Em silêncio, PMDB consegue ministérios de ''''porteira fechada''''

Aos poucos, integrantes da legenda rompem velha prática de Lula de distribuir altos cargos entre todos os aliados

João Domingos, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Devagar, e nem tão silenciosamente, o PMDB vem ocupando os cargos importantes dos ministérios que passou a administrar, chegando perto do sonho que embala o partido desde que passou a compor a base aliada - a "porteira fechada". Pelo menos na cúpula dos ministérios, o PMDB não divide o butim dos cargos, rompendo assim com uma velha prática instituída pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que distribuía as principais diretorias dos ministérios entre os aliados, em especial com os petistas, gerando reclamações diante de um clima em que todo mundo se vigiava. Hoje, o PMDB controla de fato quatro ministérios. Tem ainda o da Defesa, que pouco serve ao partido, visto que passa o tempo todo envolvido com problemas em aeroportos. E não perdeu a esperança de recuperar o de Minas e Energia e suas estatais fabulosas - Eletrobrás, Eletronorte e Eletrosul -, que vão investir R$ 50 bilhões no ano que vem. Não pára por aí a fome do maior partido da base governista. Ele quer mais.Durante a votação da CPMF na Câmara, em setembro, o PMDB de Minas Gerais arrancou do presidente Lula a promessa de que terá a diretoria internacional da Petrobrás. O nome indicado foi o de João Augusto Henriques, que acabou vetado pelo Palácio do Planalto. Sem problema: o do substituto estava à mão. É Jorge Luiz Zelada, atual gerente-geral de Exploração e Produção e Transportes Marítimos da Petrobrás.VENEZUELA E PETROBRÁSNa quarta-feira passada, o PMDB da Câmara quase pôs a perder a votação do projeto de adesão da Venezuela ao Mercosul. Só apareceu para votar quando o então líder do governo, José Múcio (hoje ministro das Relações Institucionais), garantiu que a vaga na Petrobrás será do partido. Desde o primeiro mandato de Lula, o PMDB detém a presidência da Transpetro, a transportadora da Petrobrás, que comanda uma frota de 155 navios. Dos ministérios controlados pelo PMDB, o mais peemedebista é o da Integração Nacional, que antes foi do PSB, sob a batuta de Ciro Gomes, e hoje é comandado por Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), um ferrenho adversário do governo petista durante o primeiro mandato de Lula e nos anos em que foi sólido aliado do governo Fernando Henrique (1995-2002). Do PMDB, Geddel levou para sua equipe seus próprios aliados ou indicações do líder do partido, Henrique Eduardo Alves (RN), e do governador Eduardo Braga (AM). Ele aceitou ainda duas indicações de outros partidos da base, a de Simplício Mário de Oliveira (PT) para a Secretaria de Desenvolvimento Regional e a de Zenóbio Vasconcelos (PSB) para a Agência de Desenvolvimento do Nordeste (Adene). O Ministério da Agricultura também está com a porteira praticamente fechada pelo PMDB. O ministro Reinhold Stephanes nomeou o ex-deputado Silas Brasileiro para a secretaria-executiva; para as outras diretorias chamou aliados ou nomeou indicações do governador Roberto Requião (PR) e outros co-partidários. "As delegacias nos Estados vão obedecer ao critério político e caberão a partidos da base aliada", explicou Stephanes. Na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), reivindicada pelo ex-governador Orestes Quércia, que indicou Miguel Colasuonno, Stephanes disse que também vai obedecer ao critério político. No Ministério das Comunicações, o controle do PMDB também é quase integral. O secretário-executivo, Fernando Oliveira, é amigo e conterrâneo do ministro Hélio Costa. Nos Correios, Costa e o líder do governo no Senado, Romero Jucá (RR), indicaram Carlos Henrique Custódio (presidência) e Samir Hatem (diretoria comercial). O presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Ronaldo Sardenberg, foi escolhido pelo próprio presidente Lula. No Ministério da Saúde, o ministro José Gomes Temporão foi um desejo maior do presidente Lula do que do PMDB. Ao fazer as nomeações para as diretorias do ministério, Temporão escolheu técnicos com os quais trabalhara antes. Mas não se esqueceu do PMDB. De acordo com informações de dirigentes do partido, Temporão "não dá o menor trabalho". Ao contrário, costuma atender cortesmente aos deputados sempre que é solicitado em alguma nomeação. Exemplo claro disso é a decisão de manter o peemedebista Danilo Forte na presidência da Fundação Nacional de Saúde e o médico Alberto Beltrame, uma indicação pessoal do ex-líder do PP José Janene (PR), na Secretaria de Atenção Especializada.

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