Capítulo 27

Em tempos de bananas e Brucutus, Bolsonaro transforma política em show de calouros

Muitos dizem que a estratégia do presidente tenta reeditar Chacrinha, que jogava bacalhau para o público no auditório. Mas o ‘velho guerreiro’ não tinha de seguir a liturgia de nenhum cargo

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 15h27

Caro leitor,

Às vésperas das manifestações de rua previstas para o próximo dia 15, o presidente Jair Bolsonaro fez um acordo com o Congresso para repartir R$ 30,1 bilhões de recursos públicos do Orçamento. Depois de uma novela que se arrasta há semanas, Bolsonaro cedeu, a Câmara deu um passo atrás e o Senado assentiu. Para a sua plateia nas redes sociais, no entanto, ele assegurou não ter feito qualquer negociação com deputados e senadores.

Um dia depois de escalar um humorista fantasiado de Bolsonaro para comentar o fraco desempenho da economia – que no ano passado apresentou um “Pibinho” de 1,1% – e, de quebra, distribuir bananas, o presidente voltou a se irritar com os repórteres. “Quando vocês aprenderem a fazer jornalismo, eu converso com vocês”, disse o ex-capitão nesta quinta-feira, 5, diante do Palácio da Alvorada, pouco antes de embarcar para São Paulo. “Se vocês sofrem ataque todo dia, o que vocês estão fazendo aqui?”, perguntou. 

Nos dois casos, há um personagem em ação, sempre de olho no que pedem seus apoiadores do mundo virtual. Muitos dizem que a estratégia de Bolsonaro tenta reeditar Chacrinha, que jogava bacalhau para o público no auditório. Ocorre que Chacrinha não tinha de seguir a liturgia de nenhum cargo. Ao contrário: tudo o que fazia não era para explicar, mas, sim, para confundir.

Na atual temporada, nem mesmo a máxima do “velho guerreiro”, segundo a qual “quem não se comunica, se trumbica” é entendida pelo governo Bolsonaro. Hoje em dia, até a equipe econômica bate cabeça

Nesse perigoso jogo, o presidente transformou o Congresso na “Geni” da política, a imprensa em inimiga número um e o Judiciário em poder a ser vigiado com lupa.

Na cerimônia de posse da atriz Regina Duarte na Secretaria Especial da Cultura, nesta quarta-feira, 4, Bolsonaro fez questão de dizer que ela não estava na frente de um “Brucutu” . Na história em quadrinhos criada nos Estados Unidos, “Brucutu” era o homem das cavernas que carregava um porrete na mão. O presidente, até agora, “apenas” deu uma banana para a imprensa.

Em tempo: ao que tudo indica, a trégua na disputa entre o Congresso e o governo, após o acordo para a divisão dos recursos públicos, não vai durar muito. Na próxima semana, três novos projetos de lei com carimbo do Planalto começarão a ser votados na Comissão Mista de Orçamento. As propostas dão ao Executivo o poder de controlar o ritmo de liberação das emendas parlamentares. Tudo faz parte do trato com o Congresso, que Bolsonaro diz nunca ter existido.

Mas, nesse novo capítulo da queda de braço, a poucos dias das manifestações bolsonaristas em defesa do governo e contra o Congresso, o desfecho, certamente, não será o de um show de calouros.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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