NICOLAS ASFOURI / AFP
NICOLAS ASFOURI / AFP

Em Harvard, polarização nas redes e ataques à imprensa viram tema de debate

Brazil Conference, nos Estados Unidos, discute cenário político do País em evento organizado por estudantes brasileiros em Harvard e no MIT

Beatriz Bulla, enviada especial, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2019 | 18h08

CAMBRIDGE – Os ataques a jornalistas nas redes sociais e os desafios da mídia em tempos de polarização durante as eleições de 2018 foram discutidos no Brazil Conference, evento organizado por estudantes brasileiros em Harvard e do MIT, em Cambridge, no Estado de Massachusetts, nos Estados Unidos.

Um dos casos citados foi o ataque digital dirigido contra a repórter do Estado Constança Rezende. O site Terça Livre, que reúne ativistas conservadores e simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro, publicou em março um texto que falsamente atribui à repórter a declaração “a intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”, ao tratar da cobertura jornalística das movimentações suspeitas de Fabrício Queiroz, ex-motorista do senador e filho do presidente.

A suposta declaração, que aparece entre aspas no título do texto do Terça Livre, teria sido dada, segundo “denúncia” de um jornalista francês, em uma conversa gravada. Na gravação do diálogo, porém, Constança não fala em “intenção” de arruinar o governo ou o presidente. O presidente Jair Bolsonaro utilizou a notícia falsa para atacar a imprensa no Twitter.

“A isso se seguiu um posicionamento muito firme, não só do Estadão, como da imprensa como um todo, muito firme, muito imediato, e sem tergiversação de que aquilo era ‘fake’ e que o governo cometia uma irresponsabilidade. Não é questão de adjetivar. Quando você usa canais oficiais para atacar a imprensa com base em informações falsas, isso é um desvio de conduta de um agente pública. As coisas têm que ser chamadas pelo nome que elas têm”, afirmou Vera Magalhães, editora do site BR18 e colunista do Estado e da rádio Jovem Pan.

Para Vera, a “dialética e a tensão” com a imprensa devem continuar ao longo do governo. Segundo ela, contudo, há setores do próprio governo que não coadunam com os ataques à imprensa. “Existia uma expectativa de que a presidência institucionalizaria o (Donald) Trump. Isso não aconteceu até hoje. Não vai acontecer com Bolsonaro”, afirmou Vera, ao citar como exemplo os ataques do presidente americano à imprensa. Segundo ela, o papel dos jornalistas é expor essas situações "de maneira responsável”.

A repórter especial do jornal Folha de S.Paulo Patrícia Campos Mello alertou para o risco de que os ataques sejam uma armadilha de distração, para tirar o foco temas de interesse público. “Quando você fica nas polêmicas, hashtags e linchamentos virtuais, você não está focando no que interessa, por exemplo a reforma da Previdência”, afirmou.

Patrícia também destacou que é preciso levar em conta que a automatização de contas e robôs “inflam” as reações nas redes sociais e afirmou que “é preciso ver o quanto é voluntário e espontâneo e o quanto é uma tentativa de manipular a opinião pública”.

Patrícia também falou sobre ataques digitais que sofreu após a Folha publicar reportagem sobre o disparo em massa de mensagens no WhatsApp por empresários apoiadores da então candidatura de Bolsonaro, durante as eleições. “A reação foi brutal, começou um processo de desconstrução de reputação online. Eu nunca tinha passado por isso, achei bastante assustador”, afirmou a repórter, que relatou ter sofrido ameaças.

Yasodara Cordova, pesquisadora da escola de governo de Harvard, explicou o funcionamento do Projeto Comprova, que reuniu 24 diferentes veículos de comunicação brasileiros para investigar informações enganosas durante a campanha presidencial de 2018. A pesquisadora também afirmou que o poder público deve ser mais incisivo quanto ao comportamento de ataques e cometimento de crimes nas redes sociais. “O ataque a qualquer pessoa na internet tem que ser separado do que a gente costuma chamar de ‘fake news’”, afirmou Yasodara.

Responsável pela moderação do painel, o jornalista Fabio Pannunzio, da Band, afirmou que as redes sociais podem ser um “fenômeno de comunicação social, mas não são uma atividade de jornalismo”. “Falta o embalamento ético”, afirmou Pannunzio. 

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