Em encontro no Panamá, SIP debate as mídias digitais

Reunião de Meio do Ano da entidade discutirá também como impedir que governos controlem o uso da internet

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2015 | 02h01

O desafio de tornar rentáveis os novos meios digitais foi o tema principal do primeiro dia da Reunião de Meio de Ano da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que começou ontem e se estende até terça-feira na Cidade do Panamá. O assunto esteve presente em quatro diferentes debates nos salões do Hotel Hilton Panamá, que trataram de "paywall e outras estratégias", de "horários e fluxos de trabalho em multimídia" e da "proliferação de audiências".

Causou polêmica, entre os palestrantes, uma previsão do jornalista Fabrício Altamirano, do Diário de Hoy, de El Salvador. Ele afirmou que os executivos da comunicação "enfrentam hoje uma tarefa de antropólogos", pois precisam "entender os gostos e comportamentos de suas plateias e descobrir como combiná-los com o produto que têm a oferecer".

No caso da rentabilidade, Altamirano disse que "o digital tende para os micropagos. O segredo não está em pagar US$ 40 por uma assinatura mensal, mas em oferecer ao leitor a possibilidade de pagar individualmente por cada notícia".

O encontro, de que participam cerca de 300 profissionais de mais de 20 países do continente, começa sob o impacto de seis mortes de jornalistas nos últimos meses - na Colômbia, no México e em Honduras.

A agenda da assembleia, que vai até terça-feira, incluirá a apresentação de relatórios de todos os associados sobre a liberdade de expressão em seus países. O relatório do Brasil deverá mencionar entre dez e 15 episódios em que jornalistas foram presos ou ameaçados nos últimos seis meses.

No mesmo debate sobre como ganhar dinheiro com mídias digitais, ontem, o jornalista americano David Ho, especialista em mídias do The Wall Street Journal, lembrou que "existem hoje no mundo 7,4 bilhões de dispositivos móveis e ignorar esse dado equivale a uma sentença de morte". A análise desse cenário incluiu os impactos causados na rotina das redações - por exemplo, no horário de trabalho e na integração, em um único ambiente, de profissionais de diferentes técnicas e rotinas.

Cúpula. Para o diretor executivo da SIP, Ricardo Trotti, o encontro do Panamá vai servir como "uma antessala" da Cúpula das Américas, a se realizar na Cidade do Panamá nos dias 10 e 11 de abril, que terá a presença de representantes de Cuba e, como tema central, a reaproximação do país com os Estados Unidos. Em entrevista à agência EFE, Trotti afirmou que essa reaproximação será objeto de uma "mensagem especial" da reunião da SIP.

Nesse texto, segundo ele, se destacará que "não pode haver acordo nem benefício para nenhum dos dois países se não estiver condicionado a um grande contexto de transparência e liberdade de expressão". É provável que os pontos desse documento sejam definidos em painel especial marcado para amanhã às 12h30, sob título "Uma nova América? - O impacto geopolítico após o surpreendente acordo entre EUA e Cuba". Entre os palestrantes estará a blogueira cubana Yoani Sánchez.

Na entrevista, Trotti abordou também os debates do dia sobre como financiar os meios digitais. O "crescimento vertiginoso" desses meios, afirmou, deverá impelir os anunciantes "a ir também para lá, porque os anunciantes sempre vão para onde a audiência está". Mas o fundamental, acrescentou, é que os meios de comunicação "saibam seguir adiante criando agendas públicas e mantendo sua importância e valor agregado".

Turbulências. Outro tema importante do domingo será "Debilidade institucional: um peso para a América Latina", em que se discutirá "a falta de independência dos poderes públicos, as turbulências políticas e a falta de transparência", que enfraquecem a democracia no continente. Um dos palestrante será o jornalista Edison Lanza, relator especial para Liberdade de Expressão da Organização dos Estados Americanos.

A agenda dominical inclui ainda uma homenagem ao colombiano Gabriel Garcia Marquez - morto no ano passado -, que além de escritor foi jornalista e criou a Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano.

A SIP é uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo a defesa da liberdade de expressão e de imprensa nos países do continente americano. A entidade é composta por 1.300 publicações afiliadas.

Programação

Sábado

9 horas
Reunião da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação e Painel “Como os governos controlam a internet”

12h30
Abertura oficial da reunião 
pelo presidente do Panamá, Juan Carlos Varela

14 horas
Entrega do prêmio Chapultepec a Catalina Botero, ex-relatora do Comitê de Liberdade de Expressão da OEA

16 horas
Mesa redonda “Restrições Legais”, sobre pressões para mudar as leis sobre comunicações

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