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Eliane Cantanhêde
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Em terra de cego...

Vamos fazer uma aposta? Com a equipe que montou no Palácio do Planalto e com o círculo íntimo que tem para conversar, tomar decisões e tourear o Congresso, a presidente Dilma Rousseff vai acabar caindo nas mãos de gente muito mais experiente e esperta. Tipo Gilberto Kassab.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2015 | 02h03

Como corintianos, palmeirenses e santistas estão carecas de saber, Dilma não gosta de política e gosta menos ainda de políticos. No primeiro mandato, essa fragilidade virou força, a deficiência transformou-se em trunfo muito bem trabalhado pelos marqueteiros e pela marquetagem da "faxina".

Se ela não gosta, deveria se cercar de quem sabe fazer e faz com gosto. Não é exatamente isso que está acontecendo ou, pelo menos, não é assim que os próprios políticos - sobretudo os aliados e os "aliados" - estão vendo e sentindo.

Vamos lá. A Casa Civil é o coração da administração federal, o coração das articulações políticas, ou ambas. Bem, quem der um passeio na Câmara, no Senado e na Esplanada dos Ministérios - inclusive, talvez principalmente, pelos gabinetes do PT - vai encontrar um manancial de críticas ao atual chefe da Casa Civil e virtual presidenciável Mercadante.

Homem sério? Sim. Um tanto aloprado? Quando julgou necessário. Mas articulador político?! Ok, mas Dilma tem um articulador político oficial, o ministro de Relações Institucionais... Como é mesmo o nome dele? Ah, sim! Pepe Vargas, médico e petista de quatro costados que nunca se destacou como líder na Câmara, nem líder no Senado, nem interlocutor de ponta de ninguém. Aliás, com todo respeito, nem mesmo como deputado.

Tudo bem que Dilma já se deu ao luxo de ter as também neófitas Gleisi Hoffmann na Casa Civil e Ideli Salvatti nas Relações Institucionais. Mas, convenhamos, os tempos eram outros. Ela acabava de ser eleita, tinha a aura de primeira mulher presidente da República e exalava o frescor e despertava a esperança dos governantes recém-empossados. Ainda podia fazer o que bem entendesse.

Não é o que ocorre agora, com a economia como está, o eleitorado dividido ao meio e já escaldado, políticos insatisfeitos, a Petrobrás jorrando denúncias sobre o PT, os aliados e o próprio governo. O jogo está muito mais complexo, muito mais difícil. Aliás, o jogo ou a guerra?

Voltamos aí a Gilberto Kassab, aquele que pode estar à esquerda, ao centro ou à direita, pode tentar ser vice do tucano Geraldo Alckmin e ministro da petista Dilma - simultaneamente! - e tem como hobby criar partidos. O de ocasião é um tal PL, que visa recolher os náufragos e enjoados dos navios tanto governistas quanto oposicionistas.

Significa que Dilma conta com um aliado que não só lhe foi leal durante a campanha, apesar de uma pressão infernal para apoiar Aécio Neves, que poderá ser de enorme utilidade ao cobrir as lacunas, apagar incêndios, abrir portas.

Mercadante, segundo Marta Suplicy, é um "arrogante e autoritário", capaz de muitas "trapalhadas". Pepe Vargas é o oposto: não tem poderes, armas, estofo e personalidade para confrontar ou, ao contrário, acalmar os nervosinhos do Congresso. A postos, para eventualidades, lá está ele, Kassab.

Quando Eduardo Campos estava vai-não-vai, seu afilhado Fernando Bezerra era ministro e estava doido para ficar no cargo e convencer Campos a desistir da candidatura à Presidência e manter a aliança com Lula e o PT. Sabe como Bezerra desistiu? Ele telefonou para Mercadante, esperando uma palavra de apoio, um gesto qualquer. Como Mercadante reagiu? Chutou o pau da barraca: "Olha, se quiser sair, saia logo. Senão, nós é que vamos tirá-lo".

Bezerra saiu do governo, Campos virou candidato, Marina Silva ganhou um partido, Dilma quase perdeu a eleição. E, reeleita, ganhou o PSB contra ela.

Ah, se fosse Kassab a atender aquele telefonema...

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