Embaixadora aconselha Lula a calibrar críticas aos EUA

A embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, Donna Hrinak, aconselhou o governo a começar "a calibrar cuidadosamente sua oposição" às posições americanas para preservar o bom ambiente que os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush estabeleceram no diálogo bilateral, apesar das diferenças ideológicas. A advertência, feita durante conferência de um dia sobre as relações entre os dois países, na Universidade Internacional da Flórida, é significativa por partir de Hrinak, no momento em que ela se despede de Brasília. Filha de um metalúrgico que militou nos sindicatos da Pensilvânia, ela ganhou credibilidade no alto comando petista graças ao importante trabalho que fez junto a seu governo na eleição, na fase de transição e depois da posse de Lula, para neutralizar as teorias conspiratórias que a direita republicana tentou vender à Casa Branca sobre o novo governo. Hrinak deixará o Brasil e a carreira diplomática em maio, convencida das qualidades pessoais e políticas de Lula e do que ele e seu governo significam para o País e a América Latina em termos de estabilidade e democracia numa região repleta de más notícias. Diálogo será posto à provaHrinak acredita, porém, que a rápida deterioração da situação na Venezuela, onde foi embaixadora, e o papel que Lula será inevitavelmente chamado a desempenhar nessa crise porão o diálogo entre o Brasil e os EUA à prova. Na sexta-feira, o jornal The Washington Post deixou clara a expectativa nos EUA ao dizer em editorial que, "dada a posição frágil da administração Bush na região, a esperança de uma solução pacífica e democrática repousa principalmente com os vizinhos da Venezuela, a começar pelo Brasil". Segundo Hrinak, a administração Bush tem "procurado não reagir a manifestações do governo brasileiro críticas ou divergentes de Washington em temas que não considera centrais aos interesses dos EUA". A Venezuela, no entanto, é diferente. "Essa é uma das questões centrais nas quais o Brasil e os EUA têm interesses compartilhados", disse ela. Respeito à democracia Lula e Bush conversaram semana passada sobre a situação criada pelas autoridades eleitorais venezuelanas ao negar a petição do referendo revogatório do mandato do presidente Hugo Chávez. "Não tenho dúvida de que os brasileiros estão falando com o governo venezuelano sobre a importância de respeitar a democracia não só na realização de eleições justas e na medida em que avançarmos nesse processo, veremos que o Brasil é, de fato, o líder do grupo de países amigos da Venezuela e conduzirá todos na direção de uma solução democrática." Apesar disso, Hrinak não esconde as preocupações. Embora só veja diferenças de estilo entre a diplomacia de Lula e a de FHC - "a política externa é a mesma, mas agora têm anabolizantes, é barulhenta" -, acha "difícil entender o silêncio do Brasil diante das recentes violações dos direitos humanos em Cuba", posição que considera "não-brasileira", dada a seriedade e o empenho com que a sociedade e líderes como Lula enfrentam o problema no Brasil. Pontos - Ela cita pontos aos quais acredita que o governo "precisa dedicar mais tempo" para assumir plenamente o papel de liderança internacional "a que legitimamente aspira". O primeiro é "informar a opinião pública" e não limitar-se a justificar medidas que adota como resposta à pressão da opinião pública. É uma alusão ao episódio da coleta de impressões digitais de brasileiros que visitam os EUA e americanos que vêm ao Brasil. O governo, para Hrinak, precisa lidar de forma efetiva com a multiplicidade de atores que influenciam a formulação da política externa. E ganharia com a melhor definição de papéis e coordenação do que chama de "o lado criativo e o lado prático" da diplomacia brasileira - referindo-se à relação entre o assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia, e o Itamaraty. Hrinak observa que a presença do Brasil no Conselho de Segurança da ONU aumenta as chances tanto de cooperação como de desentendimento com os EUA. Ela aplaude a inclinação do governo de não limitar o exercício da liderança brasileira à América do Sul, ao dispor-se a participar numa missão da ONU no Haiti. E conclui dizendo que o País deve continuar a balizar suas posições internacionais à luz de seus interesses, mas "evitar a tendência, que existe cada vez menos, mas continua presente, de perguntar qual é a posição dos EUA e definir suas posições às nossas".

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