Em meio a divergências internas, PSDB começa a auditar dados da eleição presidencial

Tucanos ainda não sabem o que fazer quando tiverem com o resultado nas mãos; para petista, adversários foram 'mal orientados' e entraram em 'roubada'

Pedro Venceslau e Ricardo Galhardo, O Estado de S. Paulo

19 de janeiro de 2015 | 10h17

São Paulo - O PSDB concluiu a formação do grupo que será responsável pela auditoria do resultado das eleições e os trabalhos começaram nesta semana em Brasília, mas o partido está dividido sobre o que fazer depois da conclusão da análise.  

Oito especialistas do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e da Poli/USP foram selecionados e estão analisando 30 gigabytes de material. O grupo, que será remunerado pelo PSDB, terá 60 dias para apresentar o resultado. Será escrutinado um volume de informação equivalente a 7 mil edições-padrão da Bíblia, segundo cálculo do Estadão Dados. Cada Bíblia tem 4 MB e meio de volume de informação.

A expectativa com o resultado da apuração é grande no PSDB. Quando o coordenador jurídico da campanha presidencial de Aécio Neves, o deputado federal Carlos Sampaio (SP), pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a auditoria especial quatro dias depois do pleito, a decisão incomodou parte dos tucanos. Além de reclamarem que não houve debate interno sobre o tema, membros do PSDB diziam, reservadamente, que o resultado da investida podia ser um "tiro no pé". Presidente da sigla, Aécio chancelou a iniciativa.

Se a averiguação não constatar nenhuma irregularidade ou apontar apenas pequenas falhas pontuais, a auditoria abrirá um flanco para que os petistas acusem os adversários de que queriam "vencer no tapetão" ou "forçar um terceiro turno". "Essa iniciativa foi uma roubada para o PSDB, que foi muito mal orientado. Se ficar provado que não houve irregularidade nenhuma, eles tentarão deixar isso de lado para cair no esquecimento", diz o deputado Paulo Teixeira (SP), membro da executiva do PT.

Embora o repúdio à ação do PSDB, considerada "oportunista", seja unânime no PT, o partido questiona internamente há vários anos a segurança do sistema de urnas eletrônicas. Desde 2002 o PT tem um núcleo técnico encarregado de fiscalizar e acompanhar as mudanças do sistema. Dirigentes importantes do PT defendem aprimoramentos como, por exemplo, a impressão dos votos, como forma de garantir a possibilidade de auditorias. "O PSDB deveria se preocupar em aprimorar o processo eleitoral de forma que se possa fazer auditorias seguras com a adoção do voto impresso. Da forma como age neste momento, o PSDB questiona a democracia, e não o processo. Vamos olhar para a frente", disse o secretário-geral do PT, Geraldo Magela.  

Entre os tucanos ouvidos pela reportagem, as opiniões sobre as providências em caso de comprovadas as falhas (ou fraudes) divergem. "Se chegarem à conclusão que alguma irregularidade tenha invertido o resultado da eleição, o partido terá que tomar medidas para dar legitimidade ao processo", avalia o ex-governador Alberto Goldman, vice-presidente nacional do PSDB. "Se não encontrarmos nada, isso trará tranquilidade. Se encontrarmos algo grave, isso será importante para que, no futuro, o resultado seja mais fidedigno", pondera o advogado Flávio Henrique Costa Pereira, coordenador do grupo de trabalho dos tucanos.

O próprio coordenador jurídico do PSDB, Carlos Sampaio, chegou a descartar a hipótese de tomar qualquer medida para reverter o resultado da eleição mesmo que fique comprovado que o sistema falhou. "Devemos aguardar o resultado com tranquilidade. A parte política do resultado só deve ser avaliada depois. De qualquer forma, a auditoria devia ser uma rotina", diz o deputado Antonio Carlos Mendes Thame (SP), secretário-geral do PSDB.

Apontadas pelos tucanos no ano passado como evidências de fraude ou falha no processo de votação, as denúncias enviadas por eleitores e militantes pelas redes sociais ou por mensagens de Whats App foram descartadas pelo grupo de trabalho. "As denúncias não terão grande relevância (no processo), já que em várias situações elas não se confirmaram", diz o advogado do PSDB.

"Vamos analisar no final os dados de 270 municípios, dez por estado", explica. "Em algumas cidades de Minas, por exemplo, o resultado final ficou muito aquém das pesquisas e da expectativa com o trabalho na campanha", afirma o coordenador. Ainda segundo ele, os critérios não podem ser pormenorizados, porque foi assinado um termo de confidencialidade. Além do grupo de trabalho, o partido contratou uma empresa especializada em tecnologia da informação para auxiliar o processo.

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