Em marcha lenta, caso Renan completa 2 meses

Presidente do Senado, usando a força do cargo e o prestígio pessoal, adiou o quanto pôde andamento do processo no Conselho de Ética da Casa

Guilherme Scarance, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2026 | 00h00

Nos últimos dois meses, o País foi surpreendido por denúncias contra Genival Inácio da Silva - o Vavá, irmão do presidente Lula - e o desmonte de uma máfia que desfalcava a Petrobrás, sem falar no maior acidente aéreo do País, mas enquanto isso outra investigação rumorosa, contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), avançou a passo de tartaruga. Eleito com folga duas vezes para chefiar o Congresso, ele fez uso de sua forte influência e o processo a que responde, no Conselho de Ética da Casa, ainda patina na coleta de provas.Em 25 de maio, a revista Veja revelou que o senador gozava de vantagens pessoais junto ao lobista Cláudio Gontijo, da Construtora Mendes Júnior. Ele pagaria, por exemplo, a pensão de uma filha de Renan fora do casamento e o aluguel de um apartamento luxuoso para a mãe da criança, a jornalista Mônica Veloso. As denúncias atingiram o parlamentar em um dos melhores momentos de sua carreira - tinha trânsito livre entre aliados e oposicionistas, simpatia de Lula e força para cobrar a sua cota de cargos.A investigação está hoje concentrada na perícia da Polícia Federal, em documentos apresentados pela defesa, e na análise da evolução patrimonial do senador, entre 2003 e 2007. Renan alega ter faturado R$ 1,9 milhão com atividades agropecuárias, na tentativa de demonstrar que não precisava da ajuda do lobista para pagar despesas pessoais. Notas fiscais de venda de gado, recibos de pagamento, atestados de vacina, livro-caixa das propriedades e guias de trânsito animal (GTAs) estão sendo verificados por peritos.VAIVÉNSA interferência direta de Renan no processo, por vezes substituída pela ação dos aliados, garantiu que o caso avançasse milímetro a milímetro. Ele fez a primeira defesa da cadeira de presidente do Senado, embora a denúncia não se referisse à instituição. Dali, discorreu sobre o que considerava um caso pessoal, "calvário" familiar, e se auto-absolveu, alegando ter apresentado "prova irrefutável" - o reconhecimento da paternidade.O discurso, porém, não elucidou a fonte dos pagamentos feitos a Mônica antes de Renan assumir a paternidade da menina, entre janeiro de 2004 e novembro de 2005. Cobrado, ele reagiu rápido, enviando novas "provas" ao corregedor do Senado, Romeu Tuma (DEM-SP), e reiterando que pagara tudo com recursos pessoais. A declaração foi reforçada por depoimento de Gontijo e o senador tentou colocar um ponto final no episódio, denunciando um complô contra ele e Lula.Inflexível, o PSOL insistiu e conseguiu a abertura de um procedimento por quebra de decoro parlamentar, em 6 de junho. A tropa de choque entrou em cena e o primeiro relator do processo, Epitácio Cafeteira (PTB-MA), recomendou o arquivamento sumário do caso, sem ouvir testemunhas. No dia 14, veio à tona a denúncia de que Renan teria usado notas frias para justificar seus rendimentos - uma ducha de água fria em sua defesa, seguida de perícia parcial da PF, que levantou mais dúvidas.DESGASTE PROGRESSIVONova crise se instaurou no Senado. Renan perdeu aliados e força política, foi cobrado em plenário para deixar o cargo, evitando que o Senado sangrasse mais. Com seu relatório deixado de lado, Cafeteira renunciou, assim como o seu substituto, Wellington Salgado (PMDB-MG), e até o presidente do colegiado, Sibá Machado (PT-AC).O novo presidente do conselho, Leomar Quintanilha (PMDB-TO), mandou o processo de volta à Mesa do Senado, ou seja, à estaca zero, e Renan passou a sofrer pressões cada vez maiores. Mesmo assim, se segurou na presidência e anunciou a disposição de resistir.No último dia 3, ele sofreu a pior derrota, quando a Mesa remeteu o caso de volta ao conselho. Foi escolhido um trio de relatores - Marisa Serrano (PSDB-MS), Renato Casagrande (PSB-ES) e Almeida Lima (PMDB-SE). No dia 11, embora decidido a não "arredar pé", Renan desistiu de presidir a sessão de votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Mas conseguiu atrasar, o quanto pôde, o envio dos documentos de sua defesa aos peritos da PF.

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