Em nome da governabilidade, Lula impõe ao PT apoio a Sarney

Apesar da reação dos petistas, prevaleceu ordem dada pelo Planalto, que prioriza o PMDB para aliança em 2010

Christiane Samarco, Eugênia Lopes e Denise Madueño, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

03 de julho de 2009 | 00h00

Falta ainda a conversa oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), mas o acerto entre o PT, o PMDB e o Palácio do Planalto está feito. Sarney permanecerá no cargo. Ao final de um dia marcado por protestos de petistas que se viam forçados a apoiar o peemedebista, o que prevaleceu foi a "ordem unida" disparada pelo Planalto, que priorizou as negociações com o PMDB em torno de uma aliança para a disputa presidencial de 2010.Sarney vive um momento delicado - o PSDB encaminhou denúncia ao Conselho de Ética da Casa, o PSOL protocolou representação na Mesa Diretora e o DEM, um de seus principais aliados, cobra seu afastamento. O motivo é uma série de irregularidades que começou a vir à tona em 10 de junho, quando o Estado revelou que o Senado utilizava atos secretos para criar cargos e nomear parentes de políticos, alguns do próprio Sarney. Um mordomo de sua filha, a governadora Roseana Sarney (PMDB-MA, era pago pelo Senado e José Adriano Cordeiro Sarney, seu neto, opera crédito consignado na Casa.Ontem, da tribuna do Senado, o líder do PT, Aloizio Mercadante (SP), deixou claro que, entre a licença de Sarney e a governabilidade, fica com a segunda opção. O encontro com Lula foi adiado para hoje por iniciativa do próprio presidente, em conversa telefônica com Sarney na manhã de ontem. Assim como dissera aos petistas que o visitaram na véspera, o senador afirmou a Lula que só ficaria no cargo se tivesse o PT a seu lado.JANTARResponsável pela pacificação do partido, Lula se reuniu ontem com os 12 senadores do PT, no Palácio da Alvorada. Até o final da noite, ainda não se sabia do resultado do encontro."Vamos aguardar que o PT decida", disse o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL). "Precisamos esperar a posição do PT, que é um componente forte da crise." Logo depois, porém, o líder do PMDB afirmou que a hipótese de renúncia estava descartada. "Aliás, Sarney nunca admitiu licença nem renúncia."Àquela altura, a cúpula peemedebista já comemorava a vitória na queda de braço com o PT. O entendimento é o de que Sarney começou a se consolidar na cadeira quando Lula caracterizou o movimento pelo afastamento, mesmo que temporário, como jogo da oposição para tomar o comando do Congresso "no tapetão".Ontem à noite, a avaliação geral era de que, a menos que surgisse uma denúncia nova e comprometedora envolvendo o presidente do Senado, sua permanência estava garantida. O grupo pró-Sarney contabiliza o apoio de pelo menos sete petistas, cinco senadores do DEM e mais quatro do PSDB que, somados aos aliados de sempre, totalizam 53 votos. Além disso, peemedebistas consideram que terão de enfrentar a oposição "raivosa" de apenas dois petistas: Marina Silva (AC) e Tião Viana (AC), que Sarney derrotou na sucessão do Senado. Eles avaliam que o senador Eduardo Suplicy (SP) é de mais fácil convívio.Sobrou para Mercadante a tarefa de reunir a bancada para administrar a insatisfação geral. Depois de alardearem o pedido de licença de Sarney e ouvirem dele a recusa enfática, os petistas tiveram de se preocupar com a repercussão do recuo sobre o eleitorado. Dos 12 petistas, 10 devem disputar um novo mandato no ano que vem.REFORMAPor isso mesmo, o objetivo dos petistas era extrair "um discurso" da reunião com Lula. Do encontro da bancada, eles tiraram uma lista de exigências para reformar o Senado. "Nossa bancada não vai abdicar do compromisso de mudar o Senado", disse Mercadante. Ele propõe a redução de despesas, a eliminação de órgãos superpostos e de estruturas como o serviço médico da Casa. "O Interlegis e o ILB são um desperdício que não se justifica", criticou.Mercadante já encarregou Viana de elaborar o anteprojeto de uma nova Lei de Responsabilidade Administrativa e Fiscal. "Não queremos que o Sarney fique apenas com o apoio do PT e do PMDB", argumentou a senadora Fátima Cleide (PT-RO). "Queremos ganhar a Casa como um todo, com o compromisso de Lula e Sarney pela reforma, porque o Legislativo ainda é uma caixa-preta."

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