Em sessão tensa, aliado de Renan bate-boca com oposição

Almeida Lima, também relator do 1º caso, quer ler seu relatório, mas os senadores da oposição discordam

30 de agosto de 2007 | 13h25

Em sessão tensa no Conselho de Ética, o relator e aliado de Renan Calheiros (PMDB-AL), o senador Almeida Lima (PMDB-SP), discutiu com senadores da oposição porque quer apresentar também seu relatório que pede arquivamento do primeiro caso contra Renan. Lima alega que não vê indícios contra o presidente do Senado, em oposição ao documento a ser lido pelos outros dois relatores do caso: Marisa Serrano (PSDB) e Renato Casagrande (PSB). Lima insiste na leitura do documento de "quatro laudas" e se levantou na Mesa, fazendo um discurso, alegando que "estão castrando minha palavra". Devido aos ânimos exaltados, a sessão foi interrompida por cerca de 10 minutos.  Veja também:No Conselho de Ética, PSDB pede voto aberto no caso RenanPSOL faz protesto contra voto secreto no caso RenanEm última manobra, Renan tenta voto secreto no ConselhoEnquete: Você acredita que Renan será cassado?  Cronologia do caso Renan    Denúncias contra Renan abrem três frentes de investigação Veja especial sobre o caso Renan  Exaltado, o peemedebista atacou os tucanos Tasso Jereissati e Arthur Virgilio, que pediram à Mesa do Senado que o voto sobre o primeiro caso envolvendo o presidente do Senado fosse aberto. "Vocês poderiam me esclarecer o que impede a manifestação de regras claras para saber como vai ser a votação final? Por que não resolvemos isso abertamente?", questiona Virgilio. Casagrande discorda sobre a leitura de dois pareceres.  Renan é acusado de ter despesas pessoais pagas por um lobista da empreiteira Mendes Júnior. Os R$ 12 mil mensais eram destinados para o pagamento de pensão à jornalista Mônica Veloso, com quem o senador tem uma filha fora do casamento. Renan tentou provar por meio de vasta documentação que tinha renda suficiente e não precisa dos recursos da construtora. Mas laudo da perícia sobre os papéis apresentados mostra irregularidades e versões contraditórias.  Os senadores não chegam a um consenso sobre a votação, que pode ser fechada ou aberta, já que o regimento interno da Casa é omisso sobre essa questão. Além desta questão, os senadores de oposições e os outros dois relatores do caso, Marisa Serrano e Renato Casagrande, querem apenas um relatório para ser encaminhado a Comissão Constituição de Justiça (CCJ), e não dois como insiste Lima. O conselho irá votar o parecer sobre a primeira representação contra Renan, nesta quinta-feira, 30, mas, antes, irá decidir se a votação será aberta ou secreta. Segundo Casagrande, se a votação for secreta, "nós poderemos estar plantando a nulidade do processo". O advogado de Renan, Eduardo Ferrão, participa da reunião do conselho e deverá falar em nome do senador.  Com o anonimato, o senador teria mais chances de não ter o pedido de cassação aprovado. Mas, a oposição está disposta a brigar e ameaça não apresentar o relatório se o voto for fechado. Os defensores do voto aberto têm maioria no conselho e podem ganhar se essa polêmica for a voto.  Caso a definição seja pelo voto fechado, Marisa e Casagrande já avisaram que vão precisar de mais tempo para elaborar outro parecer, adiando mais uma vez a conclusão do caso. Se o relatório recomendando a cassação ser aprovado, segue depois para a Comissão de Constituição e Justiça. A palavra final será dada pelo plenário em votação secreta, conforme estabelece a Constituição.  O Conselho de Ética é composto por 16 senadores, incluindo o presidente do órgão, Quintanilha, que só vota em caso de desempate. A expectativa dos senadores é de que, se absolvido no plenário, Renan deixe a presidência. Acham que ele ficaria politicamente fragilizado. Ainda na sessão desta quinta-fiera, o senador Epitácio Cafeteira (PTB-MA) afirmou no conselho que o advogado da jornalista Mônica Veloso, Pedro Calmon, tentou subornar Renan. Segundo Cafeteira, o advogado foi até sua casa pedir que ele e um outro senador que estava lá convencessem Renan a pagar R$ 20 milhões à jornalista. Cafeteira disse ainda que o advogado disse estar fazendo "um abatimento", uma vez que o primeiro pedido teria sido de R$ 30 milhões.  Pressão O secretário-adjunto do Senado, Marcos Santi, formalizou na última quarta-feira sua saída do cargo, após se reunir com Casagrande e Marisa e com o corregedor, Romeu Tuma (DEM-SP). Santi teria justificado sua saída alegando que existem "indícios muito evidentes de que a presidência do Senado interferiu na condução das investigações".   Segundo versão de Casagrande e Marisa, o funcionário disse que "se tentou plantar nulidade no processo e levá-lo a uma direção que pudesse colaborar na defesa do presidente do Senado (Renan Calheiros -PMDB-AL)". "Isso por, si só, já configura quebra de decoro parlamentar, por abuso de prerrogativas", acusou Casagrande, um dos relatores do processo contra Renan. Mais tarde, Santi recuou na acusação de pressão, em documento que foi lido pelo presidente do Senado em plenário. "Em momento algum concedi entrevista, o que pode ser comprovado com as formas mais desencontradas que os diferentes órgãos de comunicação têm divulgado o assunto", escreveu o servidor.  Na tribuna, os senadores discutiram, além da polêmica em torno da demissão de Santi, a adoção do voto secreto ou do voto aberto. Pouco antes das 19 horas, os senadores da oposição alertaram sobre a manobra para que o voto fosse fechado.  Em sua defesa, Renan voltou a alegar nunca ter usado a máquina da Casa em seu proveito. Foi rebatido, entre outros, pelo senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). Segundo ele, as dúvidas foram geradas pela insistência do parlamentar alagoano em permanecer no comando do Senado. "Esta casa está virando uma bagunça. O que está acontecendo é por única e única responsabilidade do senhor Renan", afirmou.  Crise A crise política envolvendo o Senado vem se arrastando há três meses e chegou à exaustão. Até mesmo Renan, que comandou sucessivas manobras para retardar a votação do processo, dá sinais de cansaço e deseja um desfecho rápido. Ao longo do processo ele recusou todos os apelos para se licenciar do cargo. Impassível às pressões, apostou no tempo para esvaziar as investigações, na força do apoio do governo e na amizade dos colegas. Mas nada disso foi suficiente para amenizar o clima de tensão e retomar a credibilidade do Senado. A insistência de Renan em permanecer no comando da Casa acabou constrangendo os colegas, que se revezaram na tribuna para manifestar preocupação com a imagem da instituição. Aliado do Planalto, Renan recebeu apoio do presidente Lula, mas não conseguiu, no Conselho de Ética, o respaldo integral dos partidos governistas. O PSB e o PDT, por exemplo, estão contra ele. Como o PT está dividido, a bancada preferiu deixar os senadores livres para votar no Conselho. O petista Eduardo Suplicy (SP) já declarou que vai abrir seu voto, na contramão dos aliados do governo. Acusações Renan responde por três representações no Conselho. Na primeira - cujo parecer deve ser votado nesta quarta -, o presidente do Senado é acusado de ter despesas pessoais pagas pelo lobista da Mendes Júnior Cláudio Gontijo. Para comprovar que não precisava de recursos do lobista para pagar pensão à jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha fora do casamento, Renan apresentou documentos cheios de irregularidades, segundo laudo da PF. Segundo o senador, foram R$ 1,9 milhão em quatro anos. Renan diz apenas que Gontijo é seu amigo pessoal e que intermediava o contato com Mônica por se tratar de um caso extraconjugal. Renan também responde à denúncia de que favoreceu a cervejaria Schincariol. Ele teria feito uma venda supostamente superfaturada de uma fábrica da família Calheiros por R$ 27 milhões, quando não valia mais de R$ 10 milhões. Em troca, Renan, conforme a acusação, teria favorecido a empresa junto ao INSS, impedindo a execução de uma dúvida de R$ 100 milhões, o que ele nega. Na terceira representação, Renan é acusado por seu ex-sócio, o usineiro e ex-deputado João Lyra, de utilizar laranjas para a compra de duas emissoras de rádios em Alagoas. O senador nega as três acusações.  (Com Ana Paula Scinocca e Rosa Costa, do Estadão)

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