Epitácio Pessoa|Estadão
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Empresa de aliado de deputado foi contratada por cooperativa

Firma de empresário que fez dobradinha eleitoral com Baleia Rossi (PMDB) em 2014 foi responsável por obra suspeita da Coaf

José Maria Tomazela, ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

08 Fevereiro 2016 | 02h17

BEBEDOURO - A empresa contratada para a construção de um centro de distribuição da Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (Coaf), em Bebedouro, pertence ao empresário Gustavo Spido, que fez dobradinha com o presidente do PMDB estadual, Baleia Rossi, nas eleições de 2014. A obra, que recebeu repasse de R$ 384 mil do governo do Estado – de um contrato no valor total de R$ 1,2 milhão assinado em 2013 com a cooperativa – está paralisada.

A Coaf foi o alvo principal da operação Alba Branca, do Ministério Público Estadual e da Polícia Civil, que apura superfaturamento de preços e pagamento de propina em contratos da merenda escolar.

Durante a investigação, Baleia Rossi foi apontado como um dos beneficiários do esquema. Spido concorreu a deputado estadual em 2014, mas não se elegeu – na mesma eleição, Rossi foi eleito deputado federal.

O empresário foi citado como suposto destinatário de R$ 200 mil que, segundo um dos presos na operação, Adriano Miller Gilbertoni Mauro, seriam, na verdade, para Baleia Rossi. Conforme Mauro, o próprio presidente da Coaf, Cássio Chebabi, teria se reunido com o peemedebista para entregar o dinheiro, mas voltou com a recomendação de que fosse entregue a Spido, o que também não ocorreu. Nessa época, o empresário estava em campanha ao lado de Baleia.

Ao Estado, Spido disse que a declaração de Mauro não tem fundamento, mas está sendo usada politicamente por adversários. “A única relação que tive com a Coaf se dá pelo fato de minha empresa (Spido Engenharia) ter sido subcontratada por uma construtora para desenvolver a estrutura metálica e instalações elétricas do packing-house, em área concedida pela prefeitura à cooperativa.”

A Coaf obteve da prefeitura a doação de uma área de 10 mil metros quadrados. Para custear a obra, o governo Geraldo Alckmin (PSDB) aprovou a liberação de R$ 800 mil pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento, por meio do projeto Microbacias II, com recursos do Banco Mundial. Para completar o custo de R$ 1,2 milhão, a Coaf entraria com outros R$ 400 mil.

Suspenso. O Estado chegou a liberar aproximadamente 49% (R$384 mil) do valor, mas suspendeu o repasse após a investigação sobre as fraudes na merenda virem à tona. A diretoria interina da Coaf afirma que a cooperativa chegou a aplicar R$ 200 mil, mas passou a atrasar as contraprestações.

Segundo Spido, pelo contrato assinado com a construtora, a obra deveria durar 55 dias, mas em função das dificuldades da Coaf para honrar os pagamentos, o prazo acabou se prorrogando. A obra está parada e não há previsão de conclusão. Spido afirma que passou a fazer contato com a cooperativa na tentativa de receber o crédito de R$ 150 mil.

O empresário faz oposição ao prefeito Fernando Galvão (DEM) e se anuncia como pré-candidato à prefeitura nas eleições municipais de outubro. Segundo ele, o prefeito é que deve explicar os contratos da merenda escolar com a Coaf. “A prefeitura de Bebedouro foi a primeira a entrar na lista das investigadas”, disse.

A força-tarefa do MP e Polícia Civil envolvida na operação esteve no prédio da prefeitura e apreendeu documentos e arquivos de computadores. A ação teve origem em depoimento do ex-colaborador da Coaf, José Roberto Fossaluza Júnior, que apontou o então diretor de Compras e Licitação do município, Paulo Sérgio Garcia, como a pessoa que negociava contratos da prefeitura, supostamente superfaturados, com o então presidente da Coaf.

Disputa. Garcia, que atualmente chefia o gabinete da prefeitura, disse que seu nome foi citado por vingança, por ele ter se negado a reconhecer a autenticidade de certidões apresentadas por Fossaluza para obter um empréstimo. “Ele saiu daqui dizendo que ia me prejudicar, logo depois prestou o depoimento à polícia envolvendo meu nome.”

Fossaluza não foi localizado pela reportagem. O prefeito informou que os contratos com a Coaf foram regulares.

A reportagem não localizou ontem Baleia Rossi, que nega envolvimento com a chamada “máfia da merenda”. Na sexta-feira, ele disse ao Estado que trata-se de uma disputa política local. “É uma briga local, pois apoio o Spido.” / COLABOROU PEDRO VENCESLAU

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