Em votação secreta, Senado decide futuro de Renan

Mesmo se escapar da cassação, senador terá que enfrentar mais três processos no Conselho de Ética

12 de setembro de 2007 | 03h29

O Senado vai julgar nesta quarta-feira, 12, o pedido de cassação do presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB), acusado de quebra de decoro por supostamente recorrer ao lobista de uma empreiteira para pagar despesas pessoais. Três partidos de oposição (PSDB, DEM e PSB) fecharam questão a favor da cassação. As outras legendas, incluindo PT e PMDB, liberaram seus senadores para votar como quiserem. A votação será secreta e o voto também.   No início da madrugada, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, decidiu que 13 deputados federais poderão assistir a sessão.   Veja também: Deputados podem assistir sessão, diz STF Renan pede voto por telefone e aliados temem reviravolta 'Torço para que decisão sobre Renan seja respeitada'  Veja especial do caso Renan   Planalto vê fim da linha para senador  Lobista ligado a Renan recebeu dólares em NY   Para aprovar a cassação ou a absolvição é necessário a maioria simples dos 81 senadores, ou seja, 41. PSDB e DEM respondem por 30 votos. PMDB, o partido de Renan, tem 19 senadores. O PT responde por 12 parlamentares, e os outros partidos têm 20 cadeiras.   O PSDB tem 13 votos no Senado. O único senador liberado pela direção partidária para votar como quiser no julgamento de Renan foi João Tenório, de Alagoas. Trata-se do suplente do governador de Alagoas, Teotônio Vilela. Além disso, Tenório é amigo pessoal de Renan, e é também um aliado político do presidente do Senado no Estado.   A líder do PT no Senado, Ideli Salvati (SC), disse que, apesar de liberar a bancada para votar "livre, leve e solta" a proposta de cassação do mandato de Renan, teme que o processo tenha "risco de vício, de contaminação pelos interesses que possam estar em jogo". Segundo ela, não houve nenhum tipo de orientação.   Indagado sobre a possibilidade de fechar questão sobre o tema, o senador Almeida Lima (PMDB-SE), um dos autores do relatório que absolvia Renan no Conselho de Ética, afirmou que a proposta não está incluída em nenhum programa partidário. "Acho que está em programa partidário a tese de que devemos ter uma administração limpa e não corrupta. E isso nós temos propugnando. Portanto, é uma questão de avaliação."   Já o PSB, partido do senador Renato Casagrande (ES), que produziu o relatório a favor da cassação no Conselho de Ética, os três integrantes da legenda (Antônio Carlos Valadares (SE), Patrícia Sabóia (CE), e ele) vão votar "fechados" pela cassação. "Vão votar com o meu relatório", disse. Mais cedo, comentou que nenhum partido pode ser considerado "fiel da balança", porque "há muita divisão no Senado". Estou sentindo um ambiente de preocupação na votação amanhã. Porque quem vai ser julgado não é o senador, é o Senado."   "Cadáver político"   Na terça-feira, 11, a única certeza da maioria dos que vão julgar Renan era de que, mesmo que seja absolvido, ele já terá se tornado um "cadáver político" e sem condições de dirigir o Senado e o Congresso.   "Os senadores sabem que há outros três processos já na linha contra Renan. Portanto, mesmo absolvido, ele continuará muito mais ocupado em se defender do que em presidir o Legislativo", resumiu a senadora Kátia Abreu (DEM-TO). Torcida política à parte, as esperanças dos que defendem abertamente a cassação do presidente do Senado se concentravam nesta frase de Casagrande: "Vamos ter um resultado que vai referendar a preservação da instituição."   Desde as primeiras denúncias feitas em maio - mais de cem dias atrás - à sessão desta quarta, Renan passou da certeza de que teria "80 dos 81 votos" dos colegas a uma insegurança cada vez maior. O apoio de que dispunha foi minguando na mesma proporção em que ele multiplicou as manobras para tentar barrar o processo contra si.  Se ele for cassado, ele ficará inelegível pelos próximos oito anos a contar do fim de seu mandato em 2011.   Desde a derrota no Conselho de Ética na quinta-feira, por 11 votos a 4, tem crescido nos bastidores do Senado, de fontes credenciadas, a informação de que Renan pode vir a renunciar à presidência da Casa na abertura da sessão de hoje. A tática, em parte, teria como objetivo demover votos por sua cassação. Na avaliação de aliados, ao mostrar desapego ao cargo, Renan pode atrair a simpatia de senadores indecisos ou mesmo dispostos a cassá-lo.   Contra vazamentos   Prevista para durar, no mínimo, quatro horas, a sessão que decidirá o futuro de Renan terá uma série de restrições para evitar vazamentos. Pelo menos 11 seguranças do Senado e dois funcionários da Fiança (empresa terceirizada de limpeza) passaram a noite de terça-feira fazendo varredura eletrônica em busca de gravadores e celulares no plenário. Os laptops dos senadores - usualmente utilizados nas sessões - também ficarão de fora.   A segurança também neutralizou o serviço de áudio, o que significará que os 81 senadores e os advogados de defesa e acusação terão de gritar em plenário para serem ouvidos na sessão. Nem mesmo as taquígrafas, responsáveis por transcrever todas as sessões, poderão participar. Além dos advogados e dos senadores, apenas a secretária-geral da Mesa, Claudia Lyra, poderá entrar na sessão.   A ordem foi dada por Renan e executada pelo primeiro vice-presidente, Tião Viana (PT-AC). O petista também advertirá os colegas para evitar, ao máximo, usar os celulares. Renan também queria fechar o Senado para visitas durante todo o dia. Viana, porém, fez uma ressalva e acabou apenas restringindo a visita às galerias do plenário.   No fim da noite de terça-feira, os senadores ainda não sabiam sequer se poderiam usar os computadores e celulares na sessão. O projeto de resolução apresentado por Delcídio Amaral (PT-MS) e Eduardo Suplicy (PT-SP) parar que a sessão fosse aberta não foi apreciado pelo plenário.   Processo   Renan responde a processo por quebra de decoro parlamentar. Segundo denúncia, ele teria despesas pessoais pagas pelo lobista Cláudio Contigo ligado à construtora Mendes Junior.   Além desta, o presidente do Senado á alvo de mais três acusações: favorecimento à cervejaria Schincariol, dono oculto de duas emissoras de rádio em Alagoas e suposta participação em esquema de propina envolvendo membros do PMDB.   (Colaboraram Rosa Costa, Ana Paula Scinocca, Cida Fontes, Expedito Filho e Conjur)

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