Em três pastas, o mapa dos cargos

Sobre a mesa de Mares Guia, tabelas mostram as indicações dos partidos

Vera Rosa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2015 | 00h00

O mapa da mina repousa no quarto andar do Palácio do Planalto. É ali, sobre a mesa do ministro das Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia, que três pastas de plástico transparente guardam as indicações dos partidos aliados para a ocupação de cargos em ministérios, empresas estatais, fundações e delegacias regionais. Levantamento feito pelo Planalto revela que, nos últimos 50 dias, aproximadamente 200 cargos já foram preenchidos. Deputados e senadores, porém, ainda cobram outros 300.Professor de matemática, Mares Guia agrupou as indicações em tabelas coloridas distribuídas por Estados, ministérios e repartições mais cobiçadas. Em tons de verde e amarelo, as tabelas são bem detalhadas. Verde significa aguardar nomeação; amarelo, tudo certo. Os cabeçalhos exibem a inscrição: UF/Órgão/Indicativo/Nome/Acordo/Status.Um "OK" ao lado do indicado revela céu de brigadeiro. Nessa lista de felizes apadrinhados já apareceram o ex-prefeito do Rio Luiz Paulo Conde (PMDB-RJ) para o comando de Furnas e o ex-ministro do Esporte Agnelo Queiroz (PC do B-DF) para a diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Aguardam a fila andar o ex-ministro da Saúde José Agenor Alvares da Silva, futuro presidente da Anvisa, e o ex-presidente da Petrobrás José Eduardo Dutra (PT), prestes a assumir a BR Distribuidora.As escolhas de Agnelo e Agenor provocaram a fúria do PP, que queria encaixar seus afilhados na Anvisa e continua esperneando. Na outra ponta, o PMDB e o PT dão cotoveladas para emplacar seus protegidos nas diretorias da Eletrosul e da Petrobrás. Não é só: para desespero dos que estão de olho nas vagas, os papéis também mostram aqueles que continuarão em suas funções. Em casos assim, o "status" da negociação traz um único verbo: "manter".Mares Guia tenta apaziguar os ânimos. Dono de fala mansa, vira e mexe pede calma aos aliados, sob o argumento de que tudo será resolvido. "Política é conversa. E prudência faz bem", repete, como mantra, entre um e outro tête-à-tête no gabinete. Aos petistas, lembra que o governo Lula, agora, é de coalizão.Apesar do estilo light, ele sai do sério sempre que alguém o questiona sobre o loteamento do governo. Foi assim quando jornalistas lançaram dúvidas sobre as qualificações de Conde para presidir Furnas. "Então um homem que já foi prefeito do Rio não tem competência para ser presidente de Furnas?", reagiu. "No primeiro mandato, o governo era do PT e os outros eram agregados. Agora é diferente: há 11 partidos na coalizão." Os rumores de que a liberação de emendas ao orçamento é usada como moeda de troca para a aprovação de projetos - como o que estica a validade da CPMF - também incomodam Mares Guia. "Emenda é direito do parlamentar e estamos liberando verba não só para aliados como para a oposição. Até o fim do ano serão R$ 3 bilhões", afirma. Mas por que só agora? A resposta vem carregada de sotaque mineiro: "Porque essas coisas demoram mesmo, sô!"

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