Empresa da Lava Jato faz zepelim para Eletronorte

Grupo do qual Engevix faz parte obteve contrato sem licitação a fim de construir dirigível; estatal diz não haver qualquer irregularidade no projeto

FÁBIO FABRINI / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2015 | 02h03

Suspeita de integrar o cartel de empreiteiras que atuou na Petrobrás investigado na Operação Lava Jato, a Engevix recebeu da Eletronorte a missão de fazer o primeiro dirigível de carga a serviço do governo brasileiro. A empreiteira é dona de 50% da Airship do Brasil, que já obteve da estatal R$ 3 milhões para entregar em 2016 um zepelim que servirá para construir e inspecionar linhas de transmissão. Os outros 50% da Airship do Brasil pertencem ao Transportes Bertolini Ltda.

O contrato com a Eletronorte, que prevê repasses de R$ 37 milhões, foi assinado em fevereiro do ano passado - antes, portanto, do início da Lava Jato, deflagrada em março -, com dispensa de licitação, sob o argumento de que a Airship é a única empresa no País capaz de desenvolver o projeto. A fornecedora nunca fabricou um dirigível nos moldes previstos, mas tem experiência na construção de balões-guindaste e aeróstatos (aeronave não tripulada, sustentada com gás mais leve que o ar).

O projeto envolve também a construção de uma fábrica em São Carlos (SP), já em curso, onde será feito o dirigível. Para isso, além da verba da estatal do setor elétrico, a empresa obteve financiamento de R$ 102,7 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A instituição não informa quanto já repassou por meio do empréstimo.

Os R$ 3 milhões já pagos pela Eletronorte foram transferidos entre agosto e dezembro para compra de materiais e realização de testes. A Eletronorte diz que a Engevix continuará no projeto, pois nenhuma irregularidade foi detectada. Nos últimos anos, o presidente da Airship foi o vice-presidente da empreiteira, Gerson Almada, preso em novembro na Lava Jato.

Sem relação. "Se ela (Engevix) tem alguma coisa fora do conceito ético, não é no projeto da Airship. Posso garantir. Mostro a cara e mostro tudo", diz o diretor de Operação da Eletronorte, Wady Charone Júnior. Ele afirma que o projeto é auditado "com rigor" pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e pela Eletronorte. "Todos os contratos da Engevix estão sob suspeita. Até concordo. Mas, então, vá examinar tudinho", diz.

A Airship foi fundada em 2005 pela Engevix e a Transportes Bertolini, que não é investigada na Lava Jato. Dono da outra metade do capital, o sócio assumiu a presidência da empresa em novembro, dois dias antes da prisão dos empreiteiros.

Pesquisa. Funcionário de carreira da Eletronorte, nomeado para o cargo na cota do PT, Charone diz que teve um "clique" anos atrás e começou a pensar sobre o uso do zepelim. Sem "saber de nada", pesquisou e concluiu que a tecnologia era viável para o setor elétrico. Mais tarde, o projeto foi aprovado pela Eletrobrás e o contrato, celebrado.

A promessa é que o dirigível decole pela primeira vez em julho de 2016. A ideia é reduzir custos, acelerar serviços e evitar impacto ambiental. Para levar e trazer uma torre para a floresta amazônica, é necessário desmatar e abrir estradas, o que custa de R$ 5 milhões a R$ 10 milhões. O dirigível voaria a até 120 km/h, com menor consumo de combustível e capacidade para carregar 30 toneladas.

Charone diz que como o dirigível será construído com verba de um programa de pesquisa, a lei impõe a contratação de empresas brasileiras. "A Airship era a única que tinha a documentação necessária para fazer."

A Airship não respondeu aos questionamentos do Estado. Por meio de sua assessoria, disse que os funcionários que podem falar sobre o projeto estão de recesso. Em nota, o BNDES informou que "as liberações para o projeto estão sendo efetuadas com o rigor usual". Segundo o banco, desembolsos estão condicionados à comprovação de que a parcela liberada anteriormente foi usada nas finalidades definidas no projeto.

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