Gabriela Bilo/Estadão
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Embaixada da China rejeita sugestão de Ernesto Araújo e diz que Eduardo deve pedir desculpas

Deputado culpou país asiático pela pandemia de coronavírus; chanceler disse que reação de embaixador chinês feriu 'boa prática diplomática' e pediu retratação

Bianca Gomes e Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2020 | 19h43
Atualizado 19 de março de 2020 | 23h28

Embaixada da China no Brasil afirmou nesta quinta-feira, 19, que a parte chinesa não aceitou a sugestão feita pelo chanceler Ernesto Araújo de retratação por parte de Yang Wanmingembaixador da China no Brasil. "O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL) tem que pedir desculpa ao povo chinês pela sua provocação flagrante."  O comunicado publicado no Twitter oficial da Embaixada diz ainda que o deputado causou “influência nociva” e “interferências desnecessárias” na cooperação com o Brasil. 

“As palavras do Eduardo Bolsonaro causaram influências nocivas, vistas como um insulto grave à dignidade nacional chinesa, e ferem não só o sentimento de 1.4 bilhão de chineses, como prejudicam a boa imagem do Brasil no coração do povo chinês. Geram também interferências desnecessárias na nossa cooperação substancial. Estamos extremamente chocados por tal provocação flagrante contra o governo e povo chinês”, afirmou a representação de Pequim em Brasília. “Temos pleno conhecimento da política externa brasileira com a China e acreditamos que nas suas linhas não houve qualquer mudança.”

Mais cedo, o chanceler brasileiro classificou a reação de Wanming como "desproporcional" e disse que feriu "a boa prática diplomática". Em sua conta no Twitter, o ministro de Relações Exteriores afirmou que o governo brasileiro esperava uma retratação por parte do embaixador.

Na nota oficial, a embaixada chinesa voltou a cobrar que o Itamaraty intervenha na postura do deputado, influente na política externa e presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara. “Percebemos que os que atrapalham o desenvolvimento das relações bilaterais se limitam a uma minoria na população brasileira, enquanto a maioria esmagadora está em defesa da nossa fraternidade”, afirmou Pequim. “ Esperamos que alguns indivíduos do lado brasileiro, na sua minoria, abandonem as suas ilusões e muito menos subestimem a nossa resolução e capacidade de salvaguardar os nossos próprios interesses.”

Nesta quinta, a Embaixada da China no Brasil voltou a rebater a declaração de Eduardo  sobre o novo coronavírus. No Twitter, escreveu que as palavras do deputado são "absurdas" e "preconceituosas", além de "irresponsáveis". "Que dê uma guinada o mais rapidamente possível, já que a história nos ensina que quem insiste em ataccar e humilhar o povo chinês,  acaba sempre dando um tiro no seu próprio pé."  

Sobre os argumentos usados pelo deputado em seu perfil oficial no Twitter nesta quinta, a Embaixada afirmou: "Mostram que você não está arrependido pela sua atitude, tampouco ciente dos seus erros. Ao continuar a optar por ficar no lado oposto ao povo chinês, está indo cada vez mais longe no caminho errado".

Em nota, Eduardo justificou que estimular o debate é função do parlamentar brasileiro. "Tendo para isso a prerrogativa da imunidade parlamentar (art.53, CF) como garantia constitucional, para que deputados possam exercer tal direito." O deputado disse ainda que jamais ofendeu o povo chinês e tal interpretação é "totalmente descabida". 

O perfil da Embaixada aconselhou o deputado a buscar informações científicas em fontes como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e questionou se ele está cumprindo seus deveres como deputado. "Será que merece a confiança daqueles que votaram em ti?"

Crise diplomática

Na última quarta-feira, 18, o filho do presidente Jair Bolsonaro postou nas redes sociais que a pandemia do novo coronavírus é culpa do país asiático. O embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, exigiu retratação do deputado e disse que ele feriu a relação amistosa com o Brasil e “precisa assumir todas as suas consequências”. No mesmo dia, o perfil da Embaixada disse que, ao voltar de Miami, Eduardo "contraiu vírus mental".

Em postagem no Twitter, Eduardo Bolsonaro republicou a mensagem de outro usuário, que escrevera: “A culpa pela pandemia de coronavírus no mundo tem nome e sobrenome. É do Partido Comunista Chinês”. O parlamentar ainda acrescentou uma comparação com o desastre nuclear de Chernobyl e disse que o governo Xi Jinping, chamado por ele de “ditadura”, escondeu a epidemia.

“Quem assistiu (sic) Chernobyl (série sobre o desastre nuclear) vai entender o que ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. Mais uma vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução”, escreveu o deputado.

Repercussão

Diversas autoridades do País se manifestaram contra a fala de Eduardo Bolsonaro e uma crise diplomática entre os dois países. Em nome do Senado, o vice-presidente da Casa, Antonio Anastasia (PSD-MG), encaminhou uma carta ao embaixador da China no Brasil pedindo desculpas, gesto também feito pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). 

O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que a declaração do deputado sobre a China não é motivo de estresse. “(A declaração) não é motivo de estresse, pois a opinião de um parlamentar não corresponde à visão do governo. Nenhum membro do governo tocou nesse assunto”, disse o vice-presidente ao Estado.

O governador de São PauloJoão Doria (PSDB), chamou de “lamentável” e “irresponsável” a postagem em que o deputado federal. “Além do absurdo de minimizar a pandemia e convocar manifestações, ignorando protocolos mundiais de saúde, colocando em risco milhares de vidas, agora ele envergonha os brasileiros com declaração preconceituosa”, afirmou Doria, reforçando que o país asiático é o principal parceiro comercial do Brasil. Só no ano passado, a China comprou US$ 65,4 bilhões em produtos brasileiros.

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