WILTON JUNIOR/ESTADAO
WILTON JUNIOR/ESTADAO

Em livro, intelectuais buscam explicar o que muda no País com o governo Bolsonaro

'Democracia em Risco?' traz análises do que teria levado à vitória do presidente e projeções de como pode ser seu mandato

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2019 | 05h00

Consideradas as palavras que acompanharam “democracia” nos livros publicados em 2018, o ano não foi bom para o melhor dentre os piores regimes. Crise, fim e até morte se juntaram ao termo em títulos traduzidos dos Estados Unidos e da Europa para o Brasil, país que aparecia sempre de passagem, com uma menção ou outra, nos textos de Manuel Castells, David Runciman e da dupla Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Restava ao leitor brasileiro identificar se havia ali pontos que pudessem fazer sentido na conjuntura nacional, marcada por uma das eleições mais disputadas da História recente do País.

Com o fim do ciclo eleitoral e a posse de Jair Bolsonaro, coube à Companhia das Letras reunir um grupo de 22 intelectuais de diferentes áreas para escrever, no calor do momento, ensaios sobre a situação brasileira após a vitória do candidato do PSL. O resultado é Democracia em Risco?, lançado primeiro em e-book e já disponível em versão física nas livrarias. Agora, além de artigos espaçados na imprensa, o leitor brasileiro tem quase 400 páginas compiladas para avaliar as mudanças em gestação no País.

O livro traz análises do que teria levado à vitória de Bolsonaro e projeções de como pode ser seu mandato. São perguntas e hipóteses, não respostas. Nomes como Boris Fausto, Ruy Fausto, Heloisa Starling, Daniel Aarão Reis e Angela de Castro Gomes, entre outros, também abordam o “bolsonarismo” sob perspectiva histórica.

Tribunais. Logo no primeiro artigo, o cientista político Sérgio Abranches, pai do termo “presidencialismo de coalizão”, pede para os leitores apertarem os cintos. Prevê um governo que tentará adotar medidas que ainda geram polêmicas, como o Escola sem Partido ou a ampliação do chamado excludente de ilicitude para policiais (uma isenção de culpa e punição em situações de confronto em legítima defesa) – cujas discussões deverão parar no Supremo Tribunal Federal (STF). “A judicialização da política é praticamente inevitável”, escreve.

Quem também aponta para a necessidade de um STF “hábil e corajoso”, capaz de agir como guardião constitucional, é o professor de Direito da USP Conrado Hübner Mendes, para quem uma ameaça do “bolsonarismo” seria a sensação passada por parte de seus defensores de um “governo com as próprias mãos”. Ou seja, o risco de que, mesmo que não virem políticas concretas, determinadas propostas sejam aplicadas nas ruas por quem vê no ocupante da cadeira mais poderosa do País um parceiro.

Religião. Os autores que integram a coletânea, por mais variados que sejam, acabam convergindo em vários temas para explicar a ascensão de Bolsonaro – todos presentes no que a historiadora Angela Alonso chama de “comunidade moral” no título de seu ensaio. Destaque também para o papel dos evangélicos neopentecostais, cuja influência transcendeu bandeiras conservadoras e chegou ao debate econômico, como observa a economista Monica de Bolle.

Defensora de propostas de cunho liberal e crítica da política desenvolvimentista implementada durante a gestão Dilma Rousseff, Monica escreve sobre o fato de os líderes evangélicos terem incluído bandeiras econômicas dentre as propostas entregues a Bolsonaro ainda durante a eleição presidencial. O artigo assinado por ela analisa o liberalismo sob diferentes aspectos para ver se o novo presidente conseguiu se afastar da imagem estatizante geralmente atribuída aos militares.

Das sete categorias criadas pelo estudo de Monica, apenas em duas Bolsonaro estaria alinhado com a visão liberal. Nas outras cinco, diz a economia, “não há informação suficiente” para saber.

O ensaio do antropólogo Ronaldo de Almeida mostra que a visão de País cultivada por Bolsonaro teria muito a ver com os chamados valores da teologia da prosperidade. Seria um casamento entre o conservadorismo moral e a visão econômica competitiva, que anseia a conquista material por meio da disputa e vê na riqueza um sinal de bênção.

Em um contexto de um regime político em transformação no País, o livro traz outros artigos sobre a decomposição e uma eventual recomposição de um sistema que nas duas últimas décadas se caracterizou pela polarização entre PT e PSDB, que governaram de acordo com a lógica do sistema de presidencialismo de coalizão.

SERVIÇO:

Democracia em Risco?

Vários autores

Companhia das Letras

Livro: R$ 54,90

E-Book: R$ 29,90

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