Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Em meio a bate-boca, França diz que não apoia PT e Doria se aproxima de Bolsonaro

Em situação de empate técnico, candidatos ao governo de São Paulo trocam acusações em debate e falam pouco de propostas

O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2018 | 23h15

SÃO PAULO - Em situação de empate técnico nas pesquisas de intenção de votos, os candidatos ao governo de São Paulo, João Doria (PSDB) e Márcio França (PSB), que tenta a reeleição, refletiram no primeiro debate do segundo turno, promovido pela TV Bandeirantes, o clima belicoso da campanha no horário eleitoral. Em meio às interrupções da plateia, o encontro foi um debate marcado por ataques diretos, inclusive com ofensas pessoais, em detrimento à apresentação de propostas.

Enquanto o tucano acusou França de ser "carreirista" por atuar há 30 anos em cargos públicos e o chamou repetidas vezes de "esquerdista", o governador disse que nunca apoiou o PT" e, que o ex-prefeito é um "traido também foi beneficiado pelos governos petistas, com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para suas empresas.

Em um dos momentos mais tensos, Doria acusou França de constar na lista da Odebrecht com o condinome "Paris". O governador então desafiou o oponente a provar. "Se você encontrar meu nome em alguma lista, João, eu renuncio ao meu mandato como governador", disse. E acusou Doria de receber dinheiro do BNDES para comprar um jatinho. 

Outro momento de tensão foi quando França disse que Doria havia jurado pela honra do pai e dos filhos que cumpriria os quatro anos de mandato na prefeitura. "Não lhe autorizo a usar o nome do meu pai e nem do meu filho. Tenha decência", rebateu o tucano. 

Foram inúmeras as trocas de ofensas e interrupções entre os antigos aliados - França apoiou a eleição de Doria à Prefeitura em 2016 - o que fez o debate andar em círculos. Inflamada pelo confronto, a plateia presente no estúdio da emissora se dividiu entre xingamentos, vaias e aplausos, o que levou o mediador, Fábio Pannunzio, a fazer reiteradas intervenções e ameaças de retirar correligionários do local.

O embate começou logo na primeira pergunta, feita por um eleitor sobre o que o candidato pretende fazer para gerar empregos no Estado. De largada França já tentou se desvencilhar dos ataques que tem sofrido de Doria na campanha, o associando ao PT. "Eu não sou do PT e não apoio o PT, que fique bem claro." Doria insistiu em vincular o atual ao governador a petistas como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-ministro José Dirceu, e enfatizar que apoia o candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro. "Você é carreirista do setor público", disse o tucano. 

Doria acusou França de esconder o nome do partido. "Você é do Partido Socialista Brasileiro, seu chefe da casa Civil é Aldo Rebelo, que foi do PCdoB", acusou o tucano. "Nunca escondi e não traio o meu partido, diferentemente de você, que traiu Geraldo Alckmin", rebateu França, lembrando que também ajudou a elegê-lo em São Paulo. "O Bolsonaro é um cara simples, nada a ver com você. Ele é um coitado por ter que arrastar você."

Até xingamentos da plateia foram ouvidos. "Você está neurótico com essa coisa de PT", disse França, lembrando que o candidato foi esnobado por Bolsonaro quando tentou encontrá-lo, no Rio de Janeiro. "Somos muito diferentes, eu não sou carreirista", retrucou o tucano.

"Eu não traio as pessoas. Não passo rasteira. Você traiu o Alckmin, ele disse isso. Você misturou o público e o privado", disse França, mencionando a fala de Alckmin durante uma reunião da executiva nacional do PSDB logo após o primeiro turno, na qual o presidenciável tucano insinuou que seu afilhado político o traiu na eleição.

França aproveitou o debate para trazer acusações novas contra Doria. Disse que apesar das críticas do tucano ao PT, Doria recebeu R$ 44 milhões de financiamento do BNDES para "comprar um jatinho" e R$ 6 milhões para o Lide, grupo de liderenças empresarais criado por Doria e administrado pela sua família. O governador também citou que Doria doou dinheiro para campanhas de petistas, como José Eduardo Martins Cardozo, em 2006, e para Manuela D'Ávila (PCdoB), em 2012. "Você não é Bolsonaro, você é Bolsoseu", disse França.

O clima só amenizou um pouco quando os candidatos começaram a falar de propostas. França procurou capitalizar o acordo feito com a prefeitura de Guarulhos no qual o serviço de abastecimento de água e coleta de esgoto deixará de ser municipal e passará a ser feito pela Sabesp, empresa do Estado. Doria prometeu despoluir os últimos 100 km do Rio Tietê que ainda estão contaminados por meio de Parceria Público-Privada.

Ainda assim, os candidatos aproveitaram qualquer brecha para atacar o rival. França afirmou que Doria era amigo do empresário Eike Batista, que chegou a ser preso e foi condenado na Lava Jato. O governador repetiu que não traiu Alckmin e disse que antes de escolher seu partido ou ideologia escolheu ter caráter.

Ao ser criticado por França sobre rua que anexou à sua propriedade em Campos do Jordão e depois foi comprada pelo tucano, Doria disse que a família do governador tem uma ilha no litoral de São Paulo e precatórios a receber do Estado.

No último bloco, França exaltou o apoio de Paulo Skaf, candidato derrotado do MDB, e o Sesi, que foi usado como vitrine pelo emedebista. “Você falou mal do Paulo Skaf durante todo o primeiro turno, mas agora exalta ele. Esse programa do Sesi com pagamento não é a melhor alternativa”, respondeu Doria. O tucano ainda chamou Skaf de “imperador da Fiesp”, e disse que ele “modificou duas vezes” o estatuto da entidade para ficar lá.

O debate terminou com novas acusações das duas partes. França acusou Doria de ter votado em Bolsonaro no 1° turno, de renegar o PSDB e trair aliados, enquanto o tucano voltou a chamar o adversário de esquerdista. "Você fez o Alckmin chorar, João Doria", disse França. Já Doria, em suas considerações finais, chegou a citar o número de Bolsonaro ao pedir votos para o presidenciável do PSL. / PEDRO VENCESLAU, FABIO LEITE, MARCELO OSAKABE e DANIEL GALVÃO 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.