Capítulo 28

Em tempos de coronavírus, governo bate cabeça e Guedes fala em trégua

Deputado vê 'colóquio flácido para acalentar bovino'

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2020 | 14h48

Caro leitor,

Com o mundo em pânico por causa do avanço do novo coronavírus, o ministro da Economia, Paulo Guedes, está pedindo uma trégua nas disputas políticas. A cúpula do Congresso, por sua vez, vê agora a possibilidade de aparecer como quem contribuiu para a solução da crise, mesmo após aprovar projetos que não cabem no Orçamento. Diante desse cenário, tudo indica que as manifestações previstas para domingo em defesa do governo de Jair Bolsonaro – e contra o Congresso e o Judiciário – perderão força ou serão canceladas.

Na prática, a equipe de Bolsonaro vive um dilema e não sabe bem o que fazer para enfrentar a disseminação do coronavírus. “Se nós continuarmos com as nossas formas de vida, a economia resiste um pouco mais, porque vamos continuar saindo, almoçando (fora), indo a jogo de futebol... A economia resiste e a contaminação aumenta”, disse Guedes, na noite desta quarta-feira, 11, em reunião com deputados e senadores, na Câmara. “Se nós, por outro lado, mudarmos nosso comportamento, a contaminação desce, mas a economia afunda junto”, completou.

O Posto Ipiranga de Bolsonaro chegou a falar ali em “velocidade de escape”, mas suas previsões mais dramáticas chamaram a atenção do Congresso. Nesta quinta-feira, 12, porém, Guedes fez questão de destacar que o Brasil tem capacidade para fazer a economia decolar.

De qualquer forma, o chefe da equipe econômica – chamado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), de “ministro Paulo” – em mais um sinal de que a relação entre os dois é, hoje, apenas protocolar -, admitiu que o impacto do coronavírus sobre a economia é “imponderável”. Aproveitou para pedir apoio ao Congresso e pregou a união de esforços. Guedes disse que, se a pandemia tomar conta do Brasil e as reformas não forem feitas, o crescimento pode cair mais 1% - em 2019, no primeiro ano do governo Bolsonaro, o “Pibinho” foi de 1,1%.

“Imagine se os senhores comandam todo o Orçamento de R$ 1,5 trilhão numa hora dessas?”, argumentou o ministro, citando nas entrelinhas a queda de braço entre o governo e o Congresso pelo controle dos recursos públicos. O titular da Economia foi além e advertiu que, neste momento, “não dá para brigar”, embora ele mesmo tenha entrado em atrito com o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, articulador político do Palácio do Planalto. 

Na prática, depois de muito confronto, o Congresso deve liberar R$ 5 bilhões de emendas parlamentares sob controle do relator do Orçamento, Domingos Neto (PSD-CE), para o combate ao coronavírus. A medida é uma oportunidade para o governo recuar uma casa no  acordo com o Congresso, que tanta polêmica causou nos últimos dias, e também para a classe política virar a chave da crise e tentar mudar sua imagem desgastada diante da opinião pública. Em outras palavras, uma solução política para os dois lados.

No momento em que Guedes conversava com parlamentares,  ainda não se sabia que o secretário de Comunicação da Presidência, Fábio Wajngarten, havia contraído coronavírus, fato que levou o próprio Bolsonaro a fazer o exame nesta quinta. 

Deputados lembraram o ministro que há dois dias o presidente havia dito que a doença estava superdimensionada e era muito mais “uma fantasia” propagada pela grande mídia. Recorreram à “deixa” para afirmar que  Bolsonaro deveria acreditar mais em seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta -- para quem o coronavírus está “na nossa antessala” –, e interromper a convocação para o povo para ir às ruas no domingo. 

Foi após declarações de Bolsonaro que movimentos de direita reforçaram o bombardeio contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) nas redes sociais. O Estado apurou que o inquérito aberto há um ano no STF para investigar ameaças, ofensas, calúnias e fake news dirigidas a ministros da Corte identificou empresários bolsonaristas financiando ataques a magistrados nas mídias digitais

Mas o presidente diz que não fez qualquer convocação para atos, assim como não firmou  acordo com o Congresso, mesmo após ter enviado projetos com sua assinatura para a repartição de recursos do Orçamento. “Tudo isso é conversa mole para boi dormir”, resumiu o deputado Coronel Tadeu (PSL-SP). Logo depois, no entanto, ele mesmo traduziu a frase para o ‘palacianês’ nos tempos do cólera, ou melhor, do coronavírus: “É colóquio flácido para acalentar bovino”.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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