Lam Yik Fei/The New York Times
Lam Yik Fei/The New York Times

Em Hong Kong, um sindicato de jornalistas tenta resistir à pressão da China

A nova Lei de Segurança Nacional significou o fim da linha para grande parte das organizações da sociedade civil da ilha. A Associação de Jornalistas de Hong Kong espera que vá conseguir evitar esse destino

Austin Ramzy/ The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2021 | 15h00

HONG KONG - Os sindicatos se dobraram. Os partidos políticos fecharam. Os veículos de mídia independentes e os grupos de direitos civis desapareceram. O governo de Hong Kong, com sua autoridade totalmente apoiada por Pequim, vai sufocando a sociedade civil da cidade, outrora a mais vibrante da Ásia, suprimindo uma organização de cada vez.

Mas um grupo, a Associação de Jornalistas de Hong Kong, se recusa a desistir, mesmo se o secretário de Segurança de Hong Kong repetidamente dispara críticas públicas contra a organização.

“Vamos tentar lutar até o último momento”, disse Ronson Chan, o presidente da associação. “Mas, honestamente, é uma aposta. Quão cruel o governo de Pequim será conosco? Conhecemos a história dos jornalistas na República Popular da China.”

As autoridades têm usado uma lei de segurança nacional, que foi introduzida no ano passado, após meses de vastos protestos antigovernamentais, para silenciar a dissidência. Dezenas de grupos foram forçados a se dissolver.

Muitos enfrentam investigações. A polícia prendeu os líderes de alguns grupos e usou a lei de segurança para forçá-los a revelar informações sobre filiação e financiamento. Alguns grupos têm sido alvo de ataques de autoridades e de jornais controlados pelo Estado.

Sem fazer parte nem do governo nem do setor privado, a sociedade civil oferece uma defesa contra os excessos de ambos. Ela dá às pessoas uma maneira de serem ouvidas quando os poderes estão contra elas e ajuda a responder aos problemas que os governos não resolvem.

As ações contra os sindicatos e as organizações sem fins lucrativos vão além de Hong Kong. Em função da relativa liberdade da cidade, ela funciona como um centro dos esforços para proteger os direitos na China e em toda a região. Mas esse status está se desgastando, conforme a repressão avança.

“Estes grupos eram importantes não apenas para Hong Kong, ou mesmo para a China, mas para toda a Ásia”, disse Maya Wang, pesquisadora sênior da Human Rights Watch na China. “Agora, pouco a pouco, esse tecido da sociedade civil está sendo desmantelado.”

A Human Rights Watch, com sede em Nova York, deixou Hong Kong depois de ter sido punida pela China em retaliação à legislação americana de apoio aos manifestantes de Hong Kong em 2019. “Nossa equipe da China continua a funcionar e a acompanhar de perto os desenvolvimentos de Hong Kong”, disse Sophie Richardson, a diretora da Human Rights Watch na China.

A Anistia Internacional disse na segunda-feira da semana passada que estava fechando seus escritórios locais e regionais em Hong Kong, porque a lei de segurança havia impossibilitado os grupos de direitos humanos de operar na cidade.

O maior grupo local a cair foi a Confederação de Sindicatos, uma central sindical com mais de 70 sindicatos afiliados. Ela votou em 3 de outubro para se dissolver, frente à crescente pressão do governo.

A confederação ajudou a organizar uma greve dos trabalhadores portuários em 2013 e uma greve dos garis em 2018. Suas atividades políticas, incluindo protestos e uma greve geral durante a agitação de 2019 que assolou a cidade, provavelmente fizeram dela um alvo das autoridades.

“A atividade sindical é muito pouco prestigiada em Hong Kong”, disse Wang, citando as fracas proteções trabalhistas da cidade. “Não há basicamente nenhuma recompensa, mas eles persistiram de qualquer forma.”

O secretário geral da confederação, Lee Cheuk-yan, está cumprindo pena na prisão por organização de uma assembleia ilegal durante os protestos de 2019. Ele e Carol Ng, ex-presidente do grupo, também foram acusados de subversão em casos separados sob a lei de segurança. O grupo disse que foi forçado a se dissipar depois que seus líderes foram ameaçados.

“Alguns de nossos líderes receberam avisos bastante intimidadores e concretos de que estavam enfrentavam ameaças contra si próprios ou mesmo às suas famílias se a CTU permanecesse em operação”, disse C.F. Fan, um oficial de pesquisa do grupo.

Ele disse que as ameaças vinham tanto de Hong Kong quanto dos serviços de segurança chineses, mas se recusou a dar detalhes.

O secretário geral da confederação, Lee Cheuk-yan, está cumprindo pena na prisão por assembleia ilegal durante os protestos de 2019. Ele e Carol Ng, ex-presidente do grupo, também foram acusados de subversão em casos separados sob a lei de segurança. O grupo disse que foi forçado a dissolver-se depois que seus líderes foram ameaçados.

“Alguns de nossos líderes receberam avisos bastante intimidadores e concretos de que estavam enfrentando ameaças à sua pessoa ou mesmo às suas famílias se a C.T.U. permanecesse em operação”, disse C.F. Fan, um oficial de pesquisa do grupo.

Ele disse que as ameaças vinham tanto de Hong Kong quanto dos serviços de segurança chineses, mas se recusou a dar detalhes.

Uma das maiores afiliadas da confederação, o Sindicato dos Professores Profissionais de Hong Kong, disse que se dissolveria este ano. Essa organização era o maior sindicato de professores da cidade, com mais de 100 mil membros, mas começou a se desbaratar depois que a mídia estatal a atacou como um "tumor maligno" e o governo disse que não reconheceria mais o grupo.

Os grupos ativistas também foram dizimados. A Frente Civil de Direitos Humanos, que tinha organizado grandes marchas, fechou em agosto depois que o escritório de Pequim em Hong Kong a acusou de se opor à China e a polícia abriu uma investigação sobre seu financiamento.

A Aliança de Hong Kong em Apoio aos Movimentos Democratas Patrióticos da China, que organizava uma vigília anual para lamentar os mortos na repressão ao movimento de protesto na Praça Tiananmen em 1989, foi dissolvida depois que as autoridades começaram a investigar seu financiamento e acusaram a maior parte de sua liderança de ataques à segurança nacional, incluindo a subversão. As autoridades removeram as exposições do museu do grupo e bloquearam o acesso em Hong Kong ao seu website.

“Os últimos 32 anos, com a Aliança de Hong Kong mantendo vivas essas memórias, sinalizavam que Hong Kong era diferente da China continental”, disse Richard Tsoi, o único dirigente do grupo que não estava sob custódia, sobre as vigílias. “Mas as coisas mudaram significativamente.” Muitos grupos continuam a operar, mas alguns temem que a repressão possa se espalhar.

“Não estamos nada interessados na política”, disse Brian Wong, membro da Liber Research Community, um instituto de pesquisa independente que se concentra no uso da terra. “Mas pelo que podemos ver do continente, eventualmente toda a sociedade civil pode ser vista como uma ameaça.”

A relativa distância da Associação de Jornalistas de Hong Kong em relação à política também pode tê-la isolado até o momento. O chefe do sindicato, Chan, diz que sua liderança está calejada por anos de cobertura de repressões e protestos de rua.

Eles têm poucas ilusões sobre as dificuldades que enfrentarão, mas querem continuar por causa das necessidades de seus colegas, incluindo centenas de jornalistas do Apple Daily, recentemente desempregados, acrescentou ele. O agressivo jornal pró-democracia foi forçado a fechar em junho depois que suas contas foram congeladas e vários editores e executivos de alto nível foram presos.

“Eu disse a eles, mesmo que eu fosse preso, por favor, não deixem de existir”, disse ele. “E se a pressão for muito grande, então, diga isso para os leitores.”

O grupo de jornalistas, que tem menos de 500 membros, foi fundado em 1968 para ajudar os trabalhadores da mídia a se organizarem e para promover a liberdade de imprensa. Este ano, o grupo tem se concentrado cada vez mais em ajudar jornalistas desempregados, incluindo o fornecimento de cupons a ex-funcionários do Apple Daily.

Chris Tang, secretário de segurança de Hong Kong, iniciou um amplo ataque contra a associação de jornalistas em setembro. Em entrevista ao jornal estatal Ta Kung Pao, ele criticou o sindicato por permitir membros estudantes e perguntou por que sua liderança era formada por jornalistas de "algumas poucas organizações de mídia" —  uma referência a veículos geralmente são críticos para o governo. Ele pediu ao grupo que revelasse seus membros, uma demanda que alguns meios de comunicação pró-Pequim e políticos têm repercutido por semanas.

A associação respondeu que os únicos estudantes que podem aderir são universitários que estudam jornalismo, e que revelar a lista de membros do sindicato muito provavelmente violaria as leis de privacidade de Hong Kong. Chan disse que o sindicato tem membros da maioria das principais publicações e até mesmo de publicações controladas pelo Estado. Outro sindicato, a Federação de Jornalistas de Hong Kong, representa a mídia pró-Pequim.

“Não podemos subestimar o perigo que corremos”, disse Chan, que é um editor da Stand News, uma publicação on-line. “Mas eu acho que ainda temos algum espaço.”

Depois que Tang, que era o comissário de polícia de Hong Kong, foi nomeado para o cargo de secretário de Segurança em junho,  Chan enviou uma mensagem o parabenizando. Ele conhecia Tang dos anos de cobertura da polícia. "O mais importante é que todos estejamos seguros", respondeu Tang numa mensagem de texto.

"Isso depende de você", respondeu-lhe Chan. "Eu também estarei seguro?"

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