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Em oitiva, Cury pede desculpas a Isa Penna por constrangimento: 'meu jeito hoje não é tolerado'

Deputado acusado de importunação sexual pela colega no plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo depôs nesta quarta-feira no Conselho de Ética

Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2021 | 16h52

Em depoimento nesta quarta-feira, dia 24, ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), o deputado estadual Fernando Cury (Cidadania) pediu desculpas à colega de parlamento Isa Penna (PSOL) "por qualquer tipo de constrangimento e por qualquer tipo de ofensa" que ele tenha causado. Cury é acusado por Penna de importunação sexual durante uma sessão no plenário. O Conselho de Ética vai avaliar se houve quebra de decoro.

Segundo a deputada, ela conversava com o presidente da Casa, Cauê Macris (PDSB) quando Cury se aproximou e a abraçou por trás, tocando-lhe os seios. A cena foi filmada pelas câmeras da Assembleia.

De acordo com o deputado, o abraço foi "um gesto de gentileza" visto que ele estava interrompendo a conversa entre Penna e Cauê. "O abraço que eu dei na deputada Isa Penna foi um gesto de gentileza porque eu iria interromper a conversa que ela estava tendo", afirmou.

"Eu queria aqui, mediante esse Conselho, fazer o que eu já fiz, no dia do fato ocorrido (...), queria mais uma vez pedir desculpas para a deputada Isa Penna por qualquer tipo de constrangimento e por qualquer tipo de ofensa que eu tenha causado naquela noite e naquela madrugada, em função desse evento", afirmou. Ele ainda estendeu o pedido de desculpas ao Conselho e a todos os deputados da Alesp, "constrangimento que causei para a nossa Casa".

O deputado concordou que sua ação constrangeu Penna e disse que vem aprendendo muito a partir do ocorrido. "Ainda que tenha sido um abraço e que tenha realmente constrangido e ofendido a deputada Isa Penna, e que esse seja o meu jeito, esse episódio me traz muito aprendizado", disse. "Quer dizer que esse meu jeito hoje não é tolerado por grande parte das pessoas, que possam se sentir constrangidas e ofendidas através desse gesto (...). Então esse episódio me traz muito aprendizado e que a partir de hoje, inclusive, eu preciso rever esse comportamento porque muitas das pessoas se sentem constrangidas com isso", acrescentou.

Álcool

No depoimento, indagado pela deputada Erica Malunguinho (PSOL), Cury negou que tivesse ingerido álcool na ocasião. Ao formular a acusação de assédio, Penna disse que o colega estava bêbado no momento da importunação sexual. A informação foi depois reiterada pela parlamentar em entrevistas.

O Estadão apurou que Cury e outros deputados haviam consumido álcool no dia, já que não se esperava que as votações iriam se estender madrugada adentro. De acordo com uma pessoa presente na ocasião da votação – e que não está entre os aliados de Penna – houve uma festa de final de ano no gabinete da liderança do Cidadania.

Testemunhas

Grande parte do tempo da sessão foi gasto em oitivas solicitadas pela defesa de Cury, em que mulheres que não estavam presentes no dia dos fatos mas que conhecem o parlamentar de longa data discorreram sobre sua índole. Algumas delas sustentaram a opinião pessoal de que Penna havia "interpretado mal" os acontecimentos.

Foram ouvidas sete mulheres, além de um perito contratado pela equipe de Cury, que defendeu a visão de que não é possível afirmar que o parlamentar tenha encostado nos seios da colega. A deputada Erica Malunguinho e o deputado Barros Munhoz (PSDB) solicitaram que o Conselho chame um perito próprio, sem vínculo com acusação ou com defesa, para elaborar um parecer.

Na oitiva, Penna afirmou que avaliava ter sido revitimizada – quando uma vítima que busca os canais oficiais para oferecer uma denúncia de assédio é alvo de novas atitudes machistas no decorrer do processo – e disse que não estava em condições de dar o depoimento naquela mesma sessão.

Ela acusou o advogado de Cury de se aproveitar de questões regimentais para silenciar a sua fala, visto que ele solicitou que fosse negada a ele a possibilidade de falar depois. Para solucionar o impasse, o relator do caso, deputado Emidio de Souza (PT) reiterou que a deputada terá sim o direito de se manifestar mais adiante e que, caso a defesa queira falar por último, Cury poderá fazer mais declarações.

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