Em Tupã, empresário diz que dívida de campanha da Vaccarezza o fez perder gráfica

Paulo Madureira acusa o ex-secretário Walter Bonaldo de dar calote; Bonaldo nega acusação; PT local admite 'problemas'

Jair Stangler, do estadão.com.br,

11 de abril de 2011 | 19h00

SÃO PAULO - Das cidades em que houve denúncia contra sua campanha, Tupã foi onde o deputado federal Candido Vaccarezza (PT) teve o melhor desempenho eleitoral, tendo conquistado 1.553 votos num universo de 36.165 eleitores - 4,29% do total, índice bem maior que a média do deputado no Estado e um desempenho bem maior que o obtido em 2006. A cidade foi bastante beneficiada pela atuação parlamentar de Vaccarezza e pela amizade com o ex-secretário de Finanças, Walter Bonaldo (PMDB).

 

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O deputado ajudou a levar para a cidade dois programas de forte impacto eleitoral: o Minha Casa Minha Vida, com previsão de construção de 295 casas e um projeto de macrodrenagem que prevê investimentos de R$ 70 milhões até 2025 para construção de piscinões e obras de canalização - a primeira etapa do projeto, orçada em R$ 25 milhões, já está em andamento.

 

Reportagem do Diário de Tupã de novembro de 2010 descreve Bonaldo como "um dos principais interlocutores entre o município e o governo federal." O texto previa a ida de Bonaldo a Brasília para atuar diretamente com Vaccarezza - o que acabou não acontecendo depois.

 

"Nas eleições deste ano, Bonaldo coordenou a campanha do deputado federal reeleito Cândido Vaccarezza e do PT (Partido dos Trabalhadores) em Tupã e outras regiões do Estado de São Paulo. Mesmo atuando em Brasília, ele informou que manterá o vínculo com o município", afirmava a reportagem.

 

A reportagem conta ainda que com sua ida para Brasília, o diretório municipal do PMDB terá novo presidente, tendo sido definido o nome de Thiago de Sousa. Thiago, citado pelas pessoas ouvidas como organizador da campanha de Vaccarezza, é sobrinho de Antonio Carlos Sousa, o Ribeirão, ex-presidente da Câmara dos Vereadores de Tupã. Ribeirão ganhou fama nacional ao autorizar a licitação de notebooks ao preço unitário de R$ 11 mil cada. Atualmente, Thiago é assessor de Vaccarezza para a região. Thiago disse não saber nada sobre dívidas de campanha.

 

"Estou recomeçando a vida com muita dificuldade". Uma das pessoas que teria sido contratada em Tupã é o empresário Paulo Madureira, que cobra o pagamento de R$ 60 mil. Madureira conta que foi contratado para fazer cartazes e material gráfico, com promessa de pagamento de salário e que nada foi pago. Em decorrência, diz ele, perdeu sua gráfica e ficou devendo para outras pessoas na cidade. Bonaldo nega a dívida com Madureira e afirma que o empresário foi contratado para fazer a campanha de Ribeirão.

 

Madureira tinha uma pequena gráfica, a Primeira Impressão. Segundo conta, ficou encarregado de produzir material e tomar outras providências para a campanha do deputado. Receberia salário de seis mil mais o dinheiro para pagar os serviços prestados.

 

Para tentar receber, Madureira entrou com uma ação trabalhista contra Bonaldo por seus trabalhos. Na ação, Paulo pedia três meses de salário, mais o pagamento dos serviços contratados. Cobrava R$ 60 mil. Diante do juiz, Bonaldo alegou que sequer conhecia Madureira. O juiz deu ganho de causa a Bonaldo, concordando com o argumento de que a contratação havia sido encaminhada por Ribeirão.

 

"Eu estava na minha, quieto, não trabalho no setor público", conta Madureira. "Eu tinha minha vidinha, minha firma que presta serviço pra firma de fotografia, imprimia foto, cartaz de Tupã, nem prestava serviço pra prefeitura mais, porque é muita coisa errada, muito rolo. A gente trabalhava com uma firma pequena, um faturamento pequeno", completa.

 

Segundo ele, quando chegou a eleição, "ficou aquela ilusão". "Ó, você vai fazer material pra gente, que aí depois você vai ser isso e isso e isso, você vai ser o nosso contato aí no interior, para fechar negócio com as empresas. Você vislumbra uma coisa melhor, um futuro melhor", explica.

 

Madureira diz que jogou tudo o que tinha na campanha. "E aí ficou aquela coisa assim: você faz cinco mil, eles pagam, faz dez mil, eles pagam, 'faz mais isso aqui que a gente paga pertinho da eleição', aí chegou pertinho da eleição, não pagaram. Aí ele falou: 'Depois da eleição a gente acerta com você'. Aí deu o segundo turno ele falou 'Ó, nós estamos na correria por causa do segundo turno da Dilma'", conta.

 

De acordo com o empresário, sempre havia uma nova desculpa: a eleição, a comemoração da vitória, a posse, a distribuição. "Eu não tinha como agir, porque foi feito um negócio assim de muito boa fé. O que eu tenho deles são os arquivos, os contatos, tudo que eu fiz com as gráficas, tudo que eu fiz com pessoas, que eu ainda estou devendo pra algumas pessoas, pessoas que eu contratei para trabalhar, nem o painel da frente do comitê eles pagaram. Inclusive o homem que fez o painel tá infartado e seria ótimo se eles pagassem para o cara poder usar o dinheiro até pra ele se tratar", afirma Madureira.

 

"Fez um estrago muito grande não só na minha vida mas na vida de muitos pequeneninhos que estavam agregados a mim. Eu achei de uma desonestidade imensa. Aí eu conversei com a assessora do deputado, acho que é Ana Claudia, e ela disse que não ia me pagar porque o meu nome não estava cadastrado na lista. Como se fosse assim: você fez, problema seu, seu nome não está aqui na lista, você não vai receber", relata.

 

"Aqui é a briga de Davi contra Golias. No mesmo momento que eu estava aqui preparando para entrar na Justiça, o Vaccarezza estava lá, abraçando a Dilma", lamenta.

 

De acordo com Madureira, entrar com uma ação trabalhista foi a única maneira que encontrou para incomodar. "Porque não causaria ônus, uma ação trabalhista não me daria despesa, porque eu também não tinha como mais arrumar nada para ter despesa", explica.

 

"Teve dia de não ter 10 reais. Desmontei minha firma, vendi os equipamentos para poder pagar conta, não deu para pagar tudo. Teve gente que eu contratei e não pude pagar. Isso acarretou discussão com a minha mulher, discussão com filho, discussão com amigo. Ocasionou briga, porque eu não suportava olhar na cara das pessoas", conta. "Hoje eu tenho minha casa, estou recomeçando, estou fazendo um trabalho pra uma empresa de colocação de mão de obra. Estou recomeçando a vida com muita dificuldade, muita dificuldade mesmo".

 

Bonaldo nega que tenha contratado Madureira. O empresário afirma que irá levar ao Ministério Público documentos que mostram pagamentos que realizou e também uma cópia do livro-caixa do comitê de Vaccarezza em Tupã. A reportagem pediu a Madureira cópia dos documentos, mas o empresário não enviou.

 

B.O. Ainda em Tupã, Paulo Trocoli, que é amigo de Madureira, também conta que ajudou na campanha. Segundo ele, seu trabalho era distribuir o material de campanha, usando o próprio carro. Acertou salário de R$ 1.500 mensais e mais o pagamento do combustível. Afirma ainda que Bonaldo lhe prometeu uma casa popular.

 

"Eu trabalhei com ele (Bonaldo), carregava santinho para tudo que é lugar. Inclusive ele falou que ia me dar uma casa popular, tudo barca furada. Prometeu um monte de coisa... Andei 15 mil quilômetros com meu carro zero, 2010. Pagaram 1.500 por mês, só que eu viajava com meu carro, ia buscar santinho nas gráficas em Prudente, ia no Guarujá, ia em tudo quanto é lugar. Recebi só o salário, mas as viagens eu não recebi", relata. Ele conta ainda que o caso quase levou a se separar de sua mulher. Pelas suas contas, a dívida chega a R$ 7.500 reais.

 

Trocoli conta ainda que foi ameaçado por Bonaldo e que registrou Boletim de Ocorrência. "O Walter me ameaçou. Disse que ia passar com o carro em cima de mim se eu fizesse alguma coisa", conta. O B.O. de Trocoli foi um dos documentos que a reportagem pediu a Madureira que fossem enviados, o que acabou não acontecendo.

 

"Existiram problemas". O atual secretário de Comunicação e ex-presidente do PT de Tupã, Fábio Aguilar, admitiu os problemas em relação à campanha de Vaccarezza. "Existiram problemas aqui. Todos ligados a um assessor dele chamado Walter Bonaldo, que era a pessoa que fazia as contratações. Com relação ao diretório do PT aqui está tudo regular. O que nós sabemos, sabemos da boca de terceiros. A gente chegou a ligar lá pro gabinete, para o chefe de gabinete tomar providências com relação a esse assessor que descumpriu os compromissos de campanha com o pessoal. Parece que tem uma gráfica aqui em Tupã que ele ficou devendo em torno de R$ 100 mil. O nome da gráfica é Primeira Impressão, do Paulo Madureira", afirmou.

 

Segundo ele, o diretório de Tupã teve divergência com relação a recebimentos. "Mas eu preferi deixar quieto a minha parte, dizer está tudo bem, está tudo certo, até para não criar problema para o deputado. Mas o pessoal sabe que o Walter acabou dando problema. Aqui no nosso grupo a própria Ana Perugini (do PT, que concorreu a deputada estadual em dobradinha com Vaccarezza) teve de bancar isso daí", afirmou.

 

De acordo com Fábio, "nós acabamos fechando esse compromisso com o Vaccarezza porque ele trouxe muita verba para Tupã, e nós achávamos que isso poderia ser importante para a deputada. Mas, infelizmente, a imagem dela vinculada ao Vaccarezza, em Tupã, é péssimo. E a gente está tendo então que desmembrar isso daí, por causa desse assessor".

 

"Às vezes a gente critica gente de outros partidos e a gente acha que os nossos são todos santos. Mas o negócio é o ser humano mesmo, não é partidário. Tem gente ruim em todos os partidos", conclui.

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