança de redes de computação, de telecomunicações e de energia também estarão sob pressão. "Certamente haverá uma tempestade política se uma companhia americana ganhar a rodada de leilões do pré-sal em outubro", disse Castro Neves, referindo-se à suspeita de espionagem da Petrobrás.

Peter Hakim, do Inter-American Dialogue, esperava que os dois países encontrassem uma solução que "encapsulasse" a crise gerada pela espionagem e permitisse que os demais temas bilaterais fossem tratados. Mas reconheceu que as justificativas apresentadas por Washington não responderam às preocupações de Brasília. "Por que os EUA não podem dizer ‘não vamos mais fazer isso?’"

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