Empresa teve motorista como sócio ‘laranja’

Ex-funcionário de Carlos Roberto Cortegoso, dono da Focal, entrou na Justiça pedindo indenização; acordo previa silêncio sobre negócios

Mateus Coutinho, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2016 | 08h07

Após dez anos trabalhando como motorista pessoal de Carlos Roberto Cortegoso, dono da CRLS e da Focal Confecções e Comunicação Visual, segunda maior fornecedora da campanha da presidente afastada Dilma Rousseff, Jonathan Gomes Bastos admite ter atuado como laranja do empresário. Bastos negociou na Justiça um acordo com seu ex-chefe para receber uma indenização mensal de R$ 6 mil por 12 anos e ficar em silêncio.

O acordo foi proposto no fim do ano passado, ao mesmo tempo em que ele acionou a Justiça contra seu antigo patrão pedindo indenização de R$ 4 milhões por não ter recebido dinheiro movimentado em uma das empresas de Cortegoso na qual aparecia como sócio até 2011 – a CRLS. O valor é referente ao lucro que a empresa teria obtido ao adquirir e depois revender em 2010 sete terrenos do pecuarista José Carlos Bumlai, em São Bernardo do Campo (SP).

Antes de entrar com o processo na Justiça, os advogados de Cortegoso e de Bastos negociaram um acordo. Nele, contudo, o valor que seria acertado ficaria em menos de um quarto do que foi pedido pelo ex-motorista inicialmente: R$ 846 mil divididos em 144 parcelas mensais.

Pelo acordo, Cortegoso teria ainda que pagar todas as dívidas que Bastos tivesse herdado por causa da empresa. Uma das cláusulas do documento encaminhado ao juiz da 4.ª Vara Cível de São Bernardo do Campo previa que cada um dos envolvidos devia manter sigilo sobre as informações “pessoais ou profissionais”.

Cortegoso nunca chegou a assinar o documento, mas teria realizado os pagamentos para Bastos, extrajudicialmente, até maio deste ano, segundo informou a própria defesa do ex-motorista à Justiça. No documento do acordo, porém, há apenas as assinaturas de Bastos e de sua advogada, e nem sequer há espaço para as demais assinaturas.

Outra cláusula do documento prevê que um dos imóveis de Cortegoso ficasse como garantia dos pagamentos e que o ex-motorista iria desistir de ações referentes as outras empresas que estavam em seu nome.

Diante do juiz, a defesa do empresário não comentou o acordo. Ela contesta as alegações de Bastos e diz que a CRLS se tornou alvo de ações trabalhistas somente após a saída do ex-motorista do quadro societário. Alegam também que não há nenhum processo trabalhista nem execução fiscal no nome de Bastos devido a CRLS e pedem a anulação da ação. O processo corre em segredo de justiça.

Custo Brasil. Bastos começou a trabalhar como office-boy para Cortegoso em 2004 e, a pedido do chefe, forneceu seu nome para a composição de quatro empresas.

Destas, uma já foi encerrada e outra, a CRLS, está na mira da Operação Custo Brasil apontada como uma das firmas que teriam sido usadas para movimentar propina da Consist ao PT em um suposto esquema que desviou R$ 100 milhões em operações de créditos consignados de servidores do Ministério do Planejamento.

No ano passado, Bastos foi notificado de ações trabalhistas envolvendo outras empresas nas quais diz ter figurado como laranja e buscou ajuda para tentar provar que não está envolvido em irregularidades.

Procurados, os advogados de Cortegoso e Bastos não quiseram comentar o assunto.

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R$ 4 milhões é o valor da indenização pedida na Justiça por Jonathan Gomes Bastos ao empresário Carlos Roberto Cortegoso, dono da Focal, de quem foi motorista e admitiu ter sido laranja.
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