Em Paço do Lumiar falta tudo

Cidade com menor receita per capita nem farmácia tem

Suzana Beckman, SÃO LUÍS, O Estadao de S.Paulo

17 de novembro de 2007 | 00h00

Distante apenas 21 quilômetros da capital São Luís, a pequena cidade maranhense de Paço do Lumiar foi apontada na pesquisa do Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam) como a menor receita per capita municipal do País - R$ 296, em 2006. O município, de quase 95 mil habitantes, sobrevive basicamente de pesca e lavoura, e uma parte de sua população trabalha em São Luís.Das cerca de dez ruas, apenas duas são asfaltadas - e uma delas é a rodovia estadual que corta a cidade. Nas vias de cascalho e areia fervente que compõem o resto do município, o contraste de casas recém-reformadas com barracos de taipa é nítido. O forasteiro, porém, que não se engane. A sede da cidade - que foi emancipada em 1959 - tem apenas uma delegacia e um posto de saúde. Em Paço do Lumiar, só a Praça da Matriz é estruturada, e é ao redor dela que se localizam todos os prédios públicos municipais e as melhores casas da cidade. Os indicadores sociais do município só não são mais baixos por causa de vários bairros situados dentro da capital São Luís que têm a população computada para Paço do Lumiar. SAQUESQuem passa mal em Paço do Lumiar não pode nem sequer recorrer a uma farmácia. Os moradores têm o posto de saúde à disposição, mas não há venda de remédios ou hospitais num raio de pelo menos 7 quilômetros."Farmácia? Onde? Aqui não tem essas coisas não." O lavrador José Luís Dantas Costa, de 56 anos, é nascido e criado em Paço do Lumiar e acha até divertida a idéia de ver no município vários confortos da vida moderna.Na cidade, o tom é mais bucólico que de miséria.As piores condições são encontradas nos povoados próximos de Pirâmide, Mocaíba e Mobagituba, onde, segundo o depoimento dos moradores, são comuns os saques a caminhões com cestas básicas que o governo leva costumeiramente até o local. Terceiro de uma família de cinco filhos, Costa estudou apenas até o terceiro ano primário. Largou a escola para ser lavrador - caminho seguido por boa parte dos outros irmãos, exceto a mais velha, que hoje é professora aposentada. Costa se contenta com uma renda que, nos melhores meses, não passa de R$ 200, quantia que ele consegue vendendo quiabo, mandioca e galinha da terra nas feiras de São Luís. Como boa parte dos moradores da cidade, Costa planta quase tudo o que come. Para dormir, ele divide com os irmãos e suas famílias uma casa de taipa, de quatro cômodos, erguida há mais de 60 anos e nunca reformada. Mesmo assim, o lavrador garante que não quer outra vida. "Eu sou filho daqui, nascido e criado aqui. Vou sair por quê?"

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