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Em grandes cidades, diferença de perspectivas divide classe C

Não só na capital mineira como em São Paulo e no Rio, há disparidade na intenção de voto entre os que ganham de R$ 1.486 a R$ 3.630

Lourival Sant'Anna, O Estado de S. Paulo

07 Junho 2014 | 16h01

Belo Horizonte - Napoleão Ruas acorda às 4 horas para ir trabalhar em sua banca de jornal no centro de Belo Horizonte e volta para casa às 21 horas. Mesmo assim, não ganha o suficiente para pagar faculdade para seu único filho de 20 anos. Aos 51 anos, Leda Santos concluiu o ensino médio e, graças a um programa do governo federal, está fazendo um curso técnico, com o qual acredita que aumentará sua renda e poderá se “aposentar com dignidade”.

A diferença de perspectivas de Ruas e de Leda, ambos situados no patamar mais baixo de renda familiar da classe C (entre R$ 1.486 e R$ 3.630), indica por que o Ibope constatou profunda divisão nesse grupo de eleitores em cidades como Belo Horizonte, Rio e São Paulo.

Leda acaba de arranjar emprego de operadora de caixa. “É só enquanto estudo. Depois conseguirei algo melhor”, diz ela, que faz curso técnico de Logística pela manhã. Depois de trabalhar a vida toda como vendedora, e de não ter podido estudar, Leda concluiu o ensino médio em 2012 e, graças à nota do Enem, ganhou bolsa para fazer o curso técnico pelo Sistema de Seleção Unificada da Educação Profissional e Tecnológica (Sisutec).

Votou em Lula e em Dilma e vai votar nela novamente. “Esse governo deu oportunidade para a gente que é de baixa renda”, diz Leda. “As oportunidades agora estão aí. Basta que as pessoas corram atrás”, continua, enquanto olha vitrines de lojas de sapato no centro de Belo Horizonte. “Como precisava criar minha filha, não tinha muitas opções, porque tinha baixa escolaridade. Fazia o que aparecesse. Agora que resolvi me preparar para me aposentar com dignidade, vou dar uma melhorada na minha situação.”

“Não vou votar em ninguém”, afirma Ruas, em sua banca de jornal, a duas quadras dali. “Estou descrente com política. É só decepção, muito sofrimento, e a gente não vê retorno”, diz o homem de 49 anos, que estudou até a quarta série e votou em Marina Silva na última eleição: “Eu queria trazer o jeito dela, ver o que que ia dar”. Seu filho é aprendiz de caldeiraria em uma metalúrgica. Ruas e a mulher, que trabalha com ele na banca, gostariam de pagar para o filho uma faculdade de Engenharia Mecânica. Mas não ganham o suficiente para isso.

Guerra. O repórter encontrou vários eleitores de Marina em 2010, que agora não sabem em quem votarão neste ano, embora ela esteja na chapa com Eduardo Campos. Caso de Jennifer Nascimento, estudante de Direito de 23 anos, que faz estágio na companhia elétrica Cemig. “Estou pesquisando”, diz a moça, que mora com a mãe, dona de salão de beleza. “Muitas das propostas que a Dilma fez ficaram a desejar. Principalmente na área da saúde, que é a mais precária no Brasil, e a violência também. Nosso País se compara aos que estão em guerra.”

“Eu acho a Marina uma candidata apta a estar fazendo a mudança que eu gostaria. Mas agora, como o candidato a presidente dela é o Eduardo, eu não votaria”, analisa Izabela Trigueiro, de 27 anos, dona de um estande de bijuterias, relógios e acessórios em uma galeria do centro. “E também não sei se votaria nela para presidente. Por isso a minha dúvida. Não vejo um candidato para votar agora.”

“Uma coisa que achei muito errada foram os investimentos na Copa”, disse a moça, que também estuda Direito. “Deixaram de mexer na saúde, na educação, para investir na Copa. E a gente não vai ter esse retorno. Em vez de ter um grande evento assim, vamos poupar, vamos gastar no que é realmente necessário.” Ela acha que Minas “é o melhor Estado em relação à saúde”. Mesmo assim, não menciona o ex-governador Aécio Neves, candidato a presidente.

“Aécio tem bom crédito aqui em Minas Gerais, mas estou esperando, não tenho certeza”, explica Roberto Alves, de 57 anos, dono de um estande de roupas na galeria. Ele se queixa da precariedade das estradas do Estado. “Se Aécio entrar, a gente acredita que pode até melhorar isso.”, espera. “Mas ainda não decidi por enquanto. Ele não apresentou ainda as propostas dele.” Alves votou em Lula e em Dilma. “Aumentou muito a criminalidade no governo dela”, reprova. “E muitas promessas não foram cumpridas.”

“Vou votar na Dilma por falta de opção”, sentencia Rodolfo Gonçalves, de 34 anos, auxiliar de expedição em uma empresa privada. “Se fosse o Lula no lugar dela, seria mais interessante. Ele se empenhou mais, fez mais pelo Brasil do que ela tem feito. Acho que o Lula está mais preparado que os outros candidatos.” Sentado na Praça Tiradentes, na região central, com sua filha Amanda, de 6 anos, Gonçalves diz que está mais descontente com a falta de segurança, com o aumento dos preços e a corrupção “que a gente está descobrindo que está tendo aí”. Ele cita o exemplo da Petrobrás, que “pagou por uma refinaria o que ela não vale”.

A corrupção e os gastos com a Copa são citados de forma mais virulenta por eleitores que têm aversão ao PT, como Walter Santos, de 51 anos, gerente de lanchonete no bairro Funcionários, na região central. “Mudança sem a Dilma, pelo amor de Deus”, pediu ele, que cursou o ensino médio. “Ninguém aguenta o PT. Está iludindo o povo aí. Quando sair, vocês vão ver o rombo que vai ter - na Caixa, no Banco do Brasil, na Petrobrás. Vocês vão ver o que vai acontecer nesse País nosso.” Nas eleições anteriores, ele votou nos candidatos do PSDB para presidente: Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin e José Serra. Mas neste ano ainda não se decidiu: “Estou entre o nosso mineiro aí, o Aécio, e o Eduardo (Campos)”. Sua maior preocupação é a segurança. “Esse País nosso está meio bagunçado. Nem os militares estão querendo voltar ao poder.”

Aposentados. Já Helvando Santos, de 66 anos, aposentado e vendedor em uma camisaria no bairro Funcionários, está incomodado com a perda do poder aquisitivo. “A Dilma não faz nada para nós que somos aposentados. Só atrapalhou a gente”, critica. “Prometeu muitas coisas para o aposentado e não cumpriu nada. O salário mínimo aumenta mais do que o do aposentado que recebe mais do que isso.” Pelos seus cálculos, enquanto o salário mínimo tem aumento de 6% a 7%, a aposentadoria de quem ganha mais de um salário aumenta 3% ou 4%.

Ele acha que votou em Dilma na última eleição e, antes dela, em Lula. “O Lula foi melhor um pouquinho.” E ainda não sabe em quem vai votar neste ano. “Agora tenho de estudar bem os candidatos.”

Maria Aparecida Albido, de 45 anos, dona de um estande de bijuterias na galeria do centro, também votou em ambos e acha que Lula foi melhor que Dilma. “Pensei que, por ser mulher no poder, iria fazer algo melhor que os outros presidentes homens e, no entanto, me decepcionei”, diz ela. “Acho que poderia ter investido mais em saúde.” Maria Aparecida quer mudança, mas ainda não sabe qual candidato pode trazê-la.

Seminarista de 20 anos, Willian Oliveira vai votar pela primeira vez para presidente e está preocupado com o domínio do PT sobre o governo. “A gente quer mudança, para ver como seria com outros”, afirma. “Um candidato muito visado não tenho, mas, se for olhar mesmo, seria o Aécio, porque foi governador de Minas e a gente já conhece um pouco o trabalho dele.” O rapaz diz aspirar a “mais igualdade social no País” e a mais investimentos na educação. “O professor, por exemplo, é o espelho para todas as outras funções, mas é o menos favorecido”, observa Oliveira, enquanto espera um ônibus na Lagoa da Pampulha, na frente de um famoso mural feito por Di Cavalcanti. “A educação é a base de tudo.”

Paulo Mathias, de 56 anos, segundo-sargento da PM reformado, está mais decidido por Aécio, em quem votará para governador: “Melhorou muito. Pelo menos para nós, funcionários públicos, aumentou os salários, construiu estradas, pagou dívidas”. Para Mathias, “Lula deixou o caminho bem aberto para Dilma”, que na sua visão “não foi ruim”. “Mas, como ministra, comprou aquela usina nos Estados Unidos”, lembra o policial, referindo-se à refinaria de Pasadena, no Texas. “Que rombo, que desfalque que deu! Será que ela não sabia?”

Estradas. Além disso, Mathias lembra que a presidente nasceu em Minas. “Poderia estar olhando mais para o Estado, para nossas estradas. Estão privatizando as rodovias. Sou contra isso também. E o IPVA, vai ser extinto?” Ele gostaria que “diminuísse o número de deputados e senadores e se aplicasse esse dinheiro na saúde, na educação, que estão necessitando muito”.

Marcos Antonio da Silva, de 42 anos, que trabalha em uma barraca de aves no Mercado Municipal, também não considera o governo Dilma de todo ruim e votará em Aécio. “Não porque é mineiro, mas tem uma cabeça boa. Não que a Dilma seja ruim, mas para a gente ter uma situação melhor um pouquinho, porque está piorando, está complicado”, diz ele. “Sou casado, tenho quatro filhos e dois netos. A carne que eu comprava um tempo atrás hoje em dia está duas ou três vezes mais cara. Aqui no mercado você paga R$ 1,50 por um copo de água, R$ 3 pela garrafinha. Isso custava há um ano e pouquinho mixaria. Tudo tem que dar uma valorizada, mas desencaminhou muita coisa.”

“Eu sinto porque faço compras de casa de 15 em 15 dias”, continua Silva. “Um arroz que eu comprava na semana passada a R$ 9, amanhã já está a R$ 9,50, R$ 9,30.” Em contrapartida, ele diz que não pode aumentar os preços de suas aves: “Se eu aumentar R$ 0,50 em um quilo de frango, para R$ 18,50, a pessoa compra na barraca ao lado. O meu pode até estar melhor um pouquinho, mas a pessoa prefere pagar R$ 18 no dele, porque num montante de quilos dá uma diferença”. Silva votou em Dilma na última eleição: “Tudo no começo é uma beleza, mas depois que passa o tempo o trem desencaminha, não sei o que que é isso. Em vez de melhorar, piora.” 

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