Em livro, Serra revive exílio e últimos meses de Jango no poder

O líder da UNE em 1964 diz que presidente queria estado de sítio, mas reformas não fariam País se tornar 'outra Cuba'

GABRIEL MANZANO, O Estado de S.Paulo

22 Junho 2014 | 02h01

A safra de memórias que marcam os 50 anos do golpe militar ganha mais um volume na terça-feira. O ex-governador José Serra, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1964, lança pela editora Record Cinquenta Anos Esta Noite - O Golpe, a Ditadura e o Exílio.

O livro relata os 13 anos vividos desde 1.º de abril de 1964, quando foi se esconder na Embaixada da Bolívia no Rio após os militares derrubarem João Goulart do poder, até 18 de maio de 1977, dia em que desceu de um avião e, emocionado, teve "ímpetos de cair de joelhos e beijar o chão de Viracopos".

Foram tempos conturbados - Serra passou por Bolívia, Itália, Chile, voltou clandestino ao Brasil, foi de novo para o Chile e, dali, fugindo de mais uma ditadura, seguiu para os Estados Unidos. "Saíra agitador noviço e voltara professor adulto", resumiu.

Serra vivera um exílio que, a certa altura, definiu como "uma austera, apagada e vil tristeza", na aflição de sempre procurar um lugar para morar, brigando por documentos, adorando convites para jantar. Mas o ponto alto da história é a crítica aos meses finais do governo Jango, de quem havia se aproximado. O que Serra diz, 50 anos depois, é que Jango queria, sim, dar um golpe - como a direita apregoava -, mas também que, como sustentava a esquerda, suas reformas de base não tinham nada de mais.

Mitos. O presidente "tinha de fato o propósito de implantar o estado de sítio". Jango queria "um regime de exceção nominalmente transitório, para intervir na Guanabara e em São Paulo", onde mandavam seus grandes inimigos, Carlos Lacerda e Adhemar de Barros. As reformas de base, diz, "eram bem menos incendiárias do que a esquerda e a direita faziam crer. Elas nem resolveriam a crise nem implantariam um regime cubano no Brasil".

"Esse é um mito que ficou: nada mais fantasioso do que supor que o Brasil pudesse virar uma Cuba ou que a esquerda, em 1963-64, estivesse se armando", afirma Serra.

'Ouro de Moscou'. De quebra, uma curiosidade histórica. O decantado "ouro de Moscou", dinheiro da União Soviética que estaria financiando a agitação no Brasil, não só não existia como, ironicamente, o sustento da UNE era garantido por um deputado da arqui-inimiga UDN, Paulo Sarasate, que providenciava na Câmara as emendas ao Orçamento repassadas à entidade.

Metódico, às vezes irônico, o relato de Serra é um misto de romance de formação e memórias afetivas. Ele mescla o aprendizado de economia e política às preferências culturais, a amizade e influência de professores à preocupação com os pais, os debates sobre os erros da esquerda e o futuro do País - onde fica clara sua oposição à luta armada.

Cinquenta anos esta noite - O Golpe, a Ditadura e o Exílio

Autor: José Serra

Editora:

Record (266 páginas, R$ 35)

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