Em nova invasão, MST diz que abril vermelho continua

O Movimento dos Sem-Terra (MST) invadiu mais uma fazenda no Pontal do Paranapanema, extremo oeste de São Paulo e anunciou que o "abril vermelho", nome dado à jornada de invasões em todo o País pelo coordenador nacional João Pedro Stédile,vai continuar. Estão previstas novas ações esta semana. Na sexta-feira, havia sido invadida pela segunda vez a fazenda Tupiconã, em PresidenteEpitácio. Outro grupo, o Movimento dos Agricultores Sem-Terra (Mast), também retomou as ações e invadiu três fazendas no sábado. Desde ofinal de março, os dois movimentos fizeram 12 invasões no Pontal, sendo nove lideradas pelo MST. O número inclui a fazenda São Camilo, ocupadaontem por 120 famílias, no município de Presidente Prudente. No total, o movimento mobilizou cerca de 2,1 mil militantes para as ocupações."Para nós, o abril vermelho não acabou", disse a coordenadora regional Desirée Alves da Silva. "Só vamos parar quando o governo começar a assentar as famílias." O dono da fazenda, Camilo Lopes, não foi localizado. A propriedade tem cerca de 700 hectares e está arrendada para dois produtores de soja. Segundo a coordenadora, a fazenda já foi julgada em segunda instância como terra devoluta. "Não sabemos o que o governo do Estado está esperando para conseguir a emissão de posse dessa terra." Ela disse que as famílias não vão recuar enquanto a área não for destinada a assentamento. "Se a justiça der a reintegração deposse para o fazendeiro, nós saímos e depois entramos outra vez."O MST aumentou o número de famílias na fazenda Tupiconã, com mais de 2 mil hectares, invadida sexta-feira. Cerca de 400 militantes já montaram barracas na área ocupada. Segundo o coordenador regional Laércio Barbosa, apenas uma parte da área pertence ao fazendeiro João Coelho Júnior. "Temos documentos que comprovam que as terras ocupadas foram vendidas." Segundo ele, o adquirente está disposto a negociar a área, de cerca de 800 hectares, com o Governo do Estado. O fazendeiro alega que houve uma negociação, mas o adquirente não cumpriu o contrato e o negócio foi desfeito. Barbosa reclama que muitas fazendas da região já foram julgadas devolutas de forma definitiva, mas o governo não toma posse das áreas. "Então, vamos ocupar as áreas para obrigar o governo do Estado a se mexer." O MST está intensificando a arregimentação de famílias nascidades da região. "Em todos os municípios do Pontal tem terras devolutas. Se for preciso, vamos fazer ocupações em todos eles." De acordo com o líder, nos últimos três anos nenhuma família foi assentada no Pontal.Essa também é a queixa do Mast. Segundo o coordenador nacional Lino de Macedo, a trégua dada ao governador Geraldo Alckmin para intensificar os assentamentos na região acabou. "A promessa de assentar 1.400 famílias até dezembro passado não foi cumprida." O Mast mobilizou cerca de 700 militantes para invadir, simultaneamente, a fazenda Três Sinos, que pertence a José Segura Morali, e a Santa Rosa, de Joaquim das Neves Reis, no município de Caiuá. A outra invasão ocorreu na fazenda São Luiz, de Presidente Bernardes. O proprietário Carlos Frederico Machado, disse que os militantes acamparam muito próximo das casas dosempregados. O dono da Três Sinos alegou que sua propriedade tem menos de 500 hectares, não sendo passível de utilização para reforma agrária.Em todas as fazendas os sem-terra continuavam a montagem de barracos. Os proprietários devem entrar nesta segunda-feira com pedidos de reintegração de posse na justiça. Macedo não descartou novas ocupações. O presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Luiz Antonio Nabhan Garcia, afirmou que o Mast e o MST estão agindo de forma coordenada. "Os líderes dos dois movimentos se entendem." Nabhan Garcia vai pedir ao governo do Estado a paralisação dos processos visando assentar famílias na região enquanto a ordem não for restabelecida. "O governador GeraldoAlckmin não pode aceitar esse tipo de pressão." Segundo ele, o governo tem dito que não aceita invasões, mas não adota atitudes preventivas,deixando acontecer. "Depois que invadem, a polícia ainda pede para o fazendeiro arcar com todos os custos da desocupação, como se isso nãofosse obrigação do Estado." O secretário estadual de Justiça, Alexandre Moraes, deve reunir-se, em Presidente Prudente, com lideranças dos sem-terra e dos ruralistas para discutir a questão fundiária da região. O MST informou que não vai ao encontro. "Queremos conversar com o secretário, mas em outra ocasião", disse Barbosa.

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