Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Em tom de despedida, Pazuello diz que espera escolha de substituto para deixar o cargo

General faz balanço da sua gestão no Ministério da Saúde e admite que 'o presidente está nessa tratativa de reorganizar' a pasta

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2021 | 17h51

BRASÍLIA – No momento em que o presidente Jair Bolsonaro busca um nome para substituí-lo no cargo, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, admitiu esperar apenas a escolha de um sucessor para deixar o posto. "O cargo é do presidente da República. Existe essa possibilidade desde o dia que eu entrei. O presidente está disposto a mudar sim, está avaliando nomes", afirmou ele em entrevista nesta segunda-feira, 15.

"Pode ser curto, médio ou longo prazo. O presidente está nessa tratativa de reorganizar o ministério. Enquanto isso não for definido, a vida segue normal. Não estou doente, não pedi para sair. E nenhum de nós está com problema algum. Quando o presidente tomar a sua decisão, faremos uma transição correta, como manda o figurino", disse Pazuello. 

Na entrevista, que teve tom de despedida, Pazuello fez um breve balanço da gestão à frente do ministério desde que assumiu, em maio do ano passado. 

O ministro afirmou que o SUS não colapsou em 2020, mas vive novo desafio, com aumento de contaminações em todos os pontos do País. Ele também anunciou que fechou contrato para compra de 100 milhões de doses da vacina da Pfizer e 38 milhões da Janssen.

"Eu não vou pedir para ir embora. Não é da minha característica. Isso não é um jogo, uma brincadeira, 'quero ir embora'. Isso é sério, a pandemia, é o Ministério da Saúde", disse o general.  "Não vou pedir para ir embora. Isso não é uma brincadeira. Isso é o ministério, isso é o País. Não pedi para ir embora e não vou pedir." 

"Tenho muito orgulho de ter estado, e estar, na função nesse período todo que estamos fazendo. Não é uma palavra de despedida. Quando tiver de me despedir, farei. É muito orgulho de nós estarmos agora à frente dessa pasta cumprindo essa missão. Não me sinto em hipótese alguma pressionado por nenhuma notícia, fake News. Problema é a pandemia, óbitos, contaminados. Essa é a missão, é isso que é difícil. O resto é fácil", afirmou Pazuello. 

Troca na Saúde

Bolsonaro está decidido a retirar Pazuello da Saúde e conversa com candidatos ao cargo. As tratativas para a troca ocorrem no momento em que o general está desgastado pela explosão de internações pela covid-19, atraso na vacinação e por investigações no Supremo Tribunal Federal (STF) e outros órgãos. A saída de Pazuello ainda seria uma forma de o governo esfriar uma CPI no Congresso sobre a pandemia.  

A primeira tentativa de Bolsonaro ao cargo falhou.  A cardiologista Ludhmila Hajjar recusou um convite ao governo por divergências com o presidente sobre uso de medicamentos sem eficácia, como a cloroquina, e adoção de restrições ou lockdown. Ela também afirma que, após ser cotada ao cargo, recebeu ameaça de morte e que houve mais de uma tentativa de invasão do quarto em que passou hospedada à noite.

Bolsonaro também recebeu o médico Marcelo Queiroga, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Trata-se de nome já indicado à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), mas que não foi nomeado à agência ainda, pois aguarda sabatina no Senado.  

Para além da pressão do Congresso, a inviabilidade de Pazuello no cargo passa, ainda, pelas investigações do Supremo Tribunal Federal, que apura seus atos e eventuais responsabilidades pela crise generalizada no sistema de saúde. Ao deixar de ser ministro, Pazuello perde, inclusive, o foro privilegiado e o caso deverá ser encaminhado para a primeira instância da Justiça Federal. 

Ministro anuncia contrato com Pfizer e Janssen

Durante o discurso em tom de despedida, Pazuello anunciou a assinatura de contrato para compra de 100 milhões de doses da vacina para a covid-19 da Pfizer, além de 38 milhões de unidades da farmacêutica Janssen. O avanço das negociações ocorre no momento em que o presidente Jair Bolsonaro procura um nome para substituir o general no comando do ministério. 

De acordo com cronograma divulgado pelo Ministério da Saúde, o Brasil receberá doses da Pfizer a partir de abril. São esperadas 13,5 milhões de doses no primeiro semestre e outras 86,5 milhões no restante do ano. Já a entrega das doses da Janssen será feita em duas parcelas: 16,9 milhões em agosto e 21,1 milhões em novembro. 

O governo rejeitou por meses ofertas destas empresas por considerar "abusiva" a exigência de que a União assumisse responsabilidades e custos de eventuais efeitos adversos da vacina. Um dispositivo para permitir essa compra chegou a ser colocado em medida provisória 1026/2021, com aval da Saúde, mas foi excluído da redação final, publicada em janeiro. Estas compras só foram destravadas após o Congresso Nacional aprovar um projeto de lei para atender esta exigência das farmacêuticas, que também é feita por produtoras do consórcio Covax Facility

Pazuello minimizou mudanças nos cronogramas de entrega de vacinas. "É para ser alterado", disse ele. A Saúde voltou a elevar, na sexta-feira, 12, a previsão de distribuição de doses para março, de 30 milhões para 38 milhões. A mudança se deve à entrada das doses da Covaxin, desenvolvida pelo laboratório indiano Bharat Biotech, ainda que o uso do produto nem sequer esteja sob análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No mês passado, o governo chegou a estimar que 46 milhões de vacinas seriam entregues em março.

O cronograma do ministro prevê a contratação de 562.911.800 de doses até final de 2021, mas há ainda, segundo ele, tratativas com a vacina da Moderna. “Todos laboratórios que chegam a nós entram em tratativas a partir de robustez de dados”, afirmou.

Pazuello disse ainda lamentar o atraso na entrega de insumos importados da China para a produção da vacina da Oxford, na Fiocruz, mas afirmou que a produção nacional deve ser agora regularizada. Ele disse ainda que o acordo para produção de 100% da vacina de Oxford no País, inclusive o insumo farmacêutico ativo (IFA), está adiantado.  “Temos mais vacinas contratadas que brasileiros, mas não podemos contar com 100% da entrega”, disse. Ele afirmou que Estados e municípios podem adquirir o imunizante, desde que venham pelo Programa Nacional de Imunização (PNI). “Não haverá Estados e nem municípios vacinando antes do que outros, não haverá divisão entre regiões e nem entre ricos e pobres na vacinação."

O ministro afirmou que até o final de abril vai vacinar 88% dos grupos prioritários e que toda população será vacinada até o fim de 2021. “É provável que até maio todos dos grupos prioritários sejam vacinados”, afirmou. 

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